You are here

Porque é que consideram a China um problema e a Alemanha não?

Esta semana ficámos a saber que a Comissão Europeia receia pela sobrevivência do euro. Há na Comissão quem acredite que os desequilíbrios macroeconómicos internos à zona euro põem em causa a viabilidade da união monetária. Eu não estaria mais de acordo: não é sustentável a prazo que economias sujeitas à mesma política monetária e à mesma taxa de câmbio tenham posições tão distintas nas suas balanças externas como no caso da Alemanha (com grandes excedentes) e de Portugal, Espanha, Irlanda ou Grécia (com défices avultados).

O que eu tenho dificuldade em perceber é a linearidade da resposta que a Comissão Europeia encontra para este problema, ou seja: balanças externas deficitárias revelam falta de competitividade; para repor a competitividade é preciso desvalorizar; como isso não se pode fazer através da moeda (já que ela é a mesma para as economias em causa), então desvalorize-se tudo o resto – a começar pelos salários.

Curiosamente, os mesmos que defendem estas receitas, aparentemente tão óbvias, quando são chamados a pronunciar-se sobre os desequilíbrios macroeconómicos mundiais, apontam recorrentemente no sentido inverso - ou seja, para a necessidade de a China valorizar a sua moeda e aumentar a procura interna (nomeadamente, através do aumento dos salários). Por outras palavras, desequilíbrios semelhantes merecem respostas inversas.

A verdade é que os desequilíbrios internos à zona euro, tal como os desequilíbrios à escala global, são resultado do conjunto das políticas económicas prosseguidas. O excedente comercial alemão é não mais do que a outra face do défice externo das economias periféricas da zona euro - tal como o excedente Chinês é o contraponto do défice americano. E a política de rendimentos, que na Alemanha tem vindo a ser marcada por uma obsessão com a contenção salarial (que se comprova injustificada e que necessariamente vai arrastando consigo as restantes economias da zona euro), é uma variável central deste processo.

Parece cada vez mais consensual que a sustentabilidade do euro (e, em última análise, da integração europeia) não dispensa um reforço significativo da coordenação das políticas económicas da UE. Falta reconhecer que as políticas salariais têm de ser incluídas em qualquer mecanismo de coordenação a desenvolver.
 
 

Sobre o/a autor(a)

Economista
(...)

Resto dossier

OE 2010

No próximo dia 12 de Março, o parlamento vota a Proposta de Lei do OE 2010 apresentada pelo governo. Este dossier discute as opções desta proposta.

O orçamento já começou a fazer estragos

Como poderia o PS votar a favor de mais despesa social se, o seu orçamento para 2010, se centra na obsessão de reduzir a despesa pública, custe o que custar? Neste caso, as vítimas foram os doentes oncológicos.

Porque é que consideram a China um problema e a Alemanha não?

Não é sustentável a prazo que economias sujeitas à mesma política monetária e à mesma taxa de câmbio tenham posições tão distintas nas suas balanças externas. Parece cada vez mais consensual que a sustentabilidade do euro (e, em última análise, da integração europeia) não dispensa um reforço significativo da coordenação das políticas económicas da UE.

O opaco preço da liberalização financeira

No momento em que os Estados se endividam na tentativa de resolver os problemas criados, em parte, pelas agências de rating, estas cortam, ou ameaçam cortar, a sua notação, dificultando a resposta à crise. É preciso desacreditar estas empresas e substitui-las por agências públicas internacionais, sem fins lucrativos, cujos modelos de avaliação sejam transparentes.

Que opções para o Investimento?

O investimento público constitui um “falso ponto de convergência”. As opções presentes no Orçamento de Estado, são de facto, reveladoras de uma política económica que em nada inspira “confiança”. E, neste sentido, há dois pontos que se revelam particularmente importantes para compreender estas opções em termos de investimentos: as privatizações e as parcerias público privadas.

Monetarismo institucionalizado

A narrativa da insustentabilidade do défice e da dívida pública já está instalada no espaço público. Sem argumentação cuidada, assumida com um "dado técnico". E, contudo, iniciar de imediato um processo de desendividamento público não tem qualquer justificação com fundamento científico.

Uma Europa de princípios não deixaria a Grécia sangrar

A menos que haja uma regra para os grandes e poderosos e outra para os pequenos, a União Europeia deve apoiar a nova liderança de Atenas.

As grandes escolhas que Sócrates não fez

O sistema fiscal português continua a precisar de profundas reformas que o tornem mais justo e equitativo.

As Grandes Opções de José Sócrates

A opção de José Sócrates ao construir um orçamento com a direita, não deixa dúvidas sobre a orientação que lhe está associada.