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Tratado Transatlântico: "Desintegração Europeia, Desemprego e Instabilidade"

Os documentos oficiais sobre o TTIP baseiam-se em modelos económicos inadequados, segundo conclui Jeronim Capaldo, do Departamento de Economia e Assuntos Sociais das Nações Unidas. O investigador revela que o acordo de comércio livre entre a UE e os EUA conduzirá a uma ainda mais drástica transferência dos rendimentos do trabalho para o capital.

Jeronim Capaldo[i] analisou o TTIP (Transatlantic Trade and Investment Partnership) utilizando o Modelo de Política Global das Nações Unidas, tendo obtido “resultados dramaticamente diferentes” daqueles que constam dos documentos oficiais sobre o TTIP, que, segundo o investigador, baseiam-se em modelos económicos inadequados.

Capaldo conclui no seu relatório, intitulado “TTIP: Desintegração Europeia, Desemprego e Instabilidade”, que, após uma década de implementação, o acordo de comércio livre entre a UE e os EUA se traduzirá em perdas em termos de exportações líquidas, em comparação com o cenário de referência. Os países do Norte da Europa serão os mais afetados.

Por outro lado, o Tratado Transatlântico, a ser efetivamente aplicado, também representará quebras, conforme avança o investigador, nos PIB nacionais, com os países do Norte da Europa a liderarem, mais uma vez, as perdas.

O TTIP eliminará cerca de 600 mil postos de trabalho na União Europeia e levará à diminuição dos rendimentos dos trabalhadores

Jeronim Capaldo assinala ainda que o TTIP eliminará cerca de 600 mil postos de trabalho na União Europeia e que levará à diminuição dos rendimentos dos trabalhadores, que se fará sentir com maior intensidade em França, onde os salários sofrerão uma redução de cerca de 4.800 euros por trabalhador.

O acordo de comércio livre entre a UE e os EUA conduzirá ainda, segundo o investigador, a uma ainda mais drástica transferência dos rendimentos do trabalho para o capital.

O Tratado Transatlântico levará também “a uma perda de receita do governo”. “O excedente de impostos indiretos sobre os subsídios vai diminuir em todos os países da União Europeia”, refere o estudo, sublinhando que os défices orçamentais também “vão aumentar em percentagem do PIB em todos os países da UE, empurrando as finanças públicas mais perto ou além dos limites de Maastricht”.

Por fim, Jeronim Capaldo alerta que o TTIP levará “a uma maior instabilidade financeira e à acumulação de desequilíbrios”. “Com as receitas de exportação, as quotas salariais e as receitas do governo a decrescer, a procura teria de ser sustentada por lucros e investimento. Mas, com um débil crescimento do consumo, não se pode esperar que os lucros surjam do crescimento das vendas. A hipótese mais realista é que os lucros e os investimentos (principalmente em ativos financeiros) será sustentado pelo crescimento dos preços dos ativos. O potencial para a instabilidade macroeconómica desta estratégia de crescimento é bem conhecida depois da recente crise financeira”, lê-se no documento.

Capaldo avança com uma conclusão geral: “procurar um maior volume de comércio não é uma estratégia sustentável para a UE. No corrente contexto de austeridade, alto desemprego e baixo crescimento, aumentar a pressão sobre os rendimentos do trabalho irá prejudicar ainda mais a atividade económica. Pelo contrário, qualquer estratégia viável para relançar a economia na Europa terá de ter por base um forte esforço político no sentido de apoiar os rendimentos do trabalho”.


[i] Jeronim Capaldo é diretor associado de Assuntos Económicos da Divisão de Política de Desenvolvimento e Análise do Departamento de Economia e Assuntos Sociais das Nações Unidas.

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