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Abanando os céus em Ferguson, Missouri

“Vamos abanar o céu”, disse-me um jovem, enquanto enfrentava a polícia antimotim. Esse fogo, esse compromisso inextinguível, e não os edifícios em chamas, é o que mais deveriam temer aqueles que beneficiam da injustiça.

“Enquanto continuar a adiar a justiça, estaremos sempre à beira destas noites escuras de distúrbios sociais”. Martin Luther King Jr. dizia isto num discurso pronunciado a 14 de março de 1968, apenas três semanas antes de ser assassinado.

O assassinato de Michael Brown em agosto continua a provocar ondas de choque em Ferguson, Missouri e mais além. Na noite da segunda-feira 24 de novembro, o anúncio do promotor do condado de Saint Louis Robert McCulloch de que não apresentaria acusação criminal contra Darren Wilson, o polícia que matou Michael Brown, desencadeou uma noite de distúrbios. Por algum motivo incompreensível, McCulloch atrasou a revelação da decisão do grande júri até ao anoitecer. A conferência de imprensa do promotor indignou profundamente muitas pessoas, já que McCulloch defendeu energicamente as ações de Darren Wilson e atacou o carácter da vítima, Michael Brown.

Pouco depois do anúncio de McCulloch, Ferguson entrou em erupção. Foram incendiados edifícios, que arderam por completo. Viram-se carros envoltos em chamas. A polícia antimotim reprimiu violentamente os manifestantes e, fazendo caso omisso das tão apregoadas “regras de compromisso” acordadas com os organizadores do protesto, lançou gases lacrimogéneos aos residentes indignados. Ao longo da noite também soaram alguns disparos de armas de fogo.

“A vida dos negros não importa”, disse um jovem que participou no protesto em Ferguson, na noite gelada de segunda-feira. Perto dali, o gás lacrimogéneo misturava-se com o fumo nocivo dos grandes incêndios. Outra manifestante, Katrina Redmon, explicou a sua frustração com a decisão de não acusar Darren Wilson: “Ele matou um adolescente negro desarmado. Não há desculpa para isso. Um homem foi assassinado e ninguém paga por isso... queremos respostas. Porque parece que a única maneira de escapar ao castigo por assassinato é ter um distintivo da polícia”.

Entrevistei alguns manifestantes em frente à esquadra da polícia em Ferguson, que estava rodeada de polícias antimotim. Não estávamos muito longe do lugar onde mataram Michael Brown, que recebeu pelo menos seis disparos de Darren Wilson, e onde o seu cadáver foi deixado na rua, de bruços e a sangrar, durante mais de quatro horas sob o sol ardente de agosto enquanto os seus amigos e vizinhos contemplavam a cena horrorizados. Quando aumentaram os protestos após a morte de Brown, as polícias estatal e local usaram um conjunto surpreendente de equipamentos e armas militares, o que mostra como o Pentágono tem estado a repartir silenciosamente o arsenal de guerra excedente do Iraque e do Afeganistão por milhares de cidades e populações de todo o país. Desde os atentados de 11 de setembro de 2001 foi transferido armamento deste tipo num valor de mais de cinco mil milhões de dólares. Os Estados Unidos têm agora uma força militar de ocupação: a polícia.

A polícia antimotim e a Guarda Nacional isolaram os bairros brancos de Ferguson, enquanto o lado negro da cidade, ao longo da West Florissant Avenue, estava em chamas. Ali quase não havia polícias. O governador do Missouri, Jay Nixon, declarou o estado de emergência na semana anterior à da decisão do grande júri; no entanto, os efetivos da Guarda Nacional que foram destacados não se encontravam em nenhum local desta parte da cidade. Uma dezena de empresas ficou em chamas. Por que ficou desprotegida a zona de West Florissant Avenue? As autoridades deixaram que Ferguson ardesse?

No seu discurso de 1968, “A outra América”, o Dr. King falou do receio de um iminente verão de distúrbios como os que açoitaram, em 1967, Newark, Nova Jersey, Detroit e outras cidades do interior. King disse:

“Não basta que eu esta noite me apresente perante vós e condene os distúrbios. Fazê-lo seria moralmente irresponsável sem condenar ao mesmo tempo as condições intoleráveis que existem na nossa sociedade. Estas condições são o que leva as pessoas a sentir que não têm outra alternativa do que participar em rebeliões violentas para chamar a atenção. E tenho que dizer esta noite que o motim é a linguagem de quem não é escutado”.

Os não escutados de hoje, os cidadãos de Ferguson que estão nas ruas há mais de cem dias, não foram quem iniciou o incêndio. Eles exigiam justiça. As massivas manifestações de solidariedade realizadas por todo o país e pelo mundo estão a ampliar as suas reivindicações, a vincular as lutas, a construir um movimento de massas.

“Vamos abanar o céu”, disse-me um jovem, enquanto enfrentava a polícia antimotim. Podia ver-se o seu alento no ar gelado dessa noite. Estava a tremer de frio, mas não fugia. Esse fogo, esse compromisso inextinguível, e não os edifícios em chamas, é o que mais deveriam temer aqueles que beneficiam da injustiça.

Artigo publicado em Truthdig em 26 de novembro de 2014. Denis Moynihan colaborou na produção jornalística desta coluna. Texto em inglês traduzido por Inés Coira para espanhol para Democracy Now. Tradução para português de Carlos Santos para Esquerda.net

Sobre o/a autor(a)

Co-fundadora da rádio Democracy Now, jornalista norte-americana e escritora.
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