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Qual é a estratégia do Estado islâmico?

Para combater de forma eficaz o Estado islâmico, é preciso compreender aquilo de que ele é expressão. Ele é expressão de dois grandes fracassos políticos: o do regime sírio e o do regime iraquiano que, em contextos diferentes, com papéis diferentes da comunidade internacional, ostracizaram, marginalizaram, reprimiram a componente sunita da população. Entrevista com François Burgat, conduzida por Alexandra Cagnard.
O jornalista Steven Stoloff

“A segunda mensagem para a América” é o título do vídeo publicado pelo Estado islâmico na Internet. Um vídeo em que aquela organização reivindica o assassinato do jornalista americano Steven Sotloff1. Uma encenação da decapitação, duas semanas depois do anúncio do assassinato de outro jornalista, James Foley2. E uma mensagem para Barack Obama: “Enquanto os teus mísseis continuarem a atingir o nosso povo, a nossa faca vai continuar a cortar o pescoço do teu povo”. Com a morte de Steven Sotloff, qual é a estratégia do EI?

Para falar sobre isto, entrevistámos François Burgat, diretor de investigação do CNRS (Centro nacional de investigação científica de França), antigo diretor do IFPO (Instituto francês do Médio Oriente). Autor do livro “Pas de printemps pour la Syrie” (Não há primavera para a Síria), publicado pelas edições La Découverte, 2013.

RFI: Como analisa este novo ato do Estado islâmico? Qual é a lógica desta organização, segundo a sua opinião?

François Burgat: Na linha da organização mãe que era a Al-Qaeda, o Estado islâmico não comete, na minha opinião, mais violência, tanto individual como coletiva, do que as outras partes em conflito, nomeadamente o regime sírio [de Bachar al-Assad]. Só que ele [o EI] integra-a na sua política de comunicação, enquanto que o regime sírio (podemos contar onze mil mortos sob tortura só na região de Damasco) nega esta violência e acusa os adversários por ela. O EI serve-se dela como elemento constitutivo da sua comunicação. É a comunicação dos fracos. Quando se está em posição dominante, não é preciso tentar assustar os adversários.

O EI serve-se da violência como elemento constitutivo da sua comunicação. É a comunicação dos fracos. Quando se está em posição dominante, não é preciso tentar assustar os adversários.

E é sem surpresa que surge esta segunda catástrofe do assassinato de Steven Stoloff e infelizmente podemos prever que outros estarão na lista. As estimativas são contraditórias, elas vão até vinte estrangeiros atualmente detidos e estes estrangeiros circulam de um grupo para outro. Portanto, não se sabe exatamente... Mas infelizmente, este segundo assassinato não nos surpreende e poderá haver outros casos nas próximas semanas.

Há um desejo real da parte do Estado islâmico de mostrar o progresso desta dominação?

Isso é evidente. Para combater de forma eficaz o Estado islâmico, é preciso compreender aquilo de que ele é expressão. Ele é expressão de dois grandes fracassos políticos: o do regime sírio e o do regime iraquiano que, em contextos diferentes, com papéis diferentes da comunidade internacional, ostracizaram, marginalizaram, reprimiram a componente sunita da população.

E essas pessoas são o produto de um longo passado de violência ocidental na região. Há duas gerações, aqueles que conheceram a jihad no Afeganistão e os que viveram desde 2003 no Iraque. São pessoas que conheceram Fallujah [em 2004 e em fins de 2013-princípios de 2014], são pessoas que viveram uma série de violências cometidas pelos americanos na região.

E é preciso não esquecer que há quase oitenta nações presentes no Estado islâmico. Isto assinala o fracasso ou os limites da política de integração de muçulmanos em muitas de nações do mundo que vão desde os Chechenos – que viveram aquilo que foi feito por Ieltsin e Putin [em particular em 1994-1996 e 1999-2000] – até, digo isto para chocar um pouco, aqueles que não se reconhecem na forma de tratamento dado à comunidade muçulmana em França. Por exemplo, no caso da “crise” síria, mas também no caso da “crise” de Gaza.

É ainda um conjunto de forças, eu chamo-lhes os “angry sunies” (sunitas irados) ou os jihadistas sem fronteiras, que pela primeira vez – poder-se-á comparar um pouco ao que aconteceu no Irão em 1979 – emergem como uma força política institucionalizada que pode orgulhar-se de estar em estado de graça em relação ao ambiente ocidental, por um lado, e em relação aos regimes influenciados pelo ocidente, por outro lado. Portanto estes jihadistas têm um combustível ideológico muito forte que é preciso ter em conta quando se analisa o que está a acontecer.

A lógica é nova em relação ao que se conhece habitualmente em matéria de tomada de reféns. O EI não está de forma nenhum numa lógica de resgate, mas de pressão real?

Não, isto não é totalmente novo. Estamos aqui numa “escola iraquiana”. Já houve execuções que tentaram fazer ceder a comunidade a que pertencem os reféns, no início da luta contra os americanos em 2003 no Iraque3. A encenação não é nova, inclusive a cor laranja que é suposto responder à “retórica da guantanamização”. Naquela altura, eu disse a propósito do tratamento dado pelos americanos aos adversários políticos, que aquela retórica consistia em privá-los de todos os direitos de um combatente legítimo. É um pouco a resposta do olho por olho, isto não é completamente novo.

Fala-se que sessenta pessoas (na maioria ocidentais) estarão detidas pelo EI. O senhor fala de uma vintena, na espécie de “fábricas de reféns”, é isso que nos dizia o nosso correspondente na região. Sabe um pouco mais sobre isto?

Não, não sei mais nada. Mas eu, como vocês, verifiquei todas as fontes disponíveis. Há duas variáveis que nos impedem de responder de forma muito precisa. Em primeiro lugar, porque as pessoas próximas de alguns reféns e as instituições que empregam alguns jornalistas pensam que é preferível não tornar público o seu desaparecimento. Demorou-se muito tempo para saber que Sotloff estava detido e, em segundo lugar, a exploração da “fileira” refém é feita por grupos que podem fazer transações entre eles.

Então, nós não sabemos (desconfio que ninguém sabe), em qualquer caso ninguém falou em avançar com números muito precisos. O que é certo é que é uma fileira possível de alimentar. Porque em terreno iraquiano, em terreno sírio, há sempre cidadãos ocidentais4 que poderão, em última instância, chegar às mãos do Estado islâmico. Por isso, é uma variável do conflito à qual eu temo que nos tenhamos de acostumar.

Ações nos territórios que eles controlam. Pensa que é de esperar atos terroristas no exterior, na Europa e nos Estados Unidos, por parte do EI?

Conhecemos o passado, mas é muito difícil prever o futuro. Penso que o EI mostra que está decidido a atingir o “ponto fraco” do seu adversário ocidental. Não podemos excluir a hipótese de eles fazerem uso destes meios de pressão nas sociedades ocidentais. Mas ele tem já muitos recursos com esta prática dos reféns.

(Publicado por RFI, em 3 de setembro de 2014)

Artigo publicado em A l'encontre, a 4 de setembro de 2014. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net

1 A 14 de agosto de 2013, Steven Joel Sotloff, jornalista israelo-americano de 31 anos, foi raptado por jihadistas perto de Alepo. Ele tinha acabado de entrar no norte da Síria pela fronteira turca. Treze meses mais tarde, a 2 de setembro de 2014, o Estado islâmico difundiu um vídeo no qual um jihadista decapita um homem apresentado como Steven Sotloff. A 3 de setembro de 2014, a Casa Branca confirmou a sua identidade (redação do A l'Encontre)

2 A 20 de agosto de 2014, o movimento jihadista publicou um vídeo da decapitação do jornalista James Foley, raptado na Síria nos finais de 2012. Os quatro reféns franceses libertados em abril de 2014 – Didier François, Edouard Elias, Nicolas Hénins e Pierre Torès, raptados em junho de 2013 – davam, após meses de silêncio, notícias deste jornalista independente que trabalhava para o site Global Post e para a agência France Press. Estava detido com uma dúzia de reféns em Raqqa, um dos bastiões do EI na Síria. (redação do A l’Encontre)

3 Segundo Christophe Ayad do jornal Le Monde. “O vídeo [da decapitação de James Foley] não deixará de recordar as encenações sinistras de Abou Moussab Al-Zarkaoui, o “pai espiritual” do Estado islâmico, morto em 2006 num ataque aéreo americano. Em 2004, durante a guerra do Iraque, ele tornou-se célebre ao matar com a suas próprias mãos o empresário americano Nicholas Berg.” (redação do A l’Encontre)

4 Nas palavras de Wassim Nasr, jornalista da France 24 e especialista do Médio Oriente, ao Le Monde de 2 de setembro: “James Foley e Steven Sotloff foram mortos porque eram americanos mais do que por serem jornalistas. Se o EI tivesse podido capturar um americano que não fosse jornalista, provavelmente tê-lo-iam feito. Para o EI, o facto de serem jornalistas dá maior repercussão.” (redação do A l’Encontre)

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