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Escola queimada

A agenda do Governo é a da sabotagem. Destruir a escola pública em todas as suas dimensões: encerrar infraestruturas (em alguns casos, excelentes), despedir e infernizar a vida aos professores, subverter a lógica inclusiva e solidária que lhe dá sentido.

A situação que se vive atualmente nas escolas públicas poderá dever-se, em parte, a incompetência em estado puro e límpido. Embora não deixe de ser interessante na área de jurisdição do Ministro mais excelente da nossa história, o que aqui existe de projeto político é certamente mais relevante. Nuno Crato aumentou o financiamento aos colégios privados, ou seja, aumentou a fatura de todos os contribuintes com as escolas a que só poucos podem aceder.

Mas essa é apenas uma parte de uma estratégia de privatização bem sucedida. A outra parte, absolutamente indispensável, corresponde ao equivalente para a Educação do que foi a tentativa de encerramento da Maternidade Alfredo da Costa para a saúde. Trata-se de atacar todas as instituições públicas que prestem um serviço de qualidade e atacar com ainda mais força as que se atreverem a ser excelentes. Como aconteceu com a privatizações de empresas públicas, o primeiro passo é arruinar e desacreditar os serviços públicos, empurrando para o privado todos os que possam.

Os encerramentos a granel e a concentração dos equipamentos, os cortes no investimento na rede pública, o despedimento de professores que gera o caos que observamos neste momento, a sobrelotação de turmas e os horários sobre-humanos, todos concorrem para a mesma função: degradar ao máximo a qualidade do ensino público, pressionando todas as famílias remediadas com o mais grotescos dos ultimatos: vão para o privado ou deem uma educação de segunda aos vossos filhos.

A introdução de turmas de nível no ensino público concorre de forma mais subtil e perversa para a mesma função. Amputando a escola pública da sua função de inclusão, gera-se uma estratificação social dentro do que devia ser mistura e colaboração. Quando era deputado e fui a uma sessão do Parlamento Jovem numa escola em Almeirim, ouvi o melhor aluno da escola dizer que discordava das turmas de nível porque "Todos os alunos aprendem uns com os outros e todos devem aprender a trabalhar juntos". A consequência das turmas de nível é acabar com isso e é deliberado. Estratificar dentro da escola pública é o primeiro passo para estratificar fora dela.

A agenda do Governo é, portanto, a da sabotagem. Destruir a escola pública em todas as suas dimensões: encerrar infraestruturas (em alguns casos, excelentes), despedir e infernizar a vida aos professores, subverter a lógica inclusiva e solidária que lhe dá sentido. Que lhe dá sentido e, já agora, que deu também os resultados, esses sim, excelentes que os indicadores do PISA têm revelado, por oposição aos de outros países que seguiram o caminho que Crato propõe.

Artigo publicado a 15 de outubro de 2014 no blogue Ladrões de Bicicletas

Sobre o/a autor(a)

Eurodeputado e economista.
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