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Shahd Wadi: “A limpeza étnica de Gaza é um massacre contra a humanidade”

Em entrevista ao esquerda.net, Shahd Wadi fala da vida em Gaza, lembra que há um cerco à Faixa desde 2007 e alerta que mesmo que os bombardeamentos cessem, a vida será “muito mais difícil do que já era antes”. A luso-palestiniana fala-nos também da campanha Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS), um movimento semelhante ao que existiu contra o apartheid na África do Sul.
“A sociedade civil em Gaza durante este ataque não pediu nem pão, nem farinha, nem almofadas, nem latas de sardinha, mas sim pediu o boicote, desinvestimento e sanções contra Israel”, realça Shahd Wadi em entrevista ao esquerda.net

Shahd Wadi é luso-palestiniana, nasceu no Egito filha de refugiados palestinianos e vive em Portugal há oito anos. Há quatro anos apresentou a primeira tese de mestrado feita em Portugal sobre Estudos Feministas, “Feminismos dos corpos ocupados: As mulheres palestinianas entre duas resistências”, na Universidade de Coimbra. É também uma ativista dos direitos humanos e do povo palestiniano e faz parte do Comité de Solidariedade com a Palestina.

nasceu e morreu durante estes ataques em Gaza”

Na entrevista, Shahd Wadi conta-nos em curtos exemplos o que é viver hoje em Gaza. “Hoje abri o computador e vi que uma amiga minha em Gaza publicou a fotografia da família dela, toda morta. O tio, a mulher, os filhos e os netos...” diz-nos Shahd sublinhando-nos que um dos netos dessa família tinha 24 dias, “nasceu e morreu durante estes ataques em Gaza”. E, depois de morrer, a criança teve de ser colocada no “frigorífico dos gelados”, porque “até os hospitais estão a ser massacrados e “não há espaço nem para os mortos”.

Respondendo à propaganda israelita, Shahd salienta que “nem o tio, nem a mulher, nem os filhos são do Hamas”, nem eram “escudos humanos”, eram simplesmente refugiados palestinianos como 80% da população de Gaza”.

Shahd recorda que nesta campanha de agressão israelita já morreram 1.900 pessoas, quase 10.000 ficaram feridas “em 28 dias, menos de um mês”, sublinha que “as escolas das Nações Unidas foram quase todas destruídas”, que “os hospitais foram destruídos e até bombardearam cemitérios” e frisa que em Gaza “há uma limpeza étnica, há um massacre, não só contra Gaza, mas um massacre contra a humanidade inteira”.

Gaza é uma prisão ao ar livre”

Questionada sobre o que a cessação dos bombardeamentos alterará na vida das pessoas em Gaza, Shahd afirma: “A vidas pessoas em Gaza vai ser pior do que estava antes deste ataque”. A luso-palestiniana lembra que “há um cerco a Gaza desde 2007 e este cerco também causa a morte de pessoas”, salienta que os “bombardeamentos nunca pararam” e que as pessoas “morrem por falta de medicamentos, porque não podem sair de Gaza, nem podem ter acesso à alimentação” que pretendem.

“Gaza é uma prisão ao ar livre, de muitas pessoas que estão num espaço muito pequeno. 360 quilómetros quadrados onde estão quase dois milhões de pessoas num espaço fechado”, afirma Shahd, sublinhando que a vida vai ser pior e exemplificando que “até a central de eletricidade foi destruída e precisa de um ano para ser reconstruída”.

Boicote, Desinvestimento e Sanções

A ativista palestiniana falou-nos também da campanha global Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) “que começou pela sociedade civil palestiniana em 2005 para pressionar Israel a cumprir a lei internacional”.

Shahd realça que é uma campanha “parecida com a que derrotou o regime do apartheid na África do Sul” e aponta que o objetivo é pressionar instituições, empresas e organizações israelitas e internacionais, “que participam de uma forma direta ou indireta nas políticas de ocupação” para “acabar com a ocupação, acabar com a colonização dos territórios palestinianos e desmantelar o muro”, por “direitos iguais para os cidadãos árabes palestinianos também em Israel” e pelo “direito de regresso dos refugiados palestinianos”.

A ação da campanha é o boicote de empresas e produtos israelitas e também o boicote cultural e académico, “os músicos não fazerem concertos lá, os académicos não participarem em congressos em Israel, porque também os palestinianos nunca podem vir cá participar em congressos”, refere-nos Shahd que destaca: “Como diz o historiador israelita Ilan Pappe, que apoia o movimento BDS, a academia e os média israelitas também participaram neste massacre contra Gaza”.

Shahd Wadi sublinha a concluir: “A sociedade civil em Gaza durante este ataque não pediu nem pão, nem farinha, nem almofadas, nem latas de sardinha, mas sim pediu o boicote, desinvestimento e sanções contra Israel. Foi isto que pediu à comunidade internacional”.

ESQUERDA.NET | Entrevista Shahd Wadi sobre Gaza

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