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A opinião mata

Sem discussão e confronto de ideias não há progresso e a nossa democracia não será plena enquanto não representar também as minorias.

Vivemos num mundo que cada vez menos acredita na política. Acontece, contudo, que a vida é política, mesmo que lhe queiramos dar outro nome. Esta frase já foi muitas vezes repetida - mesmo por mim, neste espaço -, mas vale a pena recordar que nós, enquanto pessoas, somos agentes políticos tão importantes quanto os que nos representam na Assembleia da República. Este pode ser o órgão com legitimidade para aprovar leis, mas os seus representantes agem de acordo com aquela que é a vontade das pessoas. Essa vontade tem a sua expressão máxima através do voto, nas eleições e, por isso, não podemos menosprezar o poder que temos enquanto cidadãos.

Ainda hoje vivemos a ideia de que "religião e política não se discutem". Deem-me liberdade para discordar. Sem discussão e confronto de ideias não há progresso e a nossa democracia não será plena enquanto não representar também as minorias. A questão não está em desrespeitar as opiniões alheias, mas em perceber, de facto, a dimensão das mesmas.

Esquece-se, quem diz que a sua opinião é apenas isso, uma opinião, e que não oprime ninguém, que o poder da opinião está precisamente no poder do voto e o voto da maioria cria uma cultura hegemónica que legitima a discriminação de outros em função da sua posição minoritária na sociedade. É através dessa ideia, a ideia de que a opinião não é também uma arma fatal, que se perde a batalha pela desconstrução dos preconceitos; afinal, quem acha que a sua opinião é apenas isso, uma opinião, não perceberá o impacto da mesma no quotidiano do outro, aquele que é diferente de nós, que é um ser humano cuja visão do mundo é diferente da nossa e tem direito a viver de forma diferente.

Viver em democracia significa que não podemos colonizar o diferente, obrigar outros a viver da mesma que nós apenas porque esse é o modo que conhecemos. A ideia pode parecer-nos estranha, mas há inúmeras formas de estar no mundo. Respeitar essa diferença significa criar um espaço de conforto global, onde todos estejamos representados, independentemente da nossa condição.

Uma opinião, por si só, pode não levar alguém a perseguir ciganos, homossexuais, mulheres, negros, árabes, entre muitos outros exemplos, mas são essas opiniões que legitimam o comportamento de quem o faz, dentro e fora da Assembleia da República. A opinião é uma arma quando na mão da maioria.

Se a opinião fosse apenas isso, uma opinião, e não tivesse poder, como se explicaria o facto de os homossexuais não poderem adotar (ou sequer andar livremente na rua sem serem alvo de comentários ou olhares indiscretos), os transexuais terem ainda de passar pelo inferno burocrático antes de poderem revelar quem sentem ser, os ciganos serem discriminados no acesso ao emprego e à educação, as mulheres sentirem que têm de "se dar ao respeito" se querem ser valorizadas ou o facto de os negros serem mais facilmente alvo de exclusão social? Como explicamos o facto de as manchetes, nos meios de comunicação, fazerem questão de mencionar a etnia, por exemplo, dos envolvidos em determinada notícia, mesmo quando daí nada mais se pode retirar para além do racismo e da xenofobia?

Não me interpretem mal, não quero retirar a ninguém a liberdade de criticar situações ou comportamentos. Mas a crítica deve incidir precisamente no comportamento e ser livre de preconceitos. A etnia, orientação sexual, religião ou até mesmo a opção política (permitam-me os mais puristas) não nos pode levar a generalizar comportamentos. Antes de mais, todos somos seres humanos e, como tal, agimos de acordo com a nossa personalidade, meio envolvente e educação.

Podemos achar que são apenas palavras, mas a cultura hegemónica oprime diariamente milhões de pessoas. A opinião é uma arma que mata tanto quanto a guerra, até porque, em muitos casos, a legitima.

A opinião é um condutor de preconceitos. Enquanto não nos dermos conta do nosso poder enquanto cidadãos e encontrarmos em nós a vontade de respeitar o outro, mesmo que seja diferente de nós e isso nos incomode, percebendo que tem tanto direito ao seu espaço e vida quanto nós, o mundo continuará a ser um lugar de conflito e confronto.

Vale a pena perder uma vida inteira a tentar ver humanos ao invés de rótulos - sejam eles quais forem - e desconstruir os preconceitos. A opinião não é apenas uma opinião, é um julgamento dos outros com base naquilo que conhecemos, frequentemente fora dos seus próprios contextos.

Por um mundo melhor, vale a pena fazer uma introspeção, desconstruir preconceitos e procurar conhecer o outro, na sua realidade; interpretar o mundo não apenas à luz do que conhecemos, mas à luz do que existe.

Sobre o/a autor(a)

Estudante do Ensino Superior. Membro da Coordenadora Nacional de Estudantes do Bloco de Esquerda.
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