You are here

Sim, tudo se paga ou um silêncio que é uma trovoada

Sim, vamos pagar o BES - e não vai ser pouco. Os negócios do banco de todos os regimes continuarão a obrigar à massiva transferência de rendimentos que empobrece as pessoas e o país.

Sim, vamos pagar o BES - e não vai ser pouco - para começar, quatro mil milhões de euros que vêm da troika e que significam um aumento ainda maior da já injusta e insuportável dívida pública. Os negócios do banco de todos os regimes, do Estado Novo aos negócios do CDS, passando pela modernização do PS de Sócrates, continuarão a obrigar à massiva transferência de rendimentos que, desde a “crise”, empobrece as pessoas e o país. Mais uma vez, a palavra de Passos vale muito pouco, ainda menos do que as ações do BES.

Mas o rodízio de palavras sobre palavras também não ajuda. António Costa, para alguns estrategas mediáticos o D. Sebastião da esquerda (em simetria ao “salvador” da direita, Rui Rio, ambos, ao que parece, pactuados), afunda-se para não dizer nada: que a dívida não é a questão, que o importante está a montante, a competitividade e as questões estruturais da economia portuguesa. Lamentável e revelador de uma enorme falta de coragem (ou vontade?) política: naquilo que dói, naquilo que importa, nenhum compromisso que é o mesmo que um compromisso com a Troika e com Merkel. É como dizer, perante o estrangulamento de um rio que não consegue desaguar, para esquecermos esse bloqueio olhando para a nascente…

Entendamo-nos: aquilo sobre o qual Costa se recusa a falar é a questão politicamente mais relevante da situação portuguesa. Significa que um governo que liderasse diria aos portugueses para esquecerem os seus projetos, os seus sonhos, por mais modestos, ou o seu desejo de futuro. Um dia, quando todos estivessem mortos, resolvidos os problemas imemoriais, talvez os lunáticos sobreviventes pudessem começar a respirar, se não fossem já cadáveres. Só a reestruturação da dívida permitirá ao país começar a resolver os seus atavismos (libertando investimento, criando emprego, redistribuindo riqueza) e ambicionar ao mínimo de justiça social.

O silêncio de António Costa é todo um programa.

PS: um abraço de solidariedade ao Elísio Estanque. Sei que ele não vai desistir de tentar mudar o PS – e respeito-o por isso.

Sobre o/a autor(a)

Sociólogo, professor universitário, Presidente da Associação Portuguesa de Sociologia. Dirigente do Bloco de Esquerda.
(...)