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As pescas na zona de Matosinhos

Alegadamente por terem ultrapassado os limites da captura, os pescadores de cerco de Leixões receberam ordens para parar de capturar sardinha em 19 de setembro. Os pescadores vão ficar vários meses sem nenhuma garantia de rendimentos.

A sardinha é a espécie de pescado mais emblemática de Matosinhos, muito apreciada para consumir fresca ou como matéria-prima para as fábricas conserveiras.

Neste momento há em Matosinhos cerca de 30 barcos que têm como principal objeto da sua faina a captura desta espécie, embora também capturem outras espécies de grande qualidade e valor económico, mas de forma residual.

O aquecimento global do planeta e especialmente no Atlântico, motivado pelas alterações na corrente do Golfo e do chamado anticiclone dos Açores afastaram os cardumes de sardinhas das nossas costas, tornando muito mais difícil a tarefa dos pescadores, obrigando-os a correr riscos suplementares para conseguir assegurar a sua subsistência económica.

Todos os matosinhenses se têm apercebido das dificuldades na sua captura, da pouca quantidade, do seu tamanho e das mudanças nos períodos tradicionais de excelência da nossa sardinha.

Em Matosinhos todos, pescadores e consumidores estavam habituados ao chamado defeso biológico na captura de sardinha entre fevereiro e abril, com vista à sua reprodução e desenvolvimento. Alegadamente por terem ultrapassado os limites da captura, os pescadores de cerco de Leixões receberam ordens para parar em 19 de setembro. Portugal e Espanha têm, no Plano Europeu de Gestão da Sardinha, uma quota de 20,52 milhares de toneladas. Até Junho apenas foram pescadas 8,8 mil toneladas. Por outro lado, os barcos também são impedidos de descarregar mais de 50 cabazes de carapau ou cavala, o que é manifestamente insuficiente para cobrir as despesas com a faina. O restante pescado apanhado tem de ser devolvido ao mar, já morto e sem utilidade para ninguém. O certo é que os pescadores vão ficar vários meses sem nenhuma garantia de rendimentos.

Compreende-se a necessidade de salvaguardar esta espécie que é a mais emblemática das pescas do nosso mar. Mas são igualmente indispensáveis formas de apoio aos pescadores até que possam retomar a sua atividade.

A portaria recentemente publicada pelo governo, que define as regras de acesso aos subsídios, por esta paragem na atividade piscatória, fixa estes entre 27 e 20 euros diários por pescador, o que convenhamos é insuficiente para quem corre tão grandes perigos.

Uma atividade tão importante para o concelho como a pesca da sardinha, não nos esqueçamos que há mais atividades económicas dela dependentes, como a restauração e a industria conserveira, implica a criação com a máxima urgência de um grupo técnico que estude as alterações das rotas e das trajetórias dos cardumes, para que não nos vejamos sujeitos a ter de importar do Cantábrico ou de Marrocos pescado congelado, para consumo público e para as fábricas de conservas, um produto que não é de igual qualidade, nas palavras dos industriais conserveiros.

Há conhecimentos, há técnicos, há interesses económicos, há reconhecido interesse municipal, haja então discernimento e vontade de pôr a mão na obra, dada a urgência desta questão.

Outro problema que tem complicado a vida aos homens do mar é o assoreamento de algumas barras dos portos e a falta de segurança ativa e passiva que tem provocado graves acidentes, alguns fatais que seriam evitáveis.

É o caso da falta de um porto de abrigo em Angeiras, reclamado pela comunidade piscatória local há muitos anos, reclamação que não tem sido acolhida favoravelmente, pelos responsáveis, apesar das promessas constantes nesse sentido.

Sobre o/a autor(a)

Reformado. Ativista do Bloco de Esquerda em Matosinhos. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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