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Danos Colaterais

De Gaza ao Banco Espírito Santo encontramos um paralelo: os crimes, as patetices e a ambição desmedida mascaradas e maquilhadas de danos colaterais.

O mundo é, cada vez mais, de objetivos fortes. Os trilhos são grosseiramente delineados, esquecendo que é no seu decurso que ganham cor, que se reinventam, que se descobrem destinos antes inimagináveis.

O objetivo cego leva a um obliterar da preocupação: não mais importa o que pisamos mas somente a direção dos passos que damos.

Torna-se vocabulário leviano o dano colateral. Torna-se insignificante o que significa, torna-se invisível o que deveria parecer, torna-se mudo o grito necessário. Torna-se a justificação plausível para crimes, a desculpa para o indesculpável.

De Gaza ao Banco Espírito Santo encontramos um paralelo: os crimes, as patetices e a ambição desmedida mascaradas e maquilhadas de danos colaterais.

Em Gaza, os bombardeamentos sangrantes repetem-se, sob a inércia de uma comunidade internacional demasiado hipócrita, que se apressa apenas a castigar os povos menos endinheirados.

Sob a desculpa da busca desenfreada por milhentos túneis e um punhado de perigosos terroristas (esquecendo que os mais perigosos se escondem hoje nas secretárias de Telavive), amontoam-se corpos de homens, mulheres e crianças, cujo único crime foi ousar viver.

Amontoa-se desespero, famílias destroçadas, futuros hipotecados, enquanto prossegue o extermínio de um povo, ironicamente por aqueles que mais sensíveis deveriam ser à tentativa de aniquilação de um povo.

Danos colaterais escrevem os comunicados tingidos de sangue, justificando a perda de vidas insignificantes, quando o que se trata é a aniquilação de um terrorismo que ninguém vê nas lágrimas de pais palestinianos carregando as suas crianças mortas.

Colateral é o ódio gerado nos corações desta e das gerações vindouras de Palestinianos: em desespero se atiram paus inofensivos, plenos de raiva e dor de quem viu assassinada a sua família, justificando mais um punhado de campanhas israelitas assassinas. Meros danos, quando o que interessa é a ambição desmedida de uma nação, e o enriquecimento de todas as outras que armam os mercenários outrora apelidados de soldados.

No Espírito Santo, percebemos que o maior grupo financeiro privado português não mais era que um edifício sem alicerces, de imponentes paredes, que nada tinham no seu interior. O objetivo era o enriquecimento de alguns, os rostos visíveis, sobranceiros em tantas alturas e os rostos invisíveis, os que beneficiavam ocultamente e que agora correm em seu socorro.

Em passos de elefante, agora de refinada elegância, não importou quem se pisou; importava sim o lucro, o dinheiro ilícito tornado licito pela magia do sistema bancário, o percurso galopante, patrocinado por autoridades de fiscalização cegas até serem os únicos a não ver.

Colateral é o prejuízo para cada um dos portugueses; o lucro esse nunca o seria. O desastre evidente é o dano colateral para os portugueses, acusados de gastar para além das suas possibilidades, apelidados de irresponsáveis e mandriões, por aqueles a quem se vai descobrindo a face. O naufrágio hoje do BES, é a sequela impossível e prometida como irrepetível do BPN, como se adivinha negra a navegação de um BPI de prejuízos crescentes e de um BANIF mantido à tona por capitais obscuros.

Colateral é certamente o sentimento de impunidade; criamos hoje uma geração que vê a fraude descarada ser desculpada, que vê o crime ser punido mediante o nome do réu, que observa um círculo de poder e interesse, fechado sobre si próprio na divisão da riqueza, financiada pelo capital ilimitado que é o trabalho de todos nós. Que vê uma fiscalização implacável quanto o assunto são os tostões que o comum cidadão deve, e a desculpa é a corriqueira moda quando o cerne são os milhões de alguns.

A precariedade e os seus estilhaços na vida de todos, são apenas mais um dos insignificantes danos colaterais quando um dia se sonhou com fortunas desmedidas.

Aumentar a competitividade, diminuir o desemprego, melhorar a produtividade, foram farsas proclamadas em tom pomposo para que se espalhasse a praga que consome a vida e a esperança de todos os que aspiram a uma carreira, a uma perspetiva de futuro, a uma mera oportunidade.

A emigração, os salários insultuosos, os tiques de escravatura dos patrões, a ausência de oportunidades e a fragilidade de qualquer situação laboral, são os danos colaterais que poucos ou nenhuns pretendem remendar. No caminho para o financiamento de um capitalismo de necessidades cada vez maiores, deixaram de se dar passos, para se darem saltos, que num ápice destroem um punhado de direitos.

O dano colateral de hoje é o dia de amanhã. Aceitá-lo como aceitável hoje é torna-lo uma lei para amanhã. O genocídio de um povo tornar-se-á legal, a ganancia e ambição de banqueiros será um preço que pagaremos uma e outra vez e um trabalho digno não passará de uma recordação.

O dano colateral que hoje discutimos é a nossa própria vida, vendida ao desbarato, trocado por ninharias, roubada por capricho, empobrecida para que alguns enriqueçam. Amanhã teremos a nossa Gaza se insistirmos em esquecer que o importante não é a direção mas antes os passos que damos, e que erro ou crime algum são desculpados por algum suposto objetivo maior.

Sobre o/a autor(a)

Enfermeiro. Cabeça de lista do Bloco de Esquerda pelo círculo Europa nas eleições legislativas de 2019
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