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Máfia é a empresa mais lucrativa de Itália

A Libera é uma das principais organizações que combate a atividade mafiosa no país. Associação distribui imóveis apreendidos pela Justiça. Artigo de Giorgio Trucchi, publicado em Opera Mundi.
De acordo com os dados da Libera, durante as últimas duas décadas (1992 e 2014) a guerra da máfia deixou um saldo de 3500 mortos.

A máfia é, sem dúvida, a empresa italiana mais lucrativa do país, com um volume de negócios anual de mais de 138 mil milhões e um lucro de 105 mil milhões de euros (XIII relatório da organização SOS Impresa, 2012). O Estado, por sua vez, consegue confiscar à criminalidade organizada apenas uma média de 20 mil milhões de euros, incluindo bens imóveis e empresas.

Em Itália, estima-se que existam cerca de 12 mil propriedades — entre apartamentos, vilas e terrenos — confiscadas a diferentes formas da máfia, mas a organização Libera, criada em 1995 com o objetivo de estimular a sociedade italiana na luta contra as organizações mafiosas, promovendo legalidade e justiça, assegura que tais bens não seriam menos de 50 mil e que, na sua maioria, encontram-se em estado de abandono ou subutilizados.

Atualmente, a Libera reúne e conecta mais de 1600 associações, movimentos, organizações e cooperativas sociais, cerca de 4500 escolas e mais de 12 mil pessoas, todas comprometidas, nos seus territórios, com a construção de sinergias políticas, organizacionais e socioculturais. É por isso que, perante esta situação, ao contrário da paradoxal, inerte e lenta ação do Estado, a Libera tem promovido a efetiva aplicação da lei 109/96 sobre a reutilização social dos bens apreendidos às máfias, assim como a educação para a legalidade, o compromisso contra a corrupção e o apoio às vítimas desses criminosos.

Essa lei prevê a distribuição dos patrimónios de origem ilícita aos sujeitos, sejam eles associações, cooperativas ou entidades públicas territoriais, que tenham a capacidade de devolvê-los à cidadania, por meio de serviços ou atividades de promoção social e de trabalho.

“Lamentavelmente, a Agência Nacional dos Bens Confiscados precisa de pessoal, logística e capacidade e os bens imóveis efetivamente distribuídos não são mais de 1500 em todo o território nacional”, analisa Davide Salluzzo, representante da Libera da região da Lombardia, ao Opera Mundi.

Segundo ele, o único caminho possível é “empobrecer as máfias”, confiscando seu património e as suas riquezas, semeando consciência e valores na sociedade, restituindo direitos à cidadania.

“São organizações internacionais com patrimónios enormes e isso inclui seres humanos. Se queremos de verdade derrotar as organizações mafiosas, devemos retirar os seres humanos das suas garras. Isso só se se faz restituindo e garantindo direitos à população”, explicou Salluzzo.

Crise, pobreza e máfia

Atacar a miséria e combater a precarização da vida e do trabalho significa atacar a máfia. De acordo com dados do ISTAT (Instituto Nacional de Estatística), de 2013, mais de 10 milhões de pessoas vivem em situação de pobreza em Itália (600 mil a mais que em 2012), isto é, quase 16% da população. Outros 6 milhões (1,2 milhão a mais que no ano anterior) vivem em pobreza extrema e representam mais de 10% da população. Tudo isso significa que um em cada quatro italianos enfrenta sérios problemas de sobrevivência.

Da mesma forma, o Eurostat (Gabinete de Estatísticas da União Europeia) adverte que um em cada três italianos está em risco de cair na pobreza e que os menores de idade são os que mais sofrem com esta situação. Durante o último ano, a quantidade de jovens pobres dobrou — de 723 mil para 1,5 milhão — e o desemprego juvenil alcançou o valor recorde de 44% a nível nacional e 60% no sul do país.

Se a esta situação acrescentarmos que existem mais de 3 milhões de trabalhadores em situação precária e que a União Europeia estima em 12% a percentagem de trabalhadores cujo salário não chega até ao final do mês, fica evidente que o desespero de milhares de pessoas transforma-se num verdadeiro ingrediente para a proliferação das atividades mafiosas, o recrutamento de novos adeptos e a violência criminal.

“Se para as pessoas a crise é uma condenação e fonte de desespero, para as máfias é uma grande oportunidade. Se juntamos os efeitos da crise com a debilidade da política e a falta de ética e de responsabilidade, o resultado é catastrófico”, disse dom Luigi Ciotti, presidente da Libera.

Responsabilidade que vem de baixo

De acordo com o sacerdote, a luta contra a pobreza deve ser plantada desde baixo em termos de interdependência entre as pessoas. “Não podemos exigir que a política e as instituições se comprometam contra as máfias se nós não somos responsáveis e não fazemos o mesmo”, acrescentou.

Também é evidente a relação estreita existente entre a máfia e a corrupção. “Não podemos derrotar a máfia se não combatermos a corrupção. Trata-se de uma batalha cultural e temos de traçar uma linha bem definida, transformando nossa indignação em propostas, compromissos e maior responsabilidade”, alertou o presidente da Libera.

Essa visão levou as diferentes organizações que integram a Libera a apresentar estratégias e instrumentos. Ao longo das décadas, foram promovidos diferentes projetos e propostas concretas, que abriram uma brecha de esperança no tecido social italiano.

Exemplos disso são, entre outros, os projetos “Libera Terra”, que fomenta a produção cooperativa de alimentos em terrenos confiscados da máfia; “Libera Escola” e “Libera Universidade”, que promovem a educação para a legalidade; e a campanha “Miséria Ladra”, para dar respostas imediatas para a crise económica e social, fortalecer a participação cidadã e revitalizar a democracia.

O “SOS Justiça”, que acompanha as denúncias daqueles que sofrem perseguição da máfia, o “Salva Família”, que dá um amplo apoio aos núcleos familiares que vivem na indigência e o “Libera Welfare”, que promove a reutilização para fins sociais de imóveis confiscados das máfias, são outros projetos promovidos pela Libera.

“Não é possível que estejamos há 400 anos a falar da Camorra, 150 anos a falar da Cosa Nostra e 120 anos a falar da Ndrangheta. Temos de juntar todas as nossas capacidades e competências. Devemos acelerar a nossa intervenção porque as máfias são mais rápidas. Enfim, temos de transformar as palavras em atos concretos, em práticas, em ação”, ressaltou dom Ciotti durante a inauguração, em outubro passado, de uma nova edição do Contromafie.

O Contromafie é um evento no qual associações e organizações que trabalham contra as diversas formas de crime organizado e contra a corrupção se encontram para comparar estratégias e caminhos, desenvolver propostas e promover ações concretas, boas práticas de liberdade, cidadania, informação, direito, justiça e solidariedade.

O norte é terra de máfia

No imaginário coletivo, a máfia é algo que preocupa o sul da península italiana. Não há nada mais equivocado. “Libera Casa”, a nova sede da Libera na Lombardia, encontra-se na cidade de Trezzano, sul de Naviglio, no subúrbio de Milão. O imóvel, que foi confiscado do crime organizado e, sucessivamente, destinando para fins sociais da Libera, é dedicado a Angelo Vassallo, presidente da Câmara de Pollica, na província de Salerno, assassinado pela máfia em 2010.

De acordo com os dados da Libera, durante as últimas duas décadas (1992 e 2014) a guerra da máfia deixou um saldo de 3500 mortos. “Decidimos abrir esta nova sede num imóvel confiscado e num território da máfia, onde o conselho municipal foi dissolvido três vezes por corrupção e onde há uma propriedade confiscada da máfia a cada mil habitantes. É um sinal muito forte que estamos a lançar para a sociedade”, advertiu Davide Salluzzo.

A procura de alianças e a construção de redes territoriais têm sido prioridade durante estes primeiros meses. “As máfias devem devolver o que roubaram para que possamos criar desenvolvimento e ocupação. A única forma de conseguir isso é trabalhar em rede e estimular políticas de contraste à pobreza, que semeiem justiça e debilitem a cultura mafiosa”, continuou o responsável pela Libera Casa.

Entre as primeiras atividades desenvolvidas, destaca a produção e a comercialização de bens da Libera Terra. Cada produto tem em sua etiqueta o nome de uma vítima da máfia, como o vinho tinto “Placido Rizzotto”, sindicalista sequestrado e assassinado pela Cosa Nostra em 1948, ou o azeite de oliva extra virgem “Barbara Rizzo”, em homenagem à mulher que perdeu a vida em 1985, junto com seus filhos Giuseppe e Salvatore, na explosão de uma bomba destinada a assassinar um juiz.

“Perante a globalização e da reorganização das máfias, devemos globalizar, fortalecer e reorganizar o nosso projeto, com um olho muito atento para os jovens e as forças vivas que existem nos territórios”, concluiu Salluzzo.

Artigo publicado em Opera Mundi.

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