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“Sem um ensino de qualidade a cultura está condenada à mediocridade”

Em entrevista ao esquerda.net, Ângelo Cid Neto, bailarino de dança contemporânea, critica a desvalorização a que o atual governo votou a cultura chegando ao ponto de nem sequer ter na sua orgânica um ministro responsável por esta área.
Na entrevista ao esquerda.net, Ângelo Cid Neto repudia ainda a forma como os professores têm sido tratados, afirmando que “a estratégia de degradação do ensino terá custos muito elevados para o futuro do país.”

Ângelo Cid Neto, um jovem de 26 anos, repudia ainda a forma como os professores têm sido tratados, afirmando que “a estratégia de degradação do ensino terá custos muito elevados para o futuro do país.”

És muito novo mas tens já um percurso académico e profissional rico e diversificado. És licenciado em Bioquímica, já deste aulas de Física e Química numa escola profissional e no próximo ano terminas o curso de Dança Contemporânea na Escola Superior de Dança. Significa que abdicaste da tua juventude para construir uma carreira profissional?

De maneira nenhuma. As coisas foram acontecendo naturalmente. Implicam esforço e algumas renúncias, mas o meu dia a dia é igual ao dos outros jovens da minha idade. Tenho cuidados com a alimentação e tento levar uma vida saudável. Não tenho uma vida espartana e isso deixa-me feliz.

Abandonaste o ensino para te dedicares à dança. Foi uma opção refletida ou sentiste necessidade de te pôr em causa e correr riscos uma vez que não é fácil viver da dança em Portugal?

Devo dizer que não sou dado a grandes planificações. Sempre gostei de dança estava a dar aulas há 3 anos mas já dançava na Amálgama Companhia de Dança. Entretanto conheci a Paula Pinto que foi bailarina no Ballet Gulbenkian durante 10 anos e que tem um projeto chamado Compota. Ela convidou-me, eu deixei o ensino e sou profissional desde 2012.

Foi uma decisão arriscada?

Claro que foi. A dança é pouco divulgada em Portugal e por vezes chega mesmo a ser desrespeitada. O trabalho é escasso não há apoios e subsistem alguns preconceitos que eu julgava impensáveis. Mas o provincianismo ainda faz estragos em Portugal.

Podes ser mais concreto?

Há muita gente que acha que a dança não é uma profissão, apenas um hobby e que os bailarinos são pessoas estranhas porque as suas rotinas de vida e trabalho são diferentes da maioria. Este tipo de pensamento anacrónico por estranho que possa parecer ainda existe e nós (bailarinos) sentimos isso. Houve alguém que disse que a minha opção era bizarra porque estava a trocar o certo pelo incerto, ou seja, o ensino pela dança. Mas há situações ainda piores se tivermos em linha de conta que há pais que não permitem que os filhos abracem esta profissão por se sentirem envergonhados.

Porquê?

A dança é um jogo cénico onde o corpo assume o papel primordial. É com os movimentos corporais que comunicamos com o público. E muita gente não entende esta linguagem onde a sensualidade e o erotismo estão muitas vezes presentes.

Os teus pais aceitaram a tua opção?

Aceitaram porque perceberam que não era um capricho. Eu não queria voltar a depender deles pelo que a preservação da minha independência económica foi condição essencial para dar este passo.

E tens conseguido manter essa independência?

Com muito trabalho e alguns sacrifícios sou economicamente independente.

Chamaram-te bizarro por teres abandonado o ensino. Mas hoje tudo é incerto e os professores vivem também com o fantasma do desemprego. Pensaste nisso quando fizeste esta opção?

Os professores têm sido muito mal tratados pelo governo e estas políticas de ensino estão a criar a desordem pedagógica nas escolas. E eu senti isso quando dei aulas. O governo tem vindo a estigmatizar os professores, lançando a ideia de que estes trabalham pouco e estão mal preparados. Sob a capa da racionalização de recursos está a dispensar milhares de professores e a sobrecarregar os que ficam. E eu pergunto: pode um professor dedicar-se ao ensino com centenas de alunos? Pode uma turma funcionar com 30 ou mais alunos?

Eu saí acima de tudo porque queria dedicar-me totalmente à dança. E não era fácil conciliar as duas atividades.

Mas sentiste o desgaste de que muitos professores se queixam hoje?

Eu dei aulas numa escola profissional e apercebi-me que há muitas situações erradas que podem hipotecar o futuro do país se não assumirmos que a educação é uma trave-mestra do desenvolvimento.

Este governo quer destruir o ensino público?

Está a transformá-lo de acordo com critérios no mínimo discutíveis. As escolas não podem ser depósitos de alunos e quem tem a missão de ensinar tem que estar motivado para exercer a sua função. A instabilidade que atravessa o setor está a minar sua qualidade. E isso é muito perigoso. Os professores não são os párias da sociedade.

Os professores são importantes para despertar os alunos para a cultura?

Conjuntamente com a família são essenciais para estimular a curiosidade intelectual dos jovens. Se a escola não tiver essa capacidade muitas pessoas passarão pela vida sem qualquer interesse em ler um livro, ir ao teatro ou assistir a um espetáculo de dança. Pessoalmente descobri escritores ou interessei-me pelo teatro porque tive professores que me chamaram a atenção para determinadas realidades que eu depois quis aprofundar. Não tenho dúvidas que sem um ensino de qualidade a cultura está condenada à mediocridade.

Devo aliás dizer que no âmbito da minha atividade, desenvolvo com outros colegas algum trabalho com escolas e os resultados são animadores apesar dos problemas de que já falei. Os artistas não devem viver fechados sobre si próprios mas em permanente ligação com a sociedade. Esta é uma ponte que não podemos deixar cair.

Em Portugal, muitos jovens da tua idade estão a abandonar o país porque não conseguem arranjar trabalho. Já pensaste também em emigrar?

Estive recentemente em Paris e também na Bienal de Veneza onde fiz uma residência artística com uma apresentação final intitulada College Dance sob orientação do coreógrafo David Zambrano. Sei que no estrangeiro há mais oportunidades de trabalho e a dança é vista de maneira diferente. Há também mais apoios para o desenvolvimento de projetos de natureza cultural.

Neste momento, não excluo nada. Posso ficar ou partir. Tudo depende da evolução do país.

Sentes que no estrangeiro há mais interesse pela cultura?

Sim. E ao dizer isto não sinto que corra o risco de cair na velha tentação de dizer que lá fora é tudo melhor. Mas tenho constatado que as pessoas demonstram mais interesse pela cultura do que em Portugal. Nesse aspeto julgo que não evoluímos tanto quanto seria desejável. Há mais respeito pelos artistas e o seu trabalho é visto por mais pessoas. Há também mais apoios (públicos e privados) e também um maior grau de consciência política que aqui ainda não temos para lutar por direitos relacionados com o trabalho intermitente. Com aconteceu há pouco tempo em França.

Por outro lado, aqui é muito difícil conseguir um espaço para realizar um espetáculo. Já existem muitas estruturas espalhadas pelo país com ótimas condições mas estão subaproveitadas, sem programação porque quem as gere vive enredado numa teia burocrática que inviabiliza a sua utilização. Há uns tempos percorremos diversas cidades do país para apresentação de um trabalho do coreógrafo Tiago Guedes chamado Hoje. Tivemos uma recetividade muito interessante mas apercebemo-nos das dificuldades que se colocam à utilização dos espaços culturais que existem.

Há descoordenação entre as diversas estruturas do poder?

Presumo que seja mesmo por falta de coordenação entre as entidades que gerem esses espaços. A isto chama-se falta de estratégia o que nos remete para a ausência de uma política cultural descentralizada que urge fazer porque a oferta cultural não dever confinar-se ao litoral e a Lisboa e ao Porto. Além disso o subaproveitamento dos espaços já existentes tem custos de toda a ordem. As pessoas sentem-se descriminadas porque não têm acesso aos bens culturais que foram pagos com o dinheiro dos seus impostos. E nós, os artistas, ficamos com menos trabalho e impossibilitados de o apresentar fora dos grandes centros urbanos. Há locais em Portugal que nunca receberam um evento de dança, contemporânea ou clássica. Perante esta situação eu pergunto: como podem interessar-se pelo nosso trabalho?

A arte contemporânea não é entendida por muitos e por vezes chega mesmo a ser alvo de críticas jocosas. Sentes-te parte de uma elite?

É uma expressão artística que, ao contrário do que muitos dizem ou pensam, deixa um espaço de análise que, a meu ver, é muito democrático. Isto porque a realidade pode ser vista de vários prismas e o seu entendimento não tem de ser único.

Mas há sempre uma mensagem que se tenta passar ou não?

Uma ou mais. Esse é uma característica que acho extraordinária. Há múltiplas maneiras de ler uma determinada realidade. Num primeiro momento podem até parecer antagónicas mas acabam sempre por ter um denominador comum. Pessoalmente prezo muito a liberdade de criação mas também a da interpretação de quem vê.

O Fernando Pessoa tem sido alvo de muitos estudos nem sempre coincidentes. Esse é um das razões que levam a que tanta gente se tenha apaixonado pela sua obra.

A literatura tal como o teatro são outras paixões que não deixas arrefecer.

Falei no Pessoa mas não posso deixar de referir também o Saramago, o José Luís Peixoto ou o Al Berto. De gerações e estilos diferentes são homens que engrandecem a cultura e a língua portuguesas.

Em relação ao teatro estive com a Sara Chéu inserido num projeto de teatro infantil que decorreu em Setembro do ano passado no Teatro Rápido com a peça Octávio de Olhos Fixos que criámos em conjunto. Quero continuar ligado ao teatro e por isso vou fazer um mestrado em artes cénicas na Universidade Nova de Lisboa.

Para ti a cultura pode ser interdisciplinar?

Independentemente das especificidades a arte pode e deve conviver numa lógica comum e não em ilhas como se a música nada tivesse a ver o com o teatro e este com a dança, por exemplo. Temos exemplos fantásticos que uniram diversos tipos de expressões artísticas e que deram origem a grandes criações culturais.

Pode por isso haver um jogo de vasos comunicantes que na minha opinião contribuirá para abrir novos caminhos e assim fazer evoluir a cultura em geral.

Como é que te defines politicamente?

Felizmente nasci e cresci já em liberdade. Sou uma pessoa informada e estou atento à evolução do país.

Nunca deixei de votar embora não seja filiado em nenhum partido. Sou crítico das organizações políticas, mas tento sempre analisar a realidade de uma forma construtiva. Não faço nem embarco nos discursos antipolítica que considero antidemocráticos e que contribuíram, por exemplo para a subida da extrema-direita nas últimas eleições europeias.

O meu avô foi da oposição ao regime e por isso a política marcou sempre presença no seio da minha família.

Tenho consciência que a liberdade não é um dado adquirido e é nosso dever defendê-la sendo, por exemplo, mais exigentes com aqueles que elegemos para governar o país. Essa cultura de exigência de que falava o meu avô está hoje muito diluída abrindo assim caminho à prepotência e ao desrespeito pela vontade das pessoas.

Preocupa-te a situação que se vive em Portugal?

Bastante. O país está semi-paralisado à espera que algo aconteça. Os intervenientes políticos são os mesmos há décadas o que é deplorável não só porque a maioria deles já não tem a confiança dos portugueses nem um discurso inovador suscetível de mobilizar as pessoas para que consigamos sair desta situação.

A tua geração pode ter uma palavra a dizer.

Todos nós, independentemente da idade temos uma palavra a dizer. E a primeira será de rejeição em relação àqueles que estão no poder anos e anos desligados da realidade. Lamento por exemplo que se ande há tanto tempo a discutir o aumento do salário mínimo para 500 euros. Por acaso saberão o que é viver com 500 euros por mês? Ou não ter emprego?

O poder não pode ser o castelo de uns quantos que são servidos pela maioria. Não é este o meu entendimento da democracia.

A crise entrou-me também pela porta dentro para dificultar os meus dias. Mas o pior é andar por aí e ver cada vez mais gente na rua, já perdida de si própria e da vida.

É preciso vencer esta desmotivação, o sentimento de derrota que se sente a cada passo. Com uma nova atitude e outros protagonistas. Porque os atuais perderam toda a credibilidade.

Entrevista realizada por Pedro Ferreira, para esquerda.net

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