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O que se deve fazer ao Exército Islâmico após a decapitação de James Foley?

A 'guerra ao terror' tem visto o jihadismo tornar-se mais forte do que nunca e o Ocidente deve ter cuidado para não apoiar as jogadas do EI (Estado Islâmico). Por Owen Jones, The Guardian.
A primeira derrota dos assassinos de James Foley seria ele ser lembrado como um jornalista corajoso.

A primeira derrota dos alegados assassinos de James Foley seria ele ser lembrado como um jornalista corajoso.

A reportagem a partir de uma zona de guerra é mais arriscada do que nunca: mais de 200 trabalhadores da comunicação social morreram na guerra do Iraque, mais do que em qualquer outro conflito; pelo menos 70 jornalistas foram mortos em conflitos globais no ano passado; e a Agência France Presse estima que pelo menos 30 morreram este ano.

Foley já tinha passado 44 dias em cativeiro na Líbia nas mãos das forças de Khadafi, mas isso não o impediu de desvelar a verdade sobre a Síria. Os seus aparentes assassinos querem que seja lembrado como ferramenta para espalhar o terror; celebrar o seu trabalho seria um ato de desafio.

Ao divulgar as suas atrocidades on-line, o Estado Islâmico diz a prováveis adversários o que acontecerá se lhe resistirem e isso em parte explica por que então muitos fugiram, em vez de confrontarem as forças do EI.

Tudo no vídeo do suposto assassinato do Foley estava destinado a enregelar-nos. Não é provável que o Estado Islâmico selecionasse um executor com um forte sotaque de Londres sem um motivo. Foi a guerra do Iraque que começou por popularizar os vídeos de execuções, mas ouvir as ameaças horripilantes e o dogma do Estado Islâmico recitado em tons demasiado familiares, é em si uma mensagem.

O terrorismo por definição visa espalhar o terror para atingir os seus fins políticos. Um das razões porque o Estado Islâmico consegue manobrar os seus rivais é tirar partido da comunicação social tão eficazmente. Ao divulgar as suas atrocidades on-line, diz a prováveis adversários o que acontecerá se lhe resistirem e isso em parte explica por que então muitos fugiram, em vez de confrontarem as forças do EI.

O uso cruel da comunicação social revelou-se fundamental para o derrube de cidades inteiras. Esta operação está a ser alegremente apoiada por aqueles que no Ocidente retratam o Estado Islâmico como um mal singular, não diluído, que precisa de ser bombardeado até deixar de existir, concedendo ao grupo militante a mística por que claramente anseia e em que se baseia.

O assassinato de Foley vai inevitavelmente intensificar apelos a maior envolvimento militar ocidental. Os que fazem agitação por esse curso de ação têm uma série de perguntas a que responder. A "guerra ao terror" começou há 13 anos. Envolveu bombas a chover sobre o Afeganistão, o Iraque, o Paquistão, a Somália e o Iémene. E com que sucesso? O jihadismo está mais forte do que nunca; o Estado Islâmico é não só mais extremista que a al-Qaida, como o que alcançou excede certamente as ambições mais selvagens de Osama bin Laden.

Quem poderá negar que o Ocidente tem servido de recruta para o extremismo islâmico, que efetivamente ajudou a entregar grandes parcelas do Iraque e da Líbia a esses elementos?

Ninguém está a fazer de conta que o Estado Islâmico será derrotado por umas quantas entusiasmantes interpretações do cântico Kumbayá. Mas os estrategas do Estado Islâmico devem certamente ansiar por maior envolvimento militar ocidental. Como afirmou o especialista em terrorismo norueguês Thomas Hegghammer, "o Estado Islâmico parece estar a fazer tudo o que pode (à falta de ataques no Ocidente) para atrair os EUA para o conflito".

Como afirmou o especialista em terrorismo norueguês Thomas Hegghammer, "o Estado Islâmico parece estar a fazer tudo o que pode (à falta de ataques no Ocidente) para atrair os EUA para o conflito".

Richard Barrett, o ex-chefe de contraterrorismo no MI6, adverte que a atual ação militar poderia favorecer as jogadas do Estado Islâmico. No Iraque, o sectarismo do antigo primeiro-ministro, Nouri al-Maliki, ajudou a incitar o ressentimento sunita de que o Estado Islâmico se alimentou; a sua partida oferece, pelo menos, a esperança de um governo de unidade que possa remover essas camadas da Comunidade sunita que não gostam do Estado Islâmico mas que temem ainda mais as alternativas. Certamente só então o exército iraquiano pode esperar derrotar estes assassinos sectários.

Quanto à Síria, bem, já não é complicado imaginar uma aproximação entre o Ocidente e a ditadura de Assad.

A contra-História favorecida pelos adeptos da intervenção ocidental é que estas são as consequências terríveis de não apoiar rebeldes sírios "moderados". Dado que as armas fornecidas pela CIA a tais grupos acabaram nas mãos do Estado Islâmico, isto é certamente uma ingenuidade.

O que precisa de muito mais escrutínio é o papel dos aliados ocidentais como o Qatar e a Arábia Saudita – armado até os dentes pela Grã-Bretanha e os EUA e cujas normas sociais são quase idênticas às do Estado Islâmico.

De acordo com o correspondente veterano no Médio Oriente Patrick Cockburn, a Arábia Saudita e as monarquias do Golfo são os "pais adotivos" do Estado Islâmico. E o antigo chefe do MI6, Sir Richard Dearlove, assinalou que o apoio financeiro saudita se revelou fundamental para a ascensão do EI. Quanto tempo pode a opinião pública ocidental tolerar o apoio à ditadura Saudita?

Foley parece ter sofrido uma morte desprezivelmente bárbara; é um destino infligido a muitos outros. Porque o Estado Islâmico se revelou tão bem sucedido a espalhar o terror, será difícil fazer um debate racional sobre como os derrotar. Mas debate racional é exatamente aquilo de que precisamos.

21 de agosto de 2014.

Tradução de Paula Sequeiros para o Esquerda.net

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