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O Estado Islâmico, uma força reacionária, um inimigo mortal

O Estado Islâmico (EI) foi promovido durante o verão à condição de inimigo número um dos Estados Unidos e dos seus aliados. A sua expansão para Bagdade, ao sul, e para o estado autónomo curdo, ao norte, marcaram a sua ação. Ao mesmo tempo, a organização jihadista multiplicou os seus crimes. Por Henri Wilno, L'Anticapitaliste
O EI é inimigo mortal das mulheres, do movimento operário e de todas as forças progressistas da região.

O EI não é um estado mas sim uma organização jihadista armada que pretende construir um Estado. Antes deste verão dominava já parcelas de território na Síria e no Iraque. No passado 10 de junho tomou o controlo de Mossul, segunda cidade de Iraque. A 29 de junho, a organização, que primeiro se chamou Estado Islâmico do Iraque, e depois Estado islâmico do Iraque e do Levante, mudou de nome e foi proclamada um “califado” em Mossul. O “califa”, Abu Bakr al-Baghdadi, controla já uma grande região entre o Iraque e a Síria.

Diversos padrinhos

A organização saiu da Al Qaeda, mas afastou-se dela progressivamente. De facto, a Al Qaeda põe o foco da sua ação na luta contra os Estados Unidos e o Ocidente, enquanto as sucessivas organizações que formaram o EI concentram-se no “inimigo próximo”: o regime sírio, os seus opositores não islamistas e os xiitas no poder em Bagdade desde a queda de Saddam Hussein. O objetivo é o controlo efetivo de territórios onde os jihadistas possam impor a sua ordem. A esta diferença de orientação juntam-se conflitos a nível local (na Síria, a organização que tem a “franquia” da Al Qaeda é a Frente Al Nusra) ou para captar recursos financeiros.

No início da sua aventura, a organização recebeu fundos provenientes da Arábia Saudita e do Qatar: depois, os fundos oficiais acabaram, mas continuam a chegar doações privadas. Na Síria, Assad tem feito todo o possível por reforçar os islamistas em detrimento dos grupos laicos ou religiosos moderados. No Iraque, os jihadistas beneficiaram-se da crise do regime erigido pelos americanos. O primeiro-ministro xiita Nuri Al-Maliki (que perdeu o poder no final de agosto) levou a cabo uma política que privilegiava os xiitas. A marginalização dos sunitas acentuou-se depois da saída das tropas americanas. Foram reprimidas manifestações não violentas, o que favoreceu a insurreição de certos grupos sunitas.

O EI não é uma reencarnação dos guerreiros dos primeiros tempos do Islão. Os estados criados depois da expansão árabe eram mais tolerantes com as minorias religiosas que o EI de hoje. 

O EIIL já tinha praticado atentados antixiitas. Atualmente, reforçado pelos seus sucessos sírios, assumiu aos poucos a liderança de um movimento sunita heterogéneo, que inclui oficiais saídos do exército de Saddam Hussein. Aproveitou, em particular na Síria, a presença de combatentes estrangeiros. A política americana no Iraque favoreceu a fragmentação do país entre xiitas, sunitas e curdos, fragmentação que se acentua atualmente ao ponto de pôr em questão a continuidade do estado iraquiano.

Um inimigo mortal

O EI não é uma reencarnação dos guerreiros dos primeiros tempos do Islão. Os estados criados depois da expansão árabe eram mais tolerantes com as minorias religiosas que o EI de hoje. Esta organização aproveita-se das contradições dos regimes árabes reacionários, das manobras de Assad e do fracasso das estratégias imperialistas. É também o produto da eliminação das forças progressistas da região, e da sua aura entre jovens do Ocidente; mesmo sendo globalmente uma minoria, constitui um impasse e um perigo.

O EI é inimigo mortal das mulheres, do movimento operário e de todas as forças progressistas da região. A estabilização do seu controlo territorial significaria a servidão para as populações afetadas. Os sírios em luta contra Assad já fizeram essa experiência.

Não se deve certamente ver a situação iraquiana apenas pelo prisma confessional: os operários da indústria petrolífera do sul de Iraque são com frequência xiitas, mas também se confrontaram com Maliki. Em abril de 2013 ocorreram greves, e em dezembro passado os trabalhadores do petróleo manifestaram-se em Bassorá a favor de aumentos salariais e de melhores condições de trabalho. Em janeiro, os sindicatos iraquianos dirigiram-se de novo ao Parlamento para que fosse revogada a restritiva legislação trabalhista herdada de Saddam Hussein. Mas no meio das milícias armadas de todo o tipo, a reconstrução de uma alternativa progressista no Iraque (onde existiu um importante partido comunista) levará tempo.

4/09/2014

Publicado no semanário L’Anticapitaliste

Tradução para castelhano de Faustino Eguberri para VENTO SUR

Tradução para português de Luis Leiria para o Esquerda.net

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