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Hong Kong: Manifestação de milhares de estudantes no primeiro dia de greve

Os estudantes boicotam as aulas como forma de protesto contra a decisão do Partido Comunista Chinês (PCC), adotada no final do mês passado, que nega a Hong Kong o direito pleno ao sufrágio universal e impõe que os candidatos a chefe do governo sejam aprovados previamente por um comité de seleção de 1 200 pessoas. Artigo de Ruixue Bai, International Viewpoint.
Foto JEROME FAVRE, Epa/Lusa.

Na segunda-feira, os estudantes universitários de Hong Kong deram o pontapé de saída à semana de boicote às aulas organizando uma concentração em massa na Universidade Chinesa desta cidade. Os estudantes boicotam as aulas como forma de protesto contra a decisão do Partido Comunista Chinês (PCC), adotada no final do mês passado, que nega a Hong Kong o direito pleno ao sufrágio universal e impõe que os candidatos a chefe do governo sejam aprovados previamente por um comité de seleção de 1 200 pessoas.

Os estudantes em greve reclamam que as autoridades permitam candidaturas cidadãs para as eleições de chefe do governo em 2017, reformem o Conselho Legislativo mediante a abolição dos círculos funcionais e retirem o pacote de reforma política como exige o povo de Hong Kong. Caso as autoridades se recusem a satisfazer estas reivindicações, reclamam a demissão do atual chefe do executivo, Leung Chun-ying, e de outros altos cargos do seu governo. Ao fazer públicas as suas reivindicações, a Federação de Estudantes de Hong Kong declarou desta forma que terá lugar uma escalada das suas ações se o PCC não responde ao boicote e “utiliza o poder do povo para devolver o poder ao povo”.

Os estudantes boicotam as aulas num total de 26 centros do ensino superior de Hong Kong. A concentração de ontem à tarde foi convocada pela Federação de Estudantes de Hong Kong, e, de acordo com os organizadores, terão participado cerca de 13 000 estudantes: levavam cartazes com palavras de ordem como “Autodeterminação para Hong Kong”, “Continua a luta não violenta por uma candidatura cidadã”, “Contra a colonização e a seleção desde cima”, “Se não levantarmos a voz e expressarmos a nossa ira, eliminar-nos-ão em silêncio” (frase de Lu Xun[i]) e “Um governo representativo não basta, também temos de proteger o sustento do povo”.

Durante a concentração, alguns líderes do sindicato estudantil condenaram a decisão adotada pelo Congresso Nacional Popular no passado dia 31 de agosto. Um deles explicou como, inclusive após o fim do regime colonial britânico em 1997, o sistema político de Hong Kong é uma cópia do sistema colonial e continua a estar ao serviço dos oligarcas. Também se criticou a incapacidade do gverno de Hong Kong de estabelecer um regime universal de pensões e fixar o horário de trabalho. Ao comentar a importância da sua ação, a direção do sindicato estudantil também declarou que “não somos especuladores, somos os guardiães do destino”. Na concentração também falaram estudantes de diferentes universidades e disciplinas académicas, entre os quais vários dos que figuraram entre as 511 pessoas detidas quando participavam no protesto de Occupy Central de 2 de julho. Muitos dos oradores destacaram que participavam no protesto porque são cidadãos de Hong Kong, pelo seu amor a Hong Kong e porque desejam que Hong Kong alcance a democracia. Vários professores também se dirigiram aos estudantes prometendo continuar a apoiá-los se decidirem continuar a luta pela democracia. Além disso, tomaram a palavra antigos ativistas do sindicato estudantil, declarando seu apoio às ações de protesto protagonizadas pela atual geração de estudantes.

Os estudantes universitários planeiam manter o boicote às aulas durante toda a semana, enquanto os alunos do secundário se preparam para se unir ao protesto na próxima sexta-feira. Tendo sido adotado o lema “Boicote às aulas, não à aprendizagem” foi organizado um programa de conferências públicas que começou esta segunda-feira e que terá lugar todos os dias da semana em frente das sedes do governo, nas quais se ofereceram para intervir mais de 100 professores e outras pessoas que simpatizam com a ação. O Occupy Central planeia convocar uma nova manifestação em massa, a realizar-se a 1 de outubro.

23/09/2014

http://www.internationalviewpoint.ou...

Tradução de Mariana Carneiro para o Esquerda.net

 


[i] Representante máximo do Movimento de Quatro de Maio, é considerado o pai da literatura moderna na China. Fez parte da Liga de Escritores das Esquerdas, grupo de intelectuais ligados ao Partido Comunista Chinês, e destacou-se pelos seus ataques à cultura tradicional chinesa e pela defesa da necessidade de implementar reformas profundas na cultura e sociedade chinesas. Neste sentido, defendeu a reforma linguística, sendo um dos primeiros escritores que, seguindo as ideias de intelectuais como Hu Shih, utilizou a língua vernácula (白話 / 白话báihuà) em vez do chinês clássico (文言 wényán) como meio de expressão literária.

 

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