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“O Syriza precisa de um mandato claro e forte nas eleições”

Com o aproximar do cenário de eleições em janeiro da Grécia, o esquerda.net falou com Argiris Panagopoulos, jornalista e membro do Syriza, sobre a situação política grega.
Argiris Panagopoulos é jornalista no diário Avgi e membro do Departamento Europeu do Syriza.

A primeira votação do candidato de Samaras falhou. Que cenário podemos esperar nas próximas?

O Governo tem uma maioria limitada de 155 deputados em 300. Para eleger um novo presidente precisa pelo menos de 180 deputados. Temos assistido a uma campanha intimidatória por parte não só do Governo mas também da troika e da Comissão Europeia. Junto com os media, dirigem essa campanha contra os deputados independentes e o povo grego. Mas a verdadeira complicação para Samaras e a Troika é que é cada vez mais curta a possibilidade de encontrar deputados dispostos a votar a completa destruição do seu país.

Apesar dos apelos de Samaras, o Syriza está a ganhar avanço em todas as sondagens. Que efeito poderá ter a dramatização na campanha eleitoral?

A direita, os socialistas, os banqueiros, os especuladores e os mais reacionários que se escondem nas instituições europeias já começaram a campanha para meter medo às pessoas. É uma estratégia de tensão conhecida, já foi aplicada nas eleições de 2012. O problema deles é que agora muita gente sabe que não são os comunistas que lhes vão roubar a casa, são os bancos e a troika...

Não basta ao Syriza que as sondagens dêem a vitória. O Syriza quer a maioria absoluta, não para ser governo mas para aplicar o seu programa sem entraves.

Não basta ao Syriza que as sondagens lhe dêem a vitória. O Syriza quer a maioria absoluta, não para ser governo mas para aplicar o seu programa sem entraves. Sabemos bem as dificuldades que vamos enfrentar após as eleições quando pusermos em marcha verdadeiras reformas para garantir direitos sociais, económicos e democráticos que foram atacados pela crise.

Na região de Ática, que já é governada pelo Syriza, multiplicámos por seis a despesa social e garantimos o acesso à eletricidade às famílias com dificuldades, com um apoio de 360 euros por ano na fatura da luz. E levámos à justiça a questão da privatização costeira e dos bens públicos de Ática que a Troika nos impôs. Também por isto se percebe que o Syriza não seja visto como um partido de promessas mas como um partido de esperança, de luta e de mudanças reais na vida dos cidadãos.

E como foi recebida a mensagem de Bruxelas, que apelou aos deputados gregos para votarem no candidato proposto pelo Governo?

Há quase cinco anos que vivemos com uma contínua ingerência nas nossas vidas. O voto no Syriza será também um voto para reconquistar a nossa soberania nacional e a nossa dignidade. O problema são aqueles que deixaram os de Bruxelas decidirem por nós.

Na Grécia, como aliás em Portugal, o governo diz que as coisas estão a melhorar na economia. Mas isso traduz-se nalguma coisa no dia a dia da população?

Eles batizaram como “success story” as suas melhorias: o salvamento dos bancos em troca da hipoteca das vidas de duas ou três gerações; a garantia dos lucros das grandes empresas; ficarmos com quase um terço da população sem trabalho e a outra parte com salários de miséria; e um terço da população estar agora sem acesso a cuidados de saúde.

Nada melhorou na economia, porque para haver algum progresso positivo seria necessária uma taxa de crescimento acima dos 4 ou 5%. Como podemos ter algo parecido com a austeridade e sem investimento público?

Se a eleição presidencial falhar, em fevereiro há grandes hipóteses de vermos um governo do Syriza a tomar posse. Que condições terá para sobreviver aos ataques que irá sofrer por parte dos media e do poder financeiro?

Essa resposta só as urnas podem dar. O Syriza precisa de um mandato claro e forte. Sabemos quem temos pela frente e lutámos duramente para chegar ao momento de correr com eles. Para governar, o Syriza não precisa apenas do voto. Precisa da participação das pessoas, dos trabalhadores, dos sindicatos, dos partidos de esquerda, da sociedade civil democrática num projeto diferente para o nosso país e a Europa. Por isso precisamos da solidariedade dos povos europeus e em especial da Europa do Sul. Queremos propor uma Conferência Europeia sobre a Dívida porque ela não é um problema nacional.

O grande desafio é o de saber o que fazemos com esta Europa. Nós propomos reconstrui-la das ruínas do neoliberalismo, não há outra solução. Nas próximas eleições gregas a escolha será entre os bárbaros e as nossas vidas enquanto seres livres e dignos.


Entrevista de Luís Branco para o esquerda.net

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