You are here

Petróleo do Mar do Norte: o que importa não é se vai haver um “boom” mas a quem pertence o petróleo

A única forma de diminuir o deficit e retomar os serviços públicos depois dos cortes da coligação, bem como de conseguir ter dinheiro para investir e reconstruir a economia escocesa será nacionalizar o petróleo do Mar do Norte. Artigo de Ralph Blake.
Foto Irenicrhonda/Flickr

A única coisa de que sabemos com certeza sobre o futuro preço do petróleo é que não sabemos qual vai ser. É por isso que a afirmação do Scottish National Party (SNP) de que a independência coincidirá com o “boom” do petróleo do Mar do Norte que irá permitir à Escócia uma significativa melhoria de condições, deve ser olhada com precaução. Baseia-se em previsões largamente especulativas que vão contra as previsões médias dos analistas especializados nessa indústria.

Mais do que tentar prever o imprevisível, a variante mais importante no que respeita ao petróleo é saber quem o possui. Sob propriedade privada, mesmo se o “boom” passar, não chegará a proporcionar fundos suficientes para compensar o enorme montante da dívida que a Escócia herdará  e nenhum acordo de independência trará os meios necessários à reconstrução da economia escocesa.

Durante os últimos dez anos o petróleo do Mar do Norte negociou cada barril por cerca de 27 US dólares ($) o preço mais baixo, e $150 o preço mais alto. Começou em 2003 com 27$ e aumentou nos 5 anos seguintes para $140 até 2008 e a pré-crise financeira ter abalado a economia mundial. Então caiu para $40 e quando a economia mundial se afundou na crise financeira, tendo sido necessários  dois anos e meio para a recuperação gradual do preço até $110 que se manteve nos últimos dois anos. O preço também determina quanto as companhias petrolíferas irão extrair em cada ano, tornando os lucros ainda mais voláteis.

O preço do petróleo tem variado em função de vários fatores durante os últimos dez anos: tensões geopolíticas no Médio Oriente; a economia Chinesa; e os ciclos recessão/retoma na economia mundial. O boom do petróleo no virar do milénio foi provocado por uma conjunção de fatores ocorrendo simultaneamente e é altamente improvável que se repitam.

A pior recessão desde a década de 1930 e a fraca recuperação da economia, particularmente na Europa, apontam, desde o século XIX, para uma baixa procura de petróleo e consequente baixa de preços no futuro, muito diferente dos impetuosos anos de 2008.

Seria prudente, se o fator chave para a gestão das nossas finanças for o petróleo do Mar do Norte, calcular de forma cautelosa os lucros do petróleo dada a alta volatilidade dos preços.

A média das previsões dos analistas, supervisionados por Bloomberg, situa-se em cerca de $110 por barril de petróleo do Mar do Norte para os próximos quatro anos, o que está de acordo com as previsões do departamento de estatística Norte-Americano. Estes números são cerca de 15 a 25% mais baixos do que as previsões fornecidas ao SNP pelo Department of Energy and Climate Change ($130) e pela OECD ($150), nenhum dos dois organismos reconhecido como especialista em petróleo, ou como tendo bons antecedentes na previsão de futuros preços do petróleo. Em qualquer caso, seria prudente, se o fator chave para a gestão das nossas finanças for o petróleo do Mar do Norte, calcular de forma cautelosa os lucros do petróleo dada a alta volatilidade dos preços. Numa proposta que fiz* advogava o uso de um preço de $80, devendo qualquer acréscimo ficar a constituir um fundo de reserva, e 20% desse fundo seria retirado cada três anos para financiar projetos na Escócia. Desta forma, criava-se uma ‘almofada’ para o caso do preço do petróleo descer abaixo dos $80 , e fundos extraordinários são necessários para colmatar uma brecha nas finanças públicas.

O Déficit com e sem os lucros do petróleo do Mar do Norte**

Mas estes lucros, mesmo nos números inflacionados do SNP, não seriam suficientes para anular o deficit das finanças públicas que, numa média dos últimos três anos tem sido de 11 mil milhões de libras. Nem poderiam compensar os cerca de 10 mil milhões de libras em cortes reais que a coligação terá feito nos serviços públicos em 2013/1014 ou os 106 mil milhões de libras (a nossa parte per capita na dívida total do UK) de dívida nacional, que herdaríamos nos termos que seriam aceites no Acordo de Independência.
Podemos dizer que com os lucros do petróleo do Mar do Norte o deficit escocês é aparentemente menor mas não teríamos mais dinheiro para gastar. Somente teríamos de pedir menos dinheiro emprestado, agora gerido por nós próprios, enquanto que atualmente é pedido pelo governo britânico que apresenta os problemas a que me referi anteriormente. Qualquer “boom” significa um boom no investimento porque, com níveis de preço estáveis de $100 por barril, seria proveitoso para as companhias petrolíferas explorar e extrair acima dos estimados 25 biliões de barris de petróleo do Mar do Norte quantidade previamente considerada correta em termos económicos. Mas, sob propriedade privada, só 30% destes lucros iriam para a Escócia. O boom nos lucros reais do petróleo ocorreu no início dos anos 1980.

A única forma de diminuir o deficit e retomar os serviços públicos depois dos cortes da coligação, bem como de conseguir ter dinheiro para investir e reconstruir a economia escocesa será nacionalizar o petróleo do Mar do Norte. É o único caminho, radical, para o povo escocês. Significaria mais do que triplicar os lucros do petróleo. Libertaria a Escócia da exposição à volatilidade dos preços do petróleo, se um fundo de reserva fosse criado e estruturado conforme descrevi. Também nos permitiria ter o nosso próprio câmbio e um banco central e ter uma Escócia verde sustentável, ao encontro das necessidades das pessoas. Isso permitiria à Escócia ser independente do Banco de Inglaterra e do Tesouro. Poderíamos seguir o caminho da Noruega que detém uma larga maioria na sua indústria petrolífera e aderir à  Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA), em vez de ficarmos presos no jogo dos membros da EU. Permitia-nos negociar com a Europa e sermos europeus, não fazendo parte do bloco económico neoliberal.

Sim, ‘o petróleo é da Escócia’, mas só depois de ser nacionalizado. Assim poderemos construir uma Escócia independente próspera, justa e sustentável.

Ralph Blake, pseudónimo de um analista de indústria financeira escocesa e antigo chefe de investigação e estratégia sobre investimento bancário. Publicado inicialmente no site da Radical Independence Campaign, a 18/03/2013. Tradução de Isabel Gentil.

*http://socialistresistence.org/4649/scottish-independence-itll-be-the-ec...
**http://www.scotland.gov.uk/Topics/Statistics/Browse/Economy/GERS/GERS201...

(...)

Resto dossier

Referendo na Escócia: o fim do Império?

A poucos dias do referendo de 18 de setembro, o poder político de Londres treme ante a subida das intenções de voto do Sim à independência da Escócia. No meio da austeridade que nos últimos anos tem cortado nos salários, pensões e serviços públicos, a população escocesa atreveu-se a imaginar um país novo e mais justo e a discutir as opções do seu futuro. Dossier organizado por Mariana Vieira.

A Escócia já ganhou

O referendo de 18 de Setembro trouxe para o quotidiano discussões sobre história, política e economia, sobre o que foi o passado e o que se quer do futuro. Quase ninguém responde agora “ah, eu não falo dessas coisas”. E já não era sem tempo! Artigo de Mariana Vieira, em Edimburgo.

Por que passei a dizer SIM à Independência da Escócia

Podemos dizer que da União não sobra muito, a não ser sentimento, história e família. Algumas das razões pragmáticas para a subsistência da União, que emergiram nos séculos XVIII e XIX, desapareceram. Artigo do historiador Tom Devine, a principal referência do estudo da Escócia moderna .

Quem irá escrever a Constituição da Escócia?

Se a Escócia votar pela independência teremos de enfrentar importantes perguntas na área constitucional: Qual será a relação entre os cidadãos e os Estado? Quem escreverá a Constituição? Poderá o escocês comum a contribuir para esse processo? E como poderemos todos nós ser incluídos nele? O modelo islandês é um exemplo a seguir? Artigo de Jamie Mann.

A Economia e a Independência

O principal argumento do Better Together, de que as maiores economias são mais resistentes e flexíveis, ainda está por escrutinar. As pequenas economias do Norte, geograficamente semelhantes à Escócia, mantiveram as suas moedas independentes, mais estáveis do que a libra esterlina. Artigo de James Foley e Pete Ramand.

O voto no SIM na Escócia soltaria a mais perigosa das coisas: a esperança

O mito da apatia foi já destruído pelo movimento tumultuoso a norte da fronteira. Assim que há uma coisa pela qual vale a pena votar, as pessoas fazem filas pela noite fora para ter o nome no caderno eleitoral. A pouca participação nas eleições para Westminster reflete não a falta de interesse, mas a falta de esperança. Artigo de George Monbiot.

Petróleo do Mar do Norte: o que importa não é se vai haver um “boom” mas a quem pertence o petróleo

A única forma de diminuir o deficit e retomar os serviços públicos depois dos cortes da coligação, bem como de conseguir ter dinheiro para investir e reconstruir a economia escocesa será nacionalizar o petróleo do Mar do Norte. Artigo de Ralph Blake.

Cronologia da Independência

Momentos importantes da história da Escócia e das suas várias conquistas e sucessivas perdas de independência através dos séculos. Mais informação sobre cada época pode ser consultada, por exemplo, aqui.

Glossário do referendo

Quem é quem nesta campanha do referendo à independência? Quais os sites e blogs que defendem a campanha do Sim e têm tentado furar o bloqueio dos grandes meios de comunicação a favor do Não? Reunimos aqui alguma informação básica para acompanhar melhor esta campanha.

O SNP não pode fugir para sempre ao debate sobre a monarquia

Será interessante a resposta dos membros do SNP às possibilidades constitucionais abertas pela independência. Vão acomodar-se à monarquia pragmática dos seus dirigentes ou exigir uma alternativa mais radical e genuinamente democrática? Artigo de James Maxwell.

O Left Unity e o debate da Independência

Por explicarem o quadro geral das duas posições opostas, publicamos aqui dois textos do debate em curso no Left Unity, novo partido que pretende ser um agregador da esquerda por todo o Reino Unido. Até à data, o partido escolheu não tomar posição oficial, apesar de os seus membros participarem activamente nas campanhas respectivas. Alan Mackinnon defende o NÃO; Allan Armstrong responde-lhe pelo SIM.

Os socialistas e o SIM

Apoiar o direito democrático de nações como a Escócia à autodeterminação não faz de ti um nacionalista escocês, faz ti um democrata. Artigo de Colin Fox, porta-voz do Scottish Socialist Party.

Como se aproximam os sindicatos da independência?

O princípio da devolução e da transferência de controlo para Edimburgo de, entre outras, políticas de transportes, saúde e educação, criou uma nova camada de poder do estado com as quais as secções escocesas dos sindicatos britânicos passaram a ter de negociar, reduzindo a sua dependência nas estruturas mais alargadas, de todo o Reino Unido. Artigo de James Maxwell.

Quem são os donos da Escócia?

John Glen, o diretor executivo de Buccleuch Estates diz que os membros da Scottish and Land Estates “gerem um razoável volume de recursos naturais”. E tem razão: entre eles, os 2.500 membros devem ser proprietários de três quartos do território escocês. Artigo de Peter Geoghegan.

Tariq Ali: "A separação da Escócia desmantela o estado britânico"

Nesta entrevista conduzida por James Foley, o escritor, realizador e editor da New Left Review explica o seu apoio à independência da Escócia e fala das consequências do voto Sim neste referendo.

Ken Loach: Escócia independente poderá ser a "ameaça do bom exemplo"

O cineasta e fundador do partido Left Unity defende que a independência não resolve todos os problemas da Escócia, mas abre a possibilidade de criar uma sociedade mais justa.

O direito a sonhar

Votar Não significa votar sim a um estado para quem a defesa e a política internacional passam por fingir que não fazem parte da Europa. Fingir que vivemos numa espécie de isolamento glorioso com os nossos “amigos” Estados Unidos. Artigo de Jo Clifford.

O Modelo Nórdico

Na sequência da carta aberta de 17 escritores e jornalistas escandinavos que apoiam a campanha do SIM, Pete Ramand e James Foley, cofundadores da Campanha Radical pela Independência e autores de Yes: The Radical Case for Independence, defendem a tese de que uma Escócia Independente deveria abandonar o capitalismo Anglo-Americano em favor de uma social democracia Nórdica.

Um salva-vidas para as pessoas com deficiência que se afundam neste mar de cortes orçamentais

O Livro Branco sobre a independência lançado pelo Governo promete mudanças no regime de apoios sociais. Ao invés, o Labour só garante que a austeridade e os cortes vão continuar. Artigo de John McArdle.

Votar SIM é a única maneira de salvar da privatização o Serviço Nacional de Saúde

Enquanto o Serviço Nacional de Saúde Inglês está a ser privatizado, o Escocês regressou à filosofia tradicional do serviço unificado e de fundos públicos. Artigo de Philippa Whitford.

A Guerra e as Mulheres

A independência é a maior ameaça ao Reino Unido enquanto potência mundial desde a descolonização, fornecendo a uma Escócia independente a oportunidade de adoptar uma política estrangeira independente e justa. Artigo de Cat Boyd e Jenny Morrison.

A negatividade do SIM

É também enquanto socialista que recuso acreditar que os nossos irmãos e irmãs sejam uma causa perdida. Para mim, um voto SIM soa a desistência e eu acredito que a única forma de ser socialista é manter viva a ideia de que venceremos, num dia distante, talvez, mas venceremos. Artigo de Juan Pablo Lewis Jr.

Imigração na Escócia pós-referendo

A diferença das necessidades demográficas e de migração da Escócia significam que a atual política de imigração do Reino Unido não contemplou as prioridades escocesas no campo da migração. Excerto do Livro Branco do governo escocês, “Scotland’s Future”.

Separando os factos da ficção - o que significa a Grã-Bretanha?

David Cameron e o seu lacaio Michael Gove querem introduzir “Valores Britânicos” na escolas britânicas. Querem ensinar à nossas crianças o que é ‘liberdade’, ‘tolerância’, ‘respeito pelas leis e pelo direito’, ‘crença na responsabilidade pessoal e social’ e ‘respeito pelas instituições britânicas’. Peguemos esta hipocrisia pelos cornos. Artigo de Suki Sangha.

Os planos A, B, C, D, E, F… da moeda Irlandesa desde a independência

Se a libra esterlina passar em 2020 por uma crise como a dos anos 70, o governo da Escócia independente, SNP ou outro qualquer, fará o que fez a Irlanda: vai abandonar a libra esterlina sem hesitar e usar a libra escocesa, mantendo-a dentro dos limites estabelecidos com as moedas dos seus parceiros de mercado, por exemplo, a Zona Euro, os EUA, a Noruega, etc. Artigo de Sean O’Dowd.