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Nem tudo o que luz é oiro, nem tudo o que balança cai

A banca nunca teria sido o que é se alguma vez alguém a tivesse obrigado a parar. As regras bancárias são regras de gestão do caos, feitas pela própria banca para melhor se desregular.

Dantes, havia aqueles que eram os proprietários do pedaço. Sólidos e intransigentes. Lambiam o ditador e o ditador, embora mais contido, lambia-os a eles, escutava-os, ia-lhes fazendo a vontade. Como um pai austero que ama os filhos legítimos.

Desde sempre temos tido uma burguesia muito cara.

A meia dúzia dos de antes, a que acresce a outra meia dúzia que enriqueceu entretanto, fruto de jogadas e jogatinas, custa-nos os olhos da cara.

Há pouco tempo, no auge da rebaldaria bancária, banqueiros e afins estouravam de gozo alarve perante os lucros. Todos. Os bem-nascidos e os outros que nem por isso. Arrogantes e de paleio fácil, entravam-nos casa adentro assessorados por comentadores de espinha lânguida, que mostravam gráficos e dançavam o samba de uma nota só. O samba bancário.

Agora a realidade da banca zomba dos comentadores. Era tudo tão sólido, tão solvente. Um edifício indestrutível. A realidade sempre esteve lá, olá se esteve. No baile do sistema. Ninguém a convidou para dançar e ela por lá ficou, esquecida e desamparada. Demasiado feia para quem queria só a música e a festança do tilintar bancário e banqueiro.

A banca sem freio nem medida. Banca lumpen. A banca a estrangular o pequeníssimo incumpridor. A banca ajoelhada perante os donos. Afeiçoou-se-lhes.

Os banqueiros, financeiros e quejandos nunca tiveram inquietações éticas. São amorais por natureza. Há ali um fundo psicótico que singrou. Não conhecem limites, porque nunca ninguém os limitou.

Quando o sistema deu de si ficámos todos de boca aberta. Então e a regulação? Então e o Banco de Portugal? Esquecíamo-nos desta verdade elementar: A banca nunca teria sido o que é se alguma vez alguém a tivesse obrigado a parar. As regras bancárias são regras de gestão do caos, feitas pela própria banca para melhor se desregular.

Os banqueiros vêm sempre, sonsos, atestar a solvabilidade do seu banco. Voz mansa, sem alarme, sem estrídulo, cantam muitas canções do bandido a países inteiros. Salgado foi talvez o melhor Tony Carreira da banca. Um romântico da finança mais finaça da banca portuguesa. Um esmalte classista vislumbrava-se na pose distante. E distante está agora. Quer dizer, a criatura anda por perto. Mas está na dele, longe do olhar, sem um único carro penhorável, sem uma casita, uma cabana que seja, com inscrição matricial e registo predial.

 

Chegou, pois, a vez do BES ou do GES, ou do raio que os parta, nos bater à porta. Com a sua arquitectura labiríntica quase indecifrável, apresenta-se-nos agora na sua bipolaridade plena. O banco bom, a voar sorridente com borboletas no bucho e o banco mau, encalacrado, a escavar como um furão.

Os comentadores sufocam-se de espanto.

Um espanto e uma mágoa retroactivas. Antes que o façamos, eles próprios, com a maior lata, atordoam-se por nós. Magoadíssimos, claro. Ofendidos também em nosso nome.

Semanas antes, o brilho de pechisbeque do BES encandeava. Salgado tinha uma postura aristocrática acima de qualquer suspeita. Ninguém viu, ninguém quis ver, ninguém quis saber. E mesmo quando o fim era uma evidência, mesmo quando os sinos tocaram a rebate anunciando o incêndio, mesmo aí, ainda Salgado foi deixado à vara larga e fez e desfez o que lhe apeteceu e melhor lhe pareceu consentâneo com o salvar a pele.

Pretendem agora trespassar-nos o Inferno como um comerciante falido trespassa a loja. Querem, como sempre, impingir-nos os danos, transferindo para nós o pagamento dos calotes. Paguem!

Celebraram um contrato de prestação de serviços com o diabo. Até o demónio exploram. Trabalha o dia todo.

Andam de novo a rondar o bolso do pessoal. A moinar. O país prepara-se para o golpe. País morno.

É no morno que a doença prospera.

Sobre o/a autor(a)

Advogada, dirigente do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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