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Portugal Telecom – como se afunda uma empresa

Querem saber como se destrói uma empresa? Perguntem a Zeinal Bava e a Henrique Granadeiro. O que teve lugar na Portugal Telecom, nos últimos anos, devia ser compilado e dar origem a um manual de instruções para afundar empresas.
Foto Paulete Matos.

Zeinal Bava pode dizer que sai pelo seu pé, mas deixa atrás de si os cacos do que foi a mais prestigiada empresa nacional.

Durante décadas a maior empresa portuguesa, e a primeira de dimensão internacional, a PT, era também a companhia que mais investia em tecnologia e investigação no nosso país. Era, digo. Porque é este o legado de Bava à frente da empresa que o Estado privatizou: todas as notícias positivas sobre a PT estão no passado.

A PT, fruto do seu investimento no centro tecnológico de Aveiro, foi a primeira empresa mundial a criar um cartão pré pago. Foi com ele que reagiu à entrada das multinacionais de comunicações no nosso país e retomou a liderança no sector móvel. Foi com esse cartão que revolucionou o mercado brasileiro e tornou a VIVO o maior operador móvel da América latina. O mesmo aconteceu com os acessos à internet, rede 3 G e um sem número de produtos nascidos da articulação entre uma empresa com capitais públicos e uma universidade do Estado.

Há quatro anos a PT tinha a liderança do mercado móvel da América latina. Hoje, é uma empresa endividada até ao pescoço, sem capacidade de investimento, escorraçada pelo obsoleto parceiro brasileiro, e à beira de ser comprada por um fundo especulativo. O mesmo fundo que, depois de adquirir a Cabovisão, fez do despedimento de 100 funcionários o seu primeiro ato de gestão.

Não será certamente coincidência que a queda livre da PT coincida, temporalmente, com a alienação da Golden Share do Estado na empresa. Ou que o momento chave da destruição de valor, a venda da Vivo, tenha acontecido com a oposição do Estado, que acabou por se vergar à pressão do maior acionista da PT: o BES.

O banco de Ricardo Salgado precisava de liquidez e o futuro de uma empresa estratégica portuguesa era a sua última preocupação.

Foram essas necessidades de liquidez que fizeram com que a PT, durante anos e anos a fio, fosse a empresa que mais generosos dividendos foi distribuindo. A distribuição de dividendos muito acima das suas possibilidades, foi o esquema encontrado por Zeinal Bava e Henrique Granadeiro para gerirem uma complexa teia de interesses. O resultado está à vista. A sua ligação umbilical às necessidades da finança, leia-se Banco Espírito Santo, acabou por colocar o futuro da empresa em risco.

Não é a queda de um anjo, incensado até há pouco tempo pelos sucessivos governos, pela finança e até colunistas da imprensa especializada, que nos deve preocupar. O que nos preocupa é o futuro do operador incumbente de comunicações, o futuro de milhares de trabalhadores ou do investimento em infraestruturas vitais para a modernização do país.

Não nos esquecemos que a alienação da Golden Share foi um dos temas da campanha interna do PSD, juntando todos, à vez, na defesa desta irresponsabilidade.

E por isso está na altura de confrontar Passos Coelho com as suas próprias garantias.

Dizia o primeiro-ministro que o fim das Golden Share do Estado teria lugar acautelando os interesses estratégicos do país. Das duas, uma: ou Passos Coelho, na sua forma distorcida de ver a economia e a sociedade, entendia que o interesse estratégico do país passava por entregar uma das mais importantes empresas nacionais a um pequeno fundo internacional, sem nenhum conhecimento e capacidade de investimento; ou estamos perante um ato consciente de favorecimento dos interesses privados. Em ambos os casos, é o interesse nacional que, mais uma vez, sai lesado.

PSD, PS e CDS foram-nos garantindo que as privatizações não iriam colocar em causa a permanência dos sectores estratégicos em mãos nacionais. O atual Governo jurou-nos, depois, que o fim das golden share não hipotecava os interesses do país. Tudo furado.

Não só as privatizações de sectores como a energia ou combustíveis não trouxeram os proclamados benefícios da concorrência, como monopólios naturais fundamentais para a soberania nacional foram parar às mãos de regimes ditatoriais ou aos bolsos de fundos especulativos sem nenhum interesse de médio ou longo prazo.

O que está em causa é a irrelevância da PT. O que está em causa é o posto de trabalho de milhares de pessoas e a previsível deslocação ou desinvestimento no centro tecnológico de Aveiro, onde se concentra a maior fatia do investimento privado em investigação no país.

Não há como olhar para o que está acontecer, aqui e agora, mesmo à frente dos nossos olhos, e insistir, com certeza acrítica de quem está toldado pelo seu próprio radicalismo ideológico, que nada correu mal, que isto não poderia ter sido evitado, ou que não há lições para o futuro.

Sim, está a correr mal. Sim, podia ter sido evitado. Sim, há lições para o futuro: os setores estratégicos nacionais têm que estar em mãos públicas, a começar pela TAP, que o governo tenta vender à pressão sobre os escombros da PT, que tanto contribuiu para destruir.

Declaração política na Assembleia da República em 8 de outubro de 2014

Sobre o/a autor(a)

Deputada. Dirigente do Bloco de Esquerda. Economista.
(...)

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