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O estranho caso do OE incompreendido

Passos Coelho enfureceu-se publicamente com os media. Depois da fase da “desculpa pública”, assiste-se agora ao momento da vitimização face à alegada imprensa mentirosa que é o álibi do Governo sobre um OE “incompreendido”.

As jornadas parlamentares do PSD/CDS, este fim se semana, ficaram marcadas por um momento raro na história deste Governo. O primeiro-ministro, a propósito da forma como têm sido noticiadas as medidas que constam do Orçamento de Estado para 2015, acusou jornalistas e comentadores políticos de serem “preguiçosos e orgulhosos”. Diz Passos que aquilo que se tem lido nos jornais e passado nas televisões, por “aqueles que informam”, a propósito do Orçamento de Estado, é “patético”, usando como exemplo os números da despesa pública.

O primeiro-ministro zangou-se com a imprensa porque esta não sabe “olhar para os números e saber o que eles dizem”. E foi mesmo mais contundente nas críticas: “chega a ser patético verificar a dificuldade que gente que se diz independente tem em assumir que errou, que foi preguiçosa, que não leu, que não estudou, não comparou, que não se interessou, a não ser em causar uma boa impressão de dizer ‘Maria vai com as outras’, o que toda gente diz porque fica bem”, acusou.

Muito havia para ser dito sobre o atual estado de independência da imprensa, nestes anos recentes em que assistimos à concentração dos títulos em escassos grupos económicos, à perda massiva de jornalistas nas redações, ao crescimento do jornalismo “multi-tarefas” e à descaracterização e precarização galopante da profissão. Mas não é esse o ponto que importa aqui. O que vemos é um primeiro-ministro ferido nos seus sentimentos, porque o plano de austeridade que impôs ao país vive um momento de crise de mérito…

Passos Coelho enfureceu-se publicamente com os media, porque o “trabalho” deste Governo terá, a seu ver, deixado de ser “reconhecido” por quem constrói a opinião pública. E o orçamento de Estado de 2015, o primeiro do pós-troika, mas uma herança aditivada da troika, será o sinal mais evidente dessa incompreensão.

Depois da fase da “desculpa pública”, inconsequente do ponto de vista político, que teve nos ministros Paula Teixeira da Cruz e Nuno Crato, os principais rostos, assiste-se agora ao momento da vitimização face à alegada imprensa mentirosa que é o álibi do Governo sobre um OE “incompreendido”.

Nunca dá grande resultado atirar ao mensageiro, quando a mensagem não nos agrada. Mas das duas uma: ou a arrogância e fanatismo ideológico deste Governo não o deixa ver para além da espuma dos dias da propaganda ministerial, alheado que está da realidade concreta e do impacto real deste OE sobre as pessoas, ou as provocações públicas de Passos sobre a forma como a propaganda do Governo é tratada pela comunicação social é sintoma de uma maioria em estado de desagregação, que começa a ser difícil esconder.

Ao reagir com indignação à análise pública que é feita sobre o orçamento, Passos não está apenas a dar sinais da fragilidade do Governo na resposta às críticas mas a tentar usar um argumento moral para fugir ao debate político que se impõe sobre as consequências das medidas deste OE. É uma velha estratégia que não colhe num governo tão desacreditado e… patético.

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Jornalista
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