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Convívio ou violência? Os meets e a afirmação do direito à cidade

Foi a partir de um meet nas proximidades do centro comercial Vasco da Gama, em agosto, que este assunto ocupou o horário nobre dos telejornais portugueses. Mas, afinal, o que são realmente os meets? O que pensam os seus participantes? Nesta reportagem, descrevemos um desses eventos e ouvimos os seus frequentadores sobre as razões que os levam a participar neles. Artigo de Otávio Raposo, publicado em buala.org
Concentração de jovens no meet do Parque das Nações . Fotos de Otávio Raposo

Neste verão, Portugal passou a conhecer uma nova forma de convívio entre os jovens. Chama-se meet e já integra a agenda sócio-política do país. O meet é um encontro realizado em espaços públicos de Lisboa, no qual as redes sociais desempenham um papel preponderante. O objetivo, conforme a descrição dos seus organizadores nas páginas dos eventos, é proporcionar o encontro de amigos, socializar e conviver. Foi a partir de um meet nas proximidades do centro comercial Vasco da Gama, em Agosto, que este assunto ocupou o horário nobre dos telejornais portugueses. Quatro pessoas foram detidas e um vídeo a mostrar polícias que impediam jovens negros de entrar naquele centro comercial tornou-se um símbolo da luta contra o racismo. Mas, afinal, o que são realmente os meets? O que pensam os seus participantes? Nesta reportagem, descrevemos um desses eventos e ouvimos os seus frequentadores sobre as razões que os levam a participar neles.

Meet do Vasco da Gama

Na praça coberta do Pavilhão de Portugal, no Parque das Nações, dezenas de jovens confraternizam entre si numa espécie de ritual de celebração da convivialidade. Entre risos, fotografias (selfies) e conversas, passeiam nesse espaço, indo de grupo em grupo para se conhecerem, fazendo muito barulho como é comum acontecer quando jovens estão reunidos. Alguns andam de skate pelo recinto, outros sentam-se em grupo para tocar guitarra e cantar, e há os que se abraçam, por vezes com cartazes no pescoço a indicar as suas pretensões: “abraços grátis”. Muito novos, a maioria dos presentes tem entre 13 e 18 anos de idade, a mesma quantidade de rapazes e raparigas, maioritariamente brancos. O número de participantes do “meet de final de verão”, cresce à medida que se aproxima a hora marcada para o início do evento: 15 horas. Estávamos no dia 13 de Setembro, três semanas depois de um outro evento semelhante ter ganhos as manchetes da imprensa, introduzindo a palavra meet no vocabulário nacional. Embora os jovens estejam espalhados por todo o recinto, concentram-se no meio do pavilhão: lugar de encontros, namoros e brincadeiras. Uma das diversões preferidas é escrever no corpo dos amigos o nome (ou username) usado nas redes sociais ou o @, que serve de link para se chegar mais facilmente à página da pessoa.

No meio do pavilhão um grupo de oito raparigas escreve nos corpos umas das outras os seus nomes ou o @. Com o marcador numa das mãos, uma delas, de 14 anos, aponta para a inscrição “Nosh” no braço da amiga e explica: “Este é o meu nome. É uma forma de eu divulgar o meu Twitter”.

Os nomes utilizados por elas são variados e, em geral, indicam desde gostos musicais (“A boo do Style 69”) e personalidades (“Hopeless”), até galhofas (“Ana Bifana”) e menções sexuais (“P*** Dela”). “The Pussy Cat”, 17 anos, entende os meets como uma forma de convívio entre os jovens: “Nós sempre fizemos meets e meets é uma coisa boa porque acabamos por socializar e passar um bom dia. É uma forma de conhecermos pessoas com quem só falamos virtualmente, há pessoas que começam a namorar a partir do Twitter. E passamos um ótimo dia”.

“Russa de Nádia”, 13 anos, explica que antes se chamava “Unicórnio Russa” porque gostava deste animal mitológico. Surpresa, uma das meninas presentes reconheceu o nome, dizendo que, afinal, ambas já eram amigas do Twitter. Abraçam-se calorosamente, contentes por reatar a amizade.

A ideia principal dos meets é dar oportunidade aos jovens que se conhecem nas redes sociais para estarem juntos pessoalmente, momento em que podem trocar confidências, divertir-se e até namorar. É habitual na véspera dos meets os jovens escreverem nas suas contas de Twitter ou de Facebook o nome das pessoas que pretendem encontrar, uma forma criativa para se reconhecerem. Escrever o nome ou o @ no corpo é parte desse processo, que serve, também, para que as relações de amizade criadas nos meets possam ser alimentadas virtualmente. Mais importante do que trocarem os números de telemóvel, interessa a esta geração conhecer o Twitter ou oFacebook uns dos outros. Nesta lógica, o ciclo completa-se. Por via das redes sociais, jovens vão para os meets interagir face a face, momento em que inscrevem nos corpos dos colegas os seus @, o que permite desfrutar a amizade no mundo virtual.

Jovem com a t-shirt da sua banda favorita: One Direction

Com a camisa da sua banda favorita (One Directions), “A Boo do Style 69”, 14 anos, diz que aquele meet era dos adeptos do Twitter, apesar “da malta do Facebook se infiltrar” inoportunamente. Culpabilizam-nos pelos problemas ocorridos no meet de 20 Agosto, quando quatro pessoas foram detidas após uma dura repressão policial que expulsou os jovens do interior do Centro Comercial Vasco da Gama. O modo como os média retrataram este episódio influenciou a opinião pública, que passou a associar o fenómeno ao vandalismo e à violência. Não por acaso os frequentadores do meet criticam os meios de comunicação social, sentindo-se na obrigação de esclarecer o significado desses eventos, muitas vezes através da ironia. “Esqueci a minha knife em casa”, refere uma delas de forma provocadora. Mais séria, “A Boo do Style 69” denuncia: “Relacionam agora o meet a confusões e não a conhecer pessoas, que é o que são os meets. A imprensa nunca se deu ao trabalho de ver como é que são os meets”.

Realmente não havia qualquer órgão da imprensa naquele meet, apesar da grande aglomeração de jovens: cerca de 500. Até porque não é fácil para quem está fora dessas redes de amizades juvenis ter acesso a eles. O meet do Centro Comercial Colombo, convocado uma semana depois dos episódios de violência registados no Vasco da Gama, é bem caricato dessa situação. Dezenas de jornalistas e um amplo contingente policial compareceram, mas nenhum participante. Mais do que um flop, havia uma clara intenção dos organizadores desse meet em confundir a polícia e os órgãos de comunicação social, responsáveis pelo discurso criminalizador dos dias anteriores. Como revelou Luís Martins, 18 anos, organizador de um meet em Belém: “O meet do Colombo foi uma maneira de fugir à polícia. Portanto, a única coisa que houve no Colombo foi polícias e jornalistas”.

Após a descoberta dos meets pela comunicação social, esta forma de encontro informal tem sido alvo de uma intensa mediatização, fazendo com que o número de eventos tenha crescido substancialmente. Todavia, muitos deles não são reais ou acabam por juntar um número baixo de participantes. Para que o meet tenha sucesso é preciso, em primeiro lugar, que o organizador seja “famoso” ou “social” nas redes, tendo um extenso número de seguidores. Os youtubers, jovens que postam vídeos nesse site a falar sobre os problemas do dia-a-dia, muitas vezes de forma cómica, são alguns desses famosos. Com milhares de seguidores, alguns deles são capazes de mobilizar muitos participantes, tornando um meet mais apetecível. É o que afirma Luís Martins, que gosta de tirar selfies com alguns dos youtubers portugueses que segue, sempre que tem uma oportunidade: “Muita gente quer conhecê-los para poder tirar fotografias e meter no Twitter, ou até mesmo no Facebook. E: ‘olha, hoje eu estive com esse famoso’. A partir daí é diferente, pois tirar fotografias com famosos de certeza que o meu ego sobe mais do que tirar uma fotografia com pessoas que eu já conheço.”

Não é preciso ser necessariamente um youtuber para ser um “social” no Twitter, tampouco é obrigatório saber cantar, dançar ou ter qualquer outra habilidade excepcional. Mais importante é o candidato a “famoso” investir no perfil. Uma das exigências principais é estar o mais conectado possível à Internet para atualizar o seu estado (no caso do Facebook), enviar tweets (no caso do Twitter), postar fotografias, dar e receber likes, enfim, interagir com as pessoas da rede. Adepta do Twitter, “Nosh” costuma postar em média mais de 200 mensagens por dia, mas revela que quando está com “criatividade” esgota o limite estabelecido de 1500 tweets por dia.

O “Esmifrado” (óculo e t-shirt preta), 18 anos, com amigos

Na outra margem do pavilhão, um grupo de jovens conversa animadamente sobre os últimos dias de férias. O “Esmifrado”, 18 anos, é quem centraliza as atenções, tal como o amigo “Zuca”, responsável pela organização daquele meet. Fazem questão de afirmar que aquele é um meet do twitter, condição essencial para o evento ser de qualidade, dada a vulgarização atual. Segundo o “Esmifrado”, os meets banalizaram-se demasiado no último ano, por vezes ocorrendo todos os meses, quando originalmente estes só aconteciam em épocas festivas: Páscoa, Verão, Halloween ou Natal. Anteriormente, as pessoas ficavam ansiosas pela chegada de um meet, sentindo-o como um evento especial, explicou. Com a moda dos meets, parte da piada se perdeu, até porque esses encontros foram invadidos por pessoas do Facebook, a quem atribui a responsabilidade pelas confusões que, por vezes, acontecem: “As pessoas do Facebook vêm só para resolver confusões. Chateiam-se com a pessoa on-line, e depois quando se encontram no meet querem resolver fisicamente. E no Twitter não é bem assim, é o convívio. Pelo menos era, agora já está muito vulgarizado porque o meet está muito expandido.”

Com mais de nove mil seguidores, o “Esmifrado” frequenta os meets há mais de três anos, quando o evento era exclusivo dos adeptos do Twitter, uma rede social que tem vindo a expandir-se entre as novas gerações. O aumento do número de participantes nos meets, conjugado com a forte mediatização do fenómeno, produziu algumas alterações no modo de as pessoas conviverem, segundo o seu ponto de vista. A união que dizia existir anteriormente já não é mais a mesma. Por outro lado, a associação dos meets ao vandalismo levou muitos pais a dificultar a participação dos filhos. É o caso da “Nhecos”, uma jovem de 19 anos de idade que toca guitarra e canta em conjunto com amigas em roda. Moradora de Setúbal, “Nhecos” veio ao meet escondida da mãe: “A minha mãe não sabe, porque senão… Ela tem medo por causa dos meets antecedentes, os meets que aconteceram aí: facadas e etc. Se a minha mãe pensa que eu estou aqui, vem me buscar com uma caçadeira e mata essa gente toda. Tô a brincar, né.”

É notório nos discursos de muitos dos participantes uma certa animosidade em relação aos jovens do Facebook, considerados “azeiteiros” ou swags. “Loirinha”, 16 anos, amiga da “Nhecos”, comentou a outras que “cheira a azeite”, apontando para um jovem que passa próximo, vestido com roupas de marca, boné de aba plana e ténis colorido. Diz que aquele indivíduo é “de certeza do Facebook”, sendo muito fácil reconhecer os “azeiteiros”, não só por se vestirem todos iguais, mas também pelo mau ambiente que causam.

A partir das 18 h, os jovens começam a dispersar. Não houve confusão, a polícia esteve praticamente invisível durante todo o evento, e adeptos do Twitter e Facebook curtiram uma divertida tarde de sábado.

A construção de um problema social

Embora os meets ocorram há mais de três anos em Lisboa, foi durante o último mês de Agosto que se tornaram visíveis para a sociedade portuguesa, após quatro jovens serem detidos no seguimento de um evento no Parque das Nações. Seguiu-se uma ampla (e também histérica) mediatização deste fenómeno, rotulado como ação de desordeiros e delinquentes, num discurso criminalizador contrastante com os significados apontados pelos frequentadores desses encontros. Mas vamos aos factos.

Concentração de jovens no meet do Parque das Nações

No dia 20 de Agosto, cerca de 600 jovens encontraram-se no Parque das Nações para mais uma tarde de convívio e diversão. No final da tarde, quando os participantes do meet já estavam a dispersar-se, um grupo de jovens desentendeu-se numa caixa de supermercado do Continente, segundo Pedro Bandeira Pinto, diretor do Centro Comercial Vasco da Gama. Os envolvidos não ultrapassavam os vinte indivíduos e um deles foi ferido com uma chave-de-fendas, incitando a chegada de seguranças que logo acalmaram a situação. A polícia foi chamada e, após a sua chegada, determinou a saída de todos os jovens que se encontravam no centro comercial. Essa ação não foi pacífica, gerando algum pânico e tumulto entre os frequentadores do Vasco da Gama. Nas redes sociais, muitos jovens queixaram-se de terem sido agredidos gratuitamente. A polícia foi acusada de ter escolhido os jovens negros como alvo privilegiado da repressão, fazendo da cor de pele um dos critérios para expulsá-los do interior do espaço. É o que também afirmou o bancário Délio Figueiredo, 33 anos que fazia compras no Continente do Vasco da Gama na altura da confusão: “Um grupo de jovens que estava no corredor usado pelas pessoas que vêm do metro começou a correr e quando olhei melhor percebi porquê. É que vinham uns cinco polícias já de cassetete em punho, na postura agressiva de ‘bater e prender’. Percebe-se que tenham fugido, apesar de não terem feito nada, sabem que a polícia tem racismo dentro das cabeças e fogem. E têm algumas razões para isso”.

Um alto responsável da PSP negou essas acusações, garantindo não ter havido qualquer distinção entre jovens brancos e negros.

Cinco polícias sofreram ferimentos ligeiros e quatro jovens foram detidos, dois deles por desacato. Estes foram a julgamento sumário pelo Ministério Público e condenados a penas suspensas. Fábio Barros, 20 anos, foi condenado a um ano e um mês pelo crime de injúria agravada e ofensa à integridade física qualificada na forma tentada por ter arremessado pedras a agentes da PSP. Mostrando-se arrependido, Fábio disse em tribunal ter atirado uma única pedra na direção dos agentes, pois teria ficado revoltado com o cordão policial que o impedia de entrar no Vasco da Gama. Negou as acusações de resistência a prisão ou insultos, afirmando ter sido agredido pela PSP com bastões e pontapés, tanto no momento da detenção como dentro da esquadra. Esta versão foi negada por agentes da PSP, tendo um deles afirmado que Fábio atirou várias pedras, não acertando ninguém por mero acaso.

Guilherme Guimarães, 23 anos, recebeu a condenação de dois anos e quatro meses pelo crime de coação e resistência à autoridade. O arguido vinha do trabalho para se encontrar com a namorada grávida quando se deparou com a confusão no centro comercial. Argumentou em tribunal ter visto ao longe a namorada a ser agredida pela polícia, que a pôs no chão de forma brusca. Garantiu ter falado com calma sobre o estado de gravidez da sua companheira, mas os polícias teriam respondido estarem a “borrifar-se” para a sua filha “preta”. O tribunal entendeu que o jovem teria desferido pancadas em agentes da PSP, tendo um deles sofrido uma fratura no dedo. O jovem negou em tribunal as agressões de que foi acusado, afirmando ter furado o cordão de segurança na tentativa de defender a namorada.

Um vídeo sobre a atuação da polícia no Vasco da Gama é bem eloquente da tensão vivida naquele dia. Com milhares de partilhas nas redes sociais em poucos dias, o filme, feito a partir de um telemóvel, mostra jovens negros a serem impedidos de entrar no centro comercial, ao mesmo tempo que um casal de brancos atravessa o cordão policial sem ser incomodado. Nas redes sociais muitos jovens acusaram de racista a intervenção policial, ao afirmarem terem sido os negros os principais visados. Em comunicado, o SOS Racismo condenou a ação da polícia, afirmando que “o caos só foi possível graças à intervenção da PSP”, cuja “ação tão musculada” se deveu à “concentração de jovens negros no local”.

O Comando Metropolitano de Lisboa (Cometlis) da PSP justificou a intervenção em função da desordem provocada pelos jovens no interior do Vasco da Gama, quando dezenas “invadiram os corredores do centro comercial e começaram a correr desenfreadamente, entrando em algumas lojas”. Nessa altura, decidiu-se fazer um “varrimento pela polícia que, com um dispositivo de perto de quarenta efetivos, conseguiu afastar os jovens do interior do centro”, indicou a fonte da Cometlis. Esta versão dos acontecimentos é contraditória com a apresentada pelo diretor do centro comercial, Pedro Bandeira Pinto: “as imagens de videovigilância não mostram jovens a invadir o espaço. Não houve nem vandalismo nem furtos”, disse ao Público.

Narrativa do medo

De imediato, parte substancial dos órgãos de comunicação social noticiaram que os participantes no meet haviam realizado roubos, assaltos e intimidações a frequentadores do centro comercial. Algumas das primeiras notícias sensacionalistas tiveram como título “Gang tenta invadir Centro Comercial Vasco da Gama” (Correio da Manhã) ou “Centenas de jovens em confrontos no Centro Vasco da Gama” (Sol), ignorando o depoimento do diretor ou as opiniões dos próprios jovens envolvidos. Análises de comentadores deram eco à versão policial, entendendo os meets como um arranjo para o crime e a delinquência. Apesar de negativa, a ampla cobertura mediática contribuiu para dar visibilidade aos meets, e muitos outros foram marcados em diferentes partes do país. No entanto, a maioria desses eventos não era real, tendo alguns, inclusivamente, a intenção de confundir a polícia: no caso do meet do Colombo. Outros foram criados apenas por diversão, com o claro objetivo de não serem levados a sério. Mas parte substancial dos meios de comunicação levaram.

Após uma escaramuça no final de um concerto de Anselmo Ralph, em Cascais, os média culpabilizaram um suposto meet pela confusão gerada, mesmo após o Presidente da Câmara de Cascais, Carlos Carreira, ter negado qualquer relação. Exemplo disso foi a Edição Especial sobre os meets, realizada pela RTP Informação, que abriu o programa com as imagens do tumulto desse concerto.

Inscrição do nome usado nas redes sociais no corpo de uma participante do meet

Com vista a propagar uma onda noticiosa de moldes sensacionalistas, a ideia dos meets passou a ser deturpada por alguns média. Qualquer grande aglomeração de jovens no espaço público passou a ser classificada como meet, desconsiderando que o fundamento desses encontros é permitir que os jovens das redes sociais se conheçam pessoalmente, algo impossível de fazer num concerto com dezenas de milhares de pessoas.

As narrativas de medo geradas a partir dos meets tiveram como foco os jovens negros, numa abordagem pouco séria que contribuiu para fomentar a sensação de insegurança e os sentimentos racistas em Portugal. As imagens geradas pela televisão para noticiar as supostas confusões decorrentes dos meets tiveram como característica comum a cor da pele dos seus participantes. Igualmente, a repressão violenta levada a cabo pela polícia nos dois eventos narrados teve como alvo os jovens negros, alguns dos quais detidos e julgados em tribunal. O que era para ser um incidente isolado – a escaramuça entre jovens na caixa de um supermercado –, transformou-se num conflito de maiores proporções graças à ação desmedida da polícia.

Um conflito que as autoridades deveriam, pelo contrário, procurar evitar. Porque os meets vieram trazer à luz do dia novos comportamentos que têm de ser compreendidos. Maioritariamente vindos dos subúrbios de Lisboa, os jovens que participam nos meets inauguraram um modo inovador de circular no centro, transformando-os numa forma de se exibirem e usufruírem o direito à cidade. Não tendo na sua origem uma vontade de protesto, os meets refletem a busca, por parte destes jovens, de um papel legítimo na sociedade, num contexto em que os espaços de expressão livre e de representação são precários. Com o uso das novas tecnologias de informação, da convivialidade e da apropriação do espaço público, eles tornam clara a necessidade de haver novos espaços de lazer e de encontro em liberdade, onde lhes seja permitida uma maior participação na definição do futuro da sociedade portuguesa e nas dinâmicas de poder presentes na cidades.

Rolezinho

No Brasil os meets chamam-se “rolezinhos”, e tornaram-se assunto mediático no final de 2013, quando jovens da periferia de São Paulo passaram a marcar encontros nas proximidades de shoppings centers (centros comerciais). Diminutivo de “rolê” (ou “rolé”), o “rolezinho” pode ser entendido como “pequeno passeio” no calão brasileiro. De forma ainda mais agressiva, os “rolezinhos” foram associados a tumultos, furtos e delinquência pelos meios de comunicação social, em que a repressão da polícia desempenha um papel fundamental na disseminação do estigma e do medo.

Artigo de Otávio Raposo*, originalmente publicado no Rede Angola, disponível em buala.org


* Otávio Raposo é antropólogo e bolseiro de doutoramento em Antropologia Urbana (FCT) sobre culturas e estilos de vida juvenis nos bairros da periferia de Lisboa e Rio de Janeiro.

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