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A tradição britânica que Thatcher não conseguiu destruir

Pride (Orgulho) é um filme sobre as lutas dos sindicatos e políticas LGBT e parece destinado a ser um enorme êxito mainstream em vez de um clássico filme de culto. Por Owen Jones, The Guardian
O filme consegue transmitir o que é a solidariedade a um público que foi ensinado a odiá-la. Foto de divulgação.
O filme consegue transmitir o que é a solidariedade a um público que foi ensinado a odiá-la. Foto de divulgação.

“Tradições” é uma palavra de marcada conotação conservadora, frequentemente usada para justificar injustiças com o argumento de que elas persistem há séculos. Mas a Grã-Bretanha tem outras tradições, que são muitas vezes vilipendiadas ou ignoradas, de rebelião contra o status quo, em vez da sua justificação. Embora muitos dos nossos líderes preferissem que acreditássemos o contrário, o progresso não é dado de mão beijada, num gesto magnânimo dos poderosos, generosamente cedendo, por exemplo, às mulheres o voto e aos trabalhadores alguns direitos básicos. A visão mainstream da história reconhece as lutas contra as ameaças externas, mas o nosso passado é igualmente uma história de britânicos a lutar contra britânicos numa batalha por direitos em detrimento do acesso ao poder.

Algumas destas tradições são captadas por um poderoso filme em estreia, Pride (Orgulho)1. É um filme sobre as lutas dos sindicatos e políticas LGBT e, contudo, parece destinado a ser um enorme êxito mainstream em vez de um clássico filme de culto. Pride centra-se nos esforços de ativistas lésbicas e gays para criar solidariedade com a greve dos mineiros de 1984-85. Para ambos, homossexuais e mineiros, este foi um tempo de sofrimento e luta. A crise da SIDA estava a avolumar-se; mais de metade da população acreditava que a homossexualidade é “sempre errada”, chegando aos 64% em 1987 quando apenas 11% optavam por “não tem nada de errado” e mais para o fim da década era adotada legislação homofóbica, como a Secção 28.

A base da solidariedade é isto: ter-se interesses comuns e um inimigo comum que eclipsa as diferenças, ficando-se mais forte na união e no uso da força coletiva. 

Os mineiros, por seu lado, estavam a ser agredidos por um governo autoritário que decretava que eles eram “ o inimigo interno” e enfrentavam a brutalidade nos piquetes de greve. Ambos eram perseguidos pela polícia, achincalhados pelos media e atacados pelo governo de Margaret Thatcher. Em face do preconceito e da suspeição, claro que ter uma causa comum não era fácil.

Mike Jackson, cofundador de Lésbicas e Gays Apoiam os Mineiros, em que o filme se centra, diz-me que este episódio “foi apagado da história por omissão e negligência”. É um travesti (sic) porque esta parte da história revela o verdadeiro sentido da solidariedade, capturado pelo slogan sindical “uma ofensa a um é uma ofensa a todos.” A base da solidariedade é isto: ter-se interesses comuns e um inimigo comum que eclipsa as diferenças, ficando-se mais forte na união e no uso da força coletiva. Nas palavras de Jackson: “A coisa que a classe dominante não quer mesmo é a solidariedade; eles não querem que juntemos dois mais dois”.

Uma reação cínica seria lembrar que os mineiros foram vencidos por muita solidariedade que tivessem atraído. O movimento sindical ficou desmoralizado; praticamente todas as minas fecharam tal como previra o líder mineiro Arthur Scargill e muitas das velhas comunidades mineiras nunca recuperaram e, até hoje, não têm segurança de emprego. Mas, por vezes, os mineiros estiveram muito mais perto da vitória do que se pensa. E, tal como Pride tão comoventemente demonstra e embora na altura não tenha sido suficientemente reconhecido, este episódio acabou por ser um passo em frente decisivo nos direitos de gays e lésbicas.

Não tenho vergonha em admitir que chorei com este belo filme, mas só depois percebi porquê. O filme consegue transmitir o que é a solidariedade a um público que foi ensinado a odiá-la. O Thatcherismo foi sempre acerca da quebra de laços e a favor do egoísmo, ou do individualismo, da crença de que só se pode melhorar a nossa condição através do esforço individual e não da união com os outros. Essa solidariedade não foi totalmente expurgada da psique nacional apesar dos esforços aturados do Thatcherismo. Neste fim de semana, centenas de pessoas manifestaram-se numa marcha de Jarrow até Londres em defesa do Serviço Nacional de Saúde. Em 2012 os eletricistas britânicos fizeram greves e ocupações contra a tentativa da multinacional Balfour Beatty de cortar nos seus direitos laborais e ganharam. Ao ocupar empresas que fugiam aos impostos, a UKUncut forçou um debate nacional sobre o tema. A solidariedade está viva e recomenda-se.

“A mudança a sério vem sempre de baixo para cima,” diz Jackson. “A mudança nunca veio de cima para baixo, ela parte de gente vulgar, não dos chamados políticos ou dos líderes.” Por entre os risos e o choro ocasional que em breve tocará o público, espero que Pride relembre às novas gerações esta verdade eterna. Os poderosos devem temê-la.

* Owen Jones é jornalista. O artigo foi publicado no The Guardian

Tradução de Maria Helena Loureiro

1 Com realização de Matthew Warchus, o filme tem estreia prevista em Portugal para 23 de outubro deste ano. Pride recebeu a Queer Palm (Palma Gay) no Festival de Cannes de 2014.

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