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Vidas estragadas

Os fazedores de opinião acham invariavelmente que as pessoas que estragam as suas vidas lutando pela democracia e pelos direitos lá longe são heróis e exemplos para todos nós. Quando as lutas pela democracia e pelos direitos são do lado de cá, aí os fazedores de opinião mudam de opinião.

Esta coisa de vidas estragadas tem o que se lhe diga.

Os fazedores de opinião acham invariavelmente que as pessoas que estragam as suas vidas lutando pela democracia e pelos direitos lá longe são heróis e exemplos para todos nós. Dizem-nos que essa disponibilidade para estragar as vidas em nome da solidariedade com todos é uma virtude, uma expressão de superioridade cidadã sobre o individualismo instalado e o egoísmo de sofá.

Esse elogio dos fazedores de opinião aos lutadores pela democracia e pelos direitos pressupõe, no entanto, a verificação de dois requisitos. O primeiro é que a luta pela democracia e pelos direitos só vale se ocorrer onde não houver nem democracia nem direitos nenhuns. Se já houver democracia e direitos e a luta for por mais, já a coisa se começa a tornar complicada. Os fazedores de opinião gostam de realidades simples, em que a luta seja entre o zero e o mínimo, em matéria de democracia e de direitos. Acima do mínimo já tudo fica muito mais discutível. Daí o segundo requisito: os que lutam pela democracia e pelos direitos são heróis se as suas lutas forem lá longe. Para os fazedores de opinião, deste lado do mundo não há lutas por democracia nem por direitos.

Quando as lutas pela democracia e pelos direitos são do lado de cá e são por mais democracia e por mais direitos, aí os fazedores de opinião mudam de opinião. As lutas que, lá longe, são heroicas passam, quando são do lado de cá, a ser coisas de grupos de interesse, corporativismo, defesa de privilégios, pieguices enfim. Passam a ser caprichos que estragam as vidas não de quem as faz mas de quem fica com o seu quotidiano perturbado. Se for do lado de cá e se for por mais do que o mínimo, vidas estragadas deixam de ser sinónimos de virtude e passam a causa de ilegitimidade das lutas. Se for do lado de cá, uma greve nunca se discute pelos direitos que quer defender e pela democracia que quer acrescentar; não, se for do lado de cá, uma greve discute-se pelo transtorno que causa aos que não a fazem. Mais ainda, fazedor de opinião que se preze mede sempre uma greve por quanto ela vai custar ao erário público e aos erários privados. Para um fazedor de opinião como deve ser, uma greve é um centro de custos.

Por isso, não me admirava nada que, um destes dias, os fazedores de opinião viessem dizer o que só por timidez ainda não disseram: doravante o direito à greve só se pode exercer se for a custo zero. São assim de ousados os defensores dos direitos zero e da democracia mínima.

Sobre o/a autor(a)

Deputado e Vice-Presidente da Assembleia da República. Dirigente do Bloco de Esquerda, professor universitário.
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