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Solidariedade precisa-se!

A solidariedade com as lutas dos trabalhadores é um dos pontos mais fracos na resistência à retirada de direitos sociais e políticos.

Esta asserção é assente em premissas validadas ao longo dos anos nas práticas sindicais concretas. Face à necessidade, são poucos os casos de solidariedade ativa, envolvimento social e procura de alianças que reforcem a capacidade de enfrentamento. Quando acontecem, são essencialmente ações de representação de dirigentes e ativistas sindicais muitas vezes em reação a despedimentos ou perseguições patronais a ativistas.

A solidariedade, enquanto componente essencial do planeamento [quando ele existe] de uma luta, invulgarmente é equacionada; enquanto abertura de “frente de batalha”, enquanto juntar forças ou enquanto ação mediática a solidariedade é, normalmente, o lado menor!

E sabe a pouco quando a solidariedade dos trabalhadores da EDP para com os subcontratados sobre-explorados do call-center tem que ser “arrancada a ferros” inclusive nas estruturas sindicais e na CT. A solidariedade é também a luta contra o corporativismo sindical e terá que ser também a mensagem de união entre efetivos e precários entre ativistas e a massa dos trabalhadores.

Chama-se este tema para duas lutas que têm marcado presença, carteiros e enfermeiros, e para duas atitudes que merecem referência:

1. O processo de privatização dos CTT e a sua concretização quase destruiu o serviço público de correio e impôs muito mais duras jornadas de trabalho aos carteiros. Ao interesse de classe imediato, o dos carteiros com sobre-esforço e esgotamento físico junta-se o interesse de quem precisa de receber o correio a tempo de pagamentos, idas a consultas, presenças em tribunais…

Havia que agir antes que a culpa do mau serviço descarregasse sobre os trabalhadores e antes que uma greve fosse vista como mais uma reivindicação de privilegiados preguiçosos. Havia que agir para “transformar” descontentamento popular em movimento positivo, para percecionar publicamente as consequências da privatização do serviço público de correio e colocar exigências de melhorias deste.

Um grupo de cidadãos articulou-se com os delegados sindicais e membros da sub-CT de Santarém e lançaram uma petição pública, antes da greve, para exigir o debate do assunto na Assembleia Municipal. Rapidamente o nº de assinaturas foi alcançado merecendo destaque a recolha em cafés. O tema teve repercussão na imprensa local, a Assembleia exigiu, por unanimidade, a melhoria do serviço público, o aumento do nº de carteiros e uma reunião à Administração.

A greve realizou-se posteriormente com excelente adesão e mediatização.

2. Também os enfermeiros têm grande redução de quadros, consequência das políticas que todos sabem. Também aqui era importante dar um sinal solidário, aliançar interesses sociais e políticos da população com os enfermeiros do Hospital de Santarém. A luta desta classe profissional é do maior interesse para a população e esta tinha que ser alertada para a necessidade de ser solidária.

Em plenas férias de verão, foi lançado um manifesto público de apoio contendo as reivindicações da classe e a exigência de um melhor serviço público de saúde. Esse manifesto foi dirigido aos ativistas sociais. 60 pessoas, dirigentes desportivos, culturais, de movimentos de cidadania, associações de pais, articulistas da imprensa local, militares de Abril, escritores, fotógrafos (…) tomaram pública a sua solidariedade e deram nota pública disso mesmo.

No Hospital, aqueles que cuidam de nós nos momentos mais difíceis viram que também nós podemos “cuidar deles”.

Estes pequenos dois exemplos, por certo outros haverá pelo país, transmitem a mensagem de que a solidariedade tem que ser sempre condição da luta.

A solidariedade é fundamental para a evolução da consciência social coletiva, para a consciência de si para si dos trabalhadores e para uma resistência com alguns fatores de ofensiva.

A luta destes trabalhadores conseguiu alguns avanços positivos; podem não ser, e não serão, todos os que se pretendem – mas avançar não é recuar.

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Sindicato dos Trabalhadores da Energia e Águas de Portugal, SIEAP.
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