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Então o Hospital de Loures fica no Banco Mau?

Com a queda do BES ficamos a saber que um dos maiores Hospitais do País, o de Loures, foi gerido nos último anos por um grupo que é propriedade de uma Rio Forte em descalabro.

A cada hora que passa somam-se vozes contra o modelo de resolução do BES. Paul de Grauwe arrasou a propaganda do governo ao lembrar que os 4,4 mil milhões de euros injectados pelo Estado serão assumidos pelo Tesouro, ou seja, contam para o défice. Assim sendo, a defesa dos contribuintes passa pela necessidade de vender por esse valor um banco que na sexta-feira valia 674 milhões de euros em cotação bolsista. Pura ilusão. Segundo outras informações, no futuro cada euro a menos ficaria a cargo do sistema financeiro português, ou seja, dos 80 bancos que constituem o fundo de resolução. Ilusão pura. Para o desavisados fica o lembrete: o sistema financeiro português faliu. Dos seis maiores bancos (o verdadeiros donos do sistema financeiro, já agora) - CGD, BPI, Banif, BCP, Santander-Totta, BES - apenas um sobreviveu sem a ajuda de fundos públicos. Alguém acredita que o Banif, dependente que está da entrada de capital sujo da Guiné Equatorial, vai assumir perdas na ordem dos milhares de milhões de euros? Serão sempre os contribuintes a pagar.

Outra nebulosa que não se dissipa neste caso é a dos ativos do BES. Nomeadamente os que estavam albergados sob a asa da Rio Forte: a Herdade da Comporta (139 milhões de euros), os Hotéis Tivoli (14 unidades, 1 milhão de dormidas), Espírito Santo Saúde (18 clínicas, 2 hospitais), e a Espírito Santo Property (empreendimentos imobiliários). Ao ficar no Bad Bank, estes ativos servem como moeda liquidatária a ser entregue aos credores e investidores, ou até aos próprios acionistas (o que é pouco provável tendo em conta o rombo financeiros das outras aplicações). Ora, se a perda dos acionistas foi assim tão espetacular como pinta Paulo Portas por que não se subtrai estes ativos ao emaranhado mafioso das aplicações financeiras? Dito de outra forma, se o Estado português vai assumir um risco no empréstimo ao Novo Banco, por que não assumir uma expropriação de ativos que tem sede num offshore (Luxemburgo) ? Saber por que os credores da Rio Forte devem estar à frente dos contribuintes portugueses não é uma questão menor.

No caso da Espírito Santo Saúde tudo isto parece ainda mais grave. Com a queda do BES ficamos a saber que um dos maiores Hospitais do País, o de Loures, foi gerido nos último anos por um grupo que é propriedade de uma Rio Forte em descalabro. E para espanto, tudo indica que a ES Saúde ficara no Bad Bank, enquanto a sua administração vai recebendo gratuitamente ações do grupo. Paulo Macedo disse recentemente que em caso de venda a concessão do Hospital de Loures deve ser reavaliada, e em caso de falência do grupo responsável, não? Onde está a reavaliação? Ou antes, a auditoria? Fica tudo na mesma?

Artigo publicado no blogue Inflexão

Sobre o/a autor(a)

Sociólogo, dirigente do Bloco de Esquerda e ativista contra a precariedade.
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