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Alemanha empurra a Europa para uma terceira recessão

Agora que a Alemanha empurra a Europa para a sua terceira recessão, confirmamos o descalabro das más decisões económicas impulsionadas por um egoísmo cego e doentio. Por Marco Antonio Moreno, El Blog Salmón
A euforia dos mercados bolsistas: o índice Ibex (Espanha) cresceu 80% nos últimos dois anos.

Há seis anos, depois da queda do Lehman Brothers, os líderes europeus reuniram-se em Paris para discutir uma resposta conjunta ao tsunami financeiro que se avizinhava. França e outros países impulsionaram a criação de um fundo europeu para conter o impacto da crise. No entanto, Angela Merkel descartou uma abordagem comum e fez questão de que cada país criasse o seu próprio plano para combater a que mostrou ser a pior crise financeira desde a Grande Depressão dos anos 30. E agora que a Alemanha empurra a Europa para a sua terceira recessão, confirmamos o descalabro das más decisões económicas impulsionadas por um egoísmo cego e doentio.

Desde a eclosão da crise, não se pouparam recursos para o sistema financeiro, apoiando-o com mais de 30 biliões de dólares, enquanto o resto dos setores económicos teve de lutar com as sequelas da crise. Os 30 biliões de dólares injetados no sistema financeiro permitiram que grande parte da banca superasse os problemas, desencadeando uma euforia nos mercados bolsistas que, só nos últimos dois anos, cresceram entre 50 por cento, como o CAC francês, e 80 por cento, como o Ibex espanhol (ver gráfico), ou 65 por cento, como o Dax alemão. Tudo isto enquanto a economia real se mantinha estancada e os níveis de desemprego continuavam nas alturas.

O que estamos a viver agora é o derrube do castelo de cartas do dinheiro barato gerado pelos bancos centrais para ajudar o sistema financeiro, que permitiu a muitas empresas duplicar ou triplicar o valor dos seus ativos.

O que estamos a viver agora é o derrube do castelo de cartas do dinheiro barato gerado pelos bancos centrais para ajudar o sistema financeiro, que permitiu a muitas empresas duplicar ou triplicar o valor dos seus ativos. Nestes seis anos, todas as ajudas foram para o sector que criou a crise, sem importar o afundamento da economia real. A queda da procura; a explosão do desemprego ou a descida imparável dos preços, não importaram aos defensores dos “resgates”. E agora que a zona euro sofre de um desemprego recorde; quando a deflação é iminente e quando não há nenhuma perspetiva de crescimento, como reconheceu o próprio Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, começa a abertura desta caixa de Pandora que pode ter insuspeitas consequências.

Viciados na droga do dinheiro barato

O sistema financeiro tornou-se fortemente dependente das injeções de dinheiro barato e das taxas de juros a zero por cento. Como monstro Frankenstein que é, o dinheiro especulativo requer a constante criação de bolhas para manter o sistema em funcionamento. E, mal os banqueiros centrais, como Janet Yellen, anunciam que a política do dinheiro barato chegará ao fim, começam os espasmos catatónicos que fazem as bolsas entrar “em modo pânico”. É esse o termo usado pelos média financeiros quando os mercados bolsistas derrapam mais de 5 por cento. Ainda que não se possa esperar nada mais de um sistema que se tornou viciado na droga do dinheiro barato, que lhe foi entregue para a reativação económica, e acabou usando-o para comprar mais droga. A verdadeira correção do mercado não demorará a se fazer presente, e o "modo pânico" destes viciados entrará em vigor de maneira prolongada.

A zona euro encaminha-se diretamente para a sua terceira recessão e esta será a consequência dos doentios planos de austeridade que não levaram em conta para nada a profundidade da crise. Durante meses, os números mostram uma queda constante e sustentada da atividade económica e dos preços, o que indica que a zona euro se encontra em plena armadilha 3D, com deflação, desemprego e dívida. E à medida que a desaceleração global se intensifica, a contração adquire mais força. Assim o expressam os dados da produção industrial e as exportações da Alemanha, que caíram com força e não terão uma inversão milagrosa. Isto porque também a China, o Japão e os Estados Unidos vão em sério retrocesso, retroalimentando o impulso recessivo do contágio. E isto sem falar da catástrofe sanitária do ébola, à qual no início as autoridades europeias não prestaram atenção.

O FMI e a fraqueza da procura mundial

A descida do comércio mundial e a queda da produção industrial levaram também ao derrube do preço do petróleo, que desde junho se viu reduzido em mais de 20 por cento. Da mesma forma, o preço do minério de ferro caiu 40 por cento durante este ano, enquanto os preços do milho, do trigo e da soja desceram entre 20 e 30 por cento. Tudo isto é resultado da fraca procura mundial, o que demonstra a ineficácia das políticas promovidas pelo FMI e pelos bancos centrais que aplicaram sem maior trâmite as políticas de austeridade e cortes orçamentais, num autêntico homicídio qualificado.

Isto confirma que a recuperação arrefeceu e que os Estados Unidos e a Europa podem desacelerar mais do que o esperado. O FMI voltou a rever em baixa as suas expectativas de crescimento para 2014 e 2015, e sem dúvida terá de voltar a rever em baixa dentro de uns dois meses. O castelo de cartas do dinheiro barato foi uma via de escape apenas para o sistema financeiro, permitindo à oligarquia financeira manter a sua hegemonia e aumentar a riqueza, sem conseguir dar impulso à economia real. Esta desconexão, que se começa a ver no mercado de títulos, pode ter sérias consequências ao abrir o caminho para a fragmentação da zona euro. Se antes a Alemanha podia erigir-se em exemplo a seguir pelos países europeus, uma terceira entrada da zona euro em recessão pode deitar por terra o projeto da moeda única. A Europa começou a transgredir todos os seus princípios, e incluir a prostituição e as drogas, como fez recentemente Itália, não faz mais que demonstrar o derrube de uma ideia mal concebida. Ainda que Mario Draghi e Angela Merkel tentem prolongar a agonia, a maldição do dinheiro barato provocará uma séria fissura na Europa.

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