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A escola não é de todos

Estamos à porta de mais um ano letivo e milhares de jovens celebram a entrada no ensino superior. Infelizmente, a festa não é para todos.

O sistema de ensino em Portugal continua a excluir todos os que nele não se reveem, em particular os mais pobres, para quem não há qualquer estímulo ou alternativa à falta de apoios na educação. A escola em Portugal é uma ferramenta de formatação de cérebros, uma encubadora de universitários que não demonstra preocupação em formar cidadãos informados ou em criar espaços multiculturais onde qualquer estudante se sinta confortável para aprender.

Não aprendemos todos de forma igual, mas a escola de Crato exige que assim seja. A meta fica a meio e os resultados estão à vista: as médias nacionais em disciplinas como Matemática e Português podem ter sido positivas, mas estão longe de ser satisfatórias. Isto é consequência da teimosia dos sucessivos modelos educativos que esperam que os alunos - tão diferentes na sua forma de estar, pensar e analisar o mundo - sejam todos capazes de aprender simultaneamente, sentados durante 90 minutos, com programas pouco ou nada adaptados à realidade dos jovens de grande parte do país. Temos uma escola criada para as elites, capazes de suportar as lacunas existentes no sistema de ensino.

A escola deveria ser capaz de fornecer a todos os jovens as ferramentas necessárias para que todos tenham as mesmas oportunidades na sociedade. Pelo contrário, o que encontramos é uma escola que exclui quem financeiramente, culturalmente, sexualmente ou intelectualmente se sente à margem do que é considerado “a norma” dentro das instituições.

Isto revê-se também no acesso ao ensino superior. As universidades continuam a estar reservadas a uma elite standarizada e quem sofre com isso são as classes marginalizadas. A festa não é para todos porque os convites nem chegam a ser igualmente distribuídos. Há uma classe de estudantes que, à partida, acredita não ter lugar no ensino superior. As propinas são uma barreira enorme à entrada de muitos estudantes (tão grande que, em muitos casos, mesmo quem entra, acaba por ter de abandonar o ensino superior por falta de meios financeiros), mas não é a única.

A escola tem de sofrer uma remodelação para se tornar mais inclusiva. O acesso ao ensino superior é importante mas não deve ser um fim em si mesmo. Primeiramente, porque torna a escola obsoleta para quem não o pretende (e a sociedade terá de aprender a aceitar essa opção como natural – vivemos num mundo que avalia os jovens pelo número de diplomas pendurados na parede) e, para além disso, porque tem de ser capaz de criar as mesmas oportunidades para estudantes com biografias muito distintas.

Se me permitem a expressão já tão usada, a educação – do nível básico ao superior - é um direito e não um privilégio. Tem de ser – realmente e não apenas idealmente falando – acessível a todos os estudantes. Esse combate é importante ao nível do ensino superior, mas deve ser iniciado nas escolas básicas e secundárias, onde têm início todo o tipo de exclusões sociais e formatações ideológicas.

Daqui a poucos dias terá início um novo ano letivo. Infelizmente, ainda não incluirá todos os que da escola deveriam fazer parte, mas a Esquerda continuará a luta por uma escola mais inclusiva, como a democracia o exige.

Sobre o/a autor(a)

Estudante do Ensino Superior. Membro da Coordenadora Nacional de Estudantes do Bloco de Esquerda.
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