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Os trabalhadores que paguem a si próprios

Parece que a CIP já "admite" (sic) uma subida do salário mínimo para os 505 euros, mas sublinha que estes acréscimos têm de ser "compensados". Os representantes dos patrões querem uma descida da TSU para "compensar" o aumento principesco.

Na mesma notícia recorda-se que, já em 2010, o aumento do salário mínimo foi "compensado" com uma redução de um ponto percentual na TSU. A linguagem e raciocínio das nossas elites são todo um programa, que merece ser escrutinado:

1. Em primeiro lugar, aquilo a que se chama o "aumento do salário mínimo" é, na realidade, menos do que uma atualização. Mesmo que o comparemos a anos de referência mais recentes (2007 ou 2011), os valores em debate não chegam a repor o poder de compra perdido;

2. Nesse sentido, não se percebe porque é que os patrões hão-de ser compensados pela atualização do salário mínimo, ou mesmo, por um aumento real que acompanhasse o aumento da produtividade, como tanto têm pregado os economistas liberais.

3. A "compensação" que exige a CIP para "admitir" a menos-do-que-atualização do salário mínimo consiste na mobilização de recursos da segurança social, ou seja, da reforma, para pagar o salário atual. O trabalhador paga com a sua reforma a atualização do seu salário. Paga a si próprio. O saldo de tudo isto é uma redução real do salário mínimo associada a uma redução nominal da reforma futura.

4. Esta operação serve ainda dois propósitos políticos: (a) antecipa rendimento da reforma futura para o salário atual, (minora a miséria atual aumentando a futura) e puxa ligeiramente pela procura atual à custa do Sistema de Segurança Social e (b) dá mais um contributo ativo (com tantos outros) para a descapitalização da segurança social que continuará, claro, a ser atribuída a "fatores demográficos".

Isto sem entrar noutros dossiers como a contratação coletiva ou as horas extra, que governo e patronato já prometeram por em cima da mesa como moeda de troca, sempre no espírito da "compensação": se os trabalhadores não quiserem continuar a perder (tanto) salário terão de perder direitos. Se for esta a proposta final, só espero que tenhamos unidade sindical na sua rejeição. A ver vamos...

Sobre o/a autor(a)

Eurodeputado e economista.
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