You are here

Recuos profundos

Como é que posso, podemos, conviver com situações, demasiado aberrantes, como as da distribuição de alimentação (o “greenfood” ou “desperdício zero”)?

Tem de haver alguma dinâmica para a escrita de um artigo de opinião, bastantes vezes, com ligação ao que nós próprios sentimos com tudo o que nos rodeia e/ou afeta pessoalmente.

A estranheza e o desfiar dos acontecimentos, são demasiado carregados e toldam-nos o pensamento e a capacidade de reação para quem reage com insistência e convicção, apercebendo-se que a sua voz é cortada pelo ruído ensurdecedor do silêncio e da indiferença.

Como é que posso, podemos, conviver com situações, demasiado aberrantes, como as da distribuição de alimentação (o “greenfood” ou “desperdício zero”) por um número elevado de pessoas, famílias carentes, em virtude das vicissitudes por que passam, resultado destes “estados de sítio” aplicados pelo governo? Desemprego, cortes de subsídios, cortes de reformas…. Numa espiral sem fim, até à derrocada final da Dignidade Humana. O apagamento, a anulação do Estado Social, com os cortes dos respetivos Apoios Sociais, ao contrário da sua incrementação, como só poderá ser para que um país seja um Estado de Direito e Democrático.

A necessidade imperiosa das refeições distribuídas nas escolas, às crianças e familiares, durante o tempo de aulas e até durante as férias de Verão. O recuo, revisitação à “sopa dos pobres” em ação, através de organizações de benemerência e apoio social.

O fecho de escolas para obstar a que a escola chegue onde é precisa, e não afastá-la de quem a ela tem direito.

A necessidade premente de alimentar e educar as crianças deste País. Cada dia, vemos menos crianças e menos País. Um país em decadência permanente, que nos faz recuar 58 anos, para nossa desonra, indignação e vergonha. É que, nessa altura, até os agentes do Estado Novo, esgrimiam uma tentativa de tornar as situações sociais menos deprimentes, porque sentiam uma certa vergonha… E, já agora, para que a memória não se apague e para que conste:

Numa carta enviada a Salazar a 7 de Setembro de 1956, o subsecretário de estado da Assistência Social considerou particularmente necessária a desejável progressiva substituição da Assistência pela Previdência Social, declarando, em particular, que ficava mal na era da Segurança Social, de Direito à Educação, ao Trabalho e à Saúde, a chamada distribuição das sopas” – in “Cada um no seu lugar – A política feminina do Estado Novo” – Irene Flunser Pimentel , pág.86.

E a esta situação não quero voltar, sabendo que, nos dias de hoje, 58 anos depois, não aceito não admito retroceder a ver os netos e bisnetos deste país receberem na escola uma sopa e 1 quarto de pão escuro, única refeição diária até chegarem a casa e engolirem 2 colheres de um caldo escasso e esparso de alguma substância de qualquer alimento consistente. Só mesmo para aconchegar e calar o estômago até irem p’ra deita.

Dir-me-ão, eh lá, não sejas tão exagerada nessa tua prosa…. Sim, não será… mas mesmo e só porque os tempos têm outras cambiantes. Mas o caminho que nos estão a fazer trilhar, não me parece do mais promissor, antes sim nos estão a lançar numa caminhada de profundo retrocesso.

Sobre o/a autor(a)

Reformada. Tradutora e Assistente no Depto. Médico duma multinacional americana da indústria e comércio farmacêuticos. Dirigente do Bloco de Esquerda.
(...)