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A praxe limpinha ainda é praxe

Num momento em que a praxe tenta limpar a sua imagem, como forma de resposta à sua crescente deslegitimação junto da opinião pública, é importante expor a superficialidade destas manobras de limpeza e mostrar que o abuso é inevitável na praxe e não um acidente de percurso.

Com o início do ano letivo, voltam as praxes universitárias, e com elas todas as práticas de rebaixamento entre estudantes. Mesmo depois de um ano letivo em que morreram três estudantes numa praxe da Universidade do Minho e seis durante um fim de semana de praxe da Universidade Lusófona, são ainda raros os exemplos de estudantes que rejeitam a praxe. A praxe continua forte e os exemplos de abusos são vistos nas universidades como sendo casos excecionais. No meio estudantil, impera ainda a ideia de que é possível limpar a praxe dos seus abusos.

A capacidade de reinvenção dos rituais iniciáticos que compõem a praxe é, à primeira vista, inesgotável. Aquilo que é considerado aceitável em praxe num dado momento pode já não ser noutro momento, sendo possível encontrar casos de práticas que foram abolidas por causarem polémica, depois de surgirem queixas junto das instituições de ensino superior ou de serem denunciados casos de abusos na comunicação social. Não é, portanto, difícil encontrar casos de estudantes que acreditam poder mudar a praxe a partir de dentro, eliminando as suas facetas mais horrendas, usando essa crença como justificação para a sua adesão à praxe.

Surge então, neste contexto, a higienização da praxe. Aos sucessivos escândalos denunciados na comunicação social, o poder praxista reage exibindo publicamente uma praxe “limpinha”, em que não há estudantes de quatro ou de cara pintada. A praxe solidária é o melhor exemplo desta tendência, aparecendo diariamente na comunicação social notícias de estudantes que se juntaram para ajudar instituições de solidariedade social ou associações de proteção dos animais, ou para participar em ações de limpeza, tais como pintar de branco muros grafitados. Olhando com atenção, contudo, é possível ver na praxe “limpinha” a mesma separação entre quem manda e quem obedece que está na base dos abusos. A praxe “suja”, por seu lado, continua a fazer-se, mas de forma mais escondida, quando não há câmaras por perto.

A crença na capacidade de auto-regulação da praxe é essencial para a sua legitimação. Recentemente, por exemplo, o Dux de Coimbra (o estudante mais antigo da universidade, que ocupa o topo da hierarquia da praxe) explicava ao “Diário das Beiras” que está a tomar as devidas providências para que o ruído da praxe não interfira com as atividades letivas, depois de ter recebido uma queixa de um professor. A mensagem é clara: quem tem alguma queixa relativa a excessos de praxe deve dirigir-se às instituições praxistas. Pouco interessa que isto faça tanto sentido como pedir aos administradores do BES que julguem Ricardo Salgado, esta é apenas uma das muitas crenças irracionais que sustentam a praxe.

O mesmo Dux de Coimbra, do alto dos seus mais de vinte anos de experiência como “estudante” e praxista, explicava em tempos ao jornal universitário “A Cabra” quais os limites do reformismo praxista: “A praxe é hierárquica, é machista, é sexista. São características intrínsecas à praxe da UC e quando isso deixar de existir, deixa de ser a praxe da UC.” Claro como a água.

Continuemos com a clareza. Não é possível prevenir abusos onde existem hierarquias entre estudantes, porque as hierarquias são a raiz do abuso. Não é possível ter uma praxe não violenta, porque o machismo é violência, tal como todas as formas de submissão. A praxe é violenta, portanto. Não a praxe da UC ou a praxe da Universidade Lusófona. A praxe. Toda a praxe.

Por isso a campanha que o governo lançou, e que logo as instituições de poder praxistas elogiaram, no sentido de combater a praxe violenta através de um email para denúncias de abusos, falha o alvo. Não havendo praxe não violenta, a questão que devemos colocar não é “como melhorar a praxe?” mas antes “como abolir a praxe?”. Caso contrário, o melhor que podemos ter é a punição de crimes praxistas e não, como seria desejável, a prevenção destes crimes.

Para responder a esta questão, é fundamental compreender que a praxe preenche um vazio nas instituições de ensino superior, caraterizadas pela inexistência geral, quer de atividades de receção a novos e novas estudantes, quer de movimentos estudantis que possam agregar estudantes em torno de causas. Por isso é fundamental preencher este vazio, como fez o grupo de estudantes de Coimbra que este ano organizou uma “integração alternativa à praxe”, confrontando diretamente o poder praxista e criando um espaço de convívio livre de hierarquias e rebaixamentos.

Num momento em que a praxe tenta limpar a sua imagem, como forma de resposta à sua crescente deslegitimação junto da opinião pública, é importante expor a superficialidade destas manobras de limpeza e mostrar que o abuso é inevitável na praxe e não um acidente de percurso. Esta denúncia, contudo, estará incompleta se não for acompanhada da criação de espaços de convívio, ativismo e integração para estudantes. Cada vez mais, será necessário apontar o dedo a associações de estudantes, reitorias e governos, para que apoiem a criação destes espaços e se dissociem totalmente da praxe. Cada vez mais, teremos de dizer que a praxe “limpinha” ainda é praxe.

Sobre o/a autor(a)

Ricardo Coelho, economista, especializado em Economia Ecológica
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