You are here

Rioforte: a história do "desfalque" que afundou a PT

A aplicação de cerca de 900 milhões de euros em papel comercial da empresa do Grupo Espírito Santo ditou a saída de Granadeiro e Zeinal e a redução da fatia da PT na brasileira Oi.

"Deram um desfalque na empresa. Fizeram um empréstimo pouco antes da empresa quebrar", afirmou esta semana o ministro das Comunicações brasileiro. Para Paulo Bernardo, o "desfalque" da operação financeira que aplicou quase toda a tesouraria da PT numa empresa de um grupo económico em dificuldades terá tido impacto no leilão da quarta geração móvel no Brasil. "Não podemos ignorar e talvez isso teve como consequência a não participação da Oi no leilão, o que acho negativo para a empresa", disse o ministro brasileiro, citado pelo Diário Económico.

A responsabilidade por esta machadada nas contas da empresa ainda é nebulosa. O presidente da empresa, Henrique Granadeiro, demitiu-se da PT e os brasileiros da Oi apontaram a porta de saída a Zeinal Bava, embora este tenha sempre dito que não estaria a par do negócio para ajudar os Espírito Santo, acionistas de referência da PT. A posição oficial da Portugal Telecom é que nem o Conselho de Administração nem a Comissão Executiva da empresa terão aprovado ou sequer discutido aquele investimento.

O semanário Expresso revelou emails enviados por Ricardo Salgado a acionistas da Oi, envolvendo-os na decisão da compra do papel comercial da Rioforte. Para o líder do antigo BES, a aplicação da PT na Rioforte seria uma contrapartida para o GES "equivalente ao benefício das holdings privadas brasileiras no aumento de capital”. Os emails de Salgado sugerem um acordo privado entre o GES e os acionistas brasileiros, que viram as suas dívidas junto do banco estatal BNDES desaparecerem através do aumento de capital da empresa.

Mas os destinatários do email de Ricardo Salgado desmentem que alguma vez tivessem tido conhecimento da aplicação, sugerindo que o email terá sido "plantado" para os incriminar na operação desastrosa que gelou a relação entre a PT e a Oi. Em consequência da perda dos 900 milhões, foi assinado novo acordo que reduz a participação da PT na futura empresa CorpCo de 37% para 25,6%, podendo recuperá-los nos próximos seis anos no cenário improvável da empresa conseguir absorver o impacto negativo da operação.   
 
A história dos investimentos financeiros da PT em empresas que são suas acionistas não é nova. Para além do dinheiro aplicado em empresas do universo Espírito Santo ao longo dos anos, também a Ongoing - empresa que entrou pela mão do BES no capital da PT na altura da falhada OPA da Sonae - beneficiou do investimento de 75 milhões de euros por parte do Fundo de Pensões da PT em 2009.

O negócio teve a mão do administrador Fernando Soares Carneiro, que foi convidado a demitir-se por Henrique Granadeiro, após terem aparecido atas da PT publicadas no Diário Económico, propriedade da Ongoing.  Soares Carneiro viria a sair meses depois, quando foi apanhado em escutas telefónicas com Armando Vara que o envolviam na tentativa de controlo da TVI e da Cofina, depois de ter garantido que o dinheiro investido pela PT não tinha servido para a Ongoing entrar no capital da TVI.

Em abril de 2010, Fernando Soares Carneiro disse aos deputados que tinha recebido a garantia do presidente da Comissão de Auditoria da empresa - João Mello Franco, que acaba de suceder a Granadeiro à frente da PT SGPS - de que nada o ligava a esse negócio. Depois de sair da PT, acabou por ser contratado pela Ongoing para colaborar no lançamento de uma empresa no Brasil. "Essa colaboração não teve qualquer conotação (ou incompatibilidade) com as minhas anteriores funções na Portugal Telecom”, afirmou na altura o ex-administrador da PT numa nota enviada à agência Lusa.

(...)

Resto dossier

Queda da Portugal Telecom

A Portugal Telecom foi arrastada pela crise do BES e pelas decisões contrárias ao interesse da empresa para ajudar os acionistas, em particular os Espírito Santo. Com a fusão com a Oi a resvalar para a venda a retalho da PT, o futuro adivinha-se sombrio para os trabalhadores da empresa. Dossier organizado por Luís Branco.

Trabalhadores da PT temem “esquartejamento” da empresa

As notícias sobre a intenção de venda das 3.000 torres de comunicações móveis da PT aumentam as suspeitas de que a empresa possa vir a ser retalhada.

O que é a Altice?

A empresa que quer comprar a PT já está habituada a adquirir empresas em Portugal por um décimo do valor que tinham alguns anos antes. Foi o caso da Cabovisão.

A informação como bem público

O sector das telecomunicações tem de ser priorizado enquanto activo estratégico para um combate ao liberalismo de mercado. Aceitar que pode não representar um monopólio natural e, portanto, não tem de ser inteiramente público, não significa que se aceitem as regras do jogo neoliberal. Artigo de Luís Bernardo.

BES e PT: uma relação antiga que acabou mal

Com a crise provocada pela aplicação ruinosa em dívida dos Espírito Santo, ficou bem à vista o poder deste grupo financeiro nas decisões da PT e a importância desta no financiamento do grupo.

Jackpot de 11,5 mil milhões foi parar ao bolso dos acionistas da PT

Quando Zeinal Bava entrou na Portugal Telecom, a empresa valia 12,8 mil milhões. Hoje vale menos de 1,5 mil milhões. A destruição de valor equivale ao dinheiro distribuído aos acionistas durante a sua gestão.

Rioforte: a história do "desfalque" que afundou a PT

A aplicação de cerca de 900 milhões de euros em papel comercial da empresa do Grupo Espírito Santo ditou a saída de Granadeiro e Zeinal e a redução da fatia da PT na brasileira Oi.

Portugal Telecom – como se afunda uma empresa

Querem saber como se destrói uma empresa? Perguntem a Zeinal Bava e a Henrique Granadeiro. O que teve lugar na Portugal Telecom, nos últimos anos, devia ser compilado e dar origem a um manual de instruções para afundar empresas.

O fim da "golden share" que protegia o interesse público

No memorando da troika assinado por PS, PSD e CDS, o Estado português aceitou desfazer-se das suas posições na PT, EDP e Galp sem receber um cêntimo em troca. Dois meses depois, no debate parlamentar que aqui recordamos, o ministro Vítor Gaspar congratulava-se com a medida.

PT desvalorizou 87% mas manteve os prémios dos gestores

Enquanto o valor da empresa caía em bolsa e a remuneração dos trabalhadores era cortada, os gestores da Portugal Telecom continuaram a ganhar os mesmos prémios.