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O Estado no bolso

Nestas últimas semanas, saltaram para a ribalta cousas espantosas sobre a democracia portuguesa.

Nos debates entre os candidatos às primárias no PS, trocaram-se azadas acusações (favorecidas pelo próprio modelo das ditas “primárias”, em tudo semelhante a combates de boxe mediáticos, ultra-fulanizados e super despolitizados, para gáudio das assistências e do laborioso comentário político) sobre conúbio de interesses e promiscuidades entre a política e o mundo dos negócios.

O primeiro-ministro, pelo seu lado, forneceu mais um contributo para a particular revisão da semântica em língua portuguesa a que se tem dedicado com afã: não recebeu “salários” na organização não governamental em que participava e que era financiada através da Tecnoforma que, por sua vez, se financiava em offshores: apenas foi “reembolsado de despesas”…É verdade que se trata, em primeira e em última instância, de uma questão de bolso (os portugueses bem sabem disso), mas, de uma assentada, o trabalhador/prestador de serviços metamorfoseia-se em voluntário ou benévolo (como dizem os franceses) do terceiro sector, em prol da cooperação e da harmonia celestial entre os povos.

Num e noutro caso, sobressaem indícios quentes de como o Estado, vilipendiado e canibalizado pelo discurso liberal dominante, é toscamente assaltado pelas elites do arco da governação, sem dó nem piedade, enquanto primeiro dispositivo de satisfação dos seus mais mesquinhos interesses pessoais. Contra o Estado social, pelo Estado no meu bolso.

Sobre o/a autor(a)

Sociólogo, professor universitário, Presidente da Associação Portuguesa de Sociologia. Dirigente do Bloco de Esquerda.
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