You are here

O essencial e o acessório

Era já do conhecimento público que Portugal é um país onde a desigualdade entre os mais ricos e os mais pobres é muito profunda, mas agora é o próprio Banco Central Europeu (BCE) que vem dizer que 1/4 da riqueza do país está na posse de apenas 1% da população.

É claro que este tipo de dados não é publicado pelo Instituto Nacional de Estatística desta forma tão crua e direta. Com uma tão grande discrepância entre os rendimentos dos cidadãos o que admira é que ainda haja quem apoie as políticas do governo.

Como se as más notícias não bastassem, Portugal é neste momento o país da Europa com a taxa de natalidade mais baixa, ao ponto de o número de nascimentos ser inferior ao dos óbitos.

Com a pompa e circunstância do costume foram apresentadas como propostas, umas quantas medidas governamentais, alegadamente destinadas a promover o aumento da natalidade. No seu conjunto pecam por falta de consistência, não passam de promessas vãs, como alias tem sido hábito do governo Passos Coelho/Paulo Portas. A propósito das propostas para o IRS, o governo propõe-se diminuir as deduções a uns contribuintes como contrapartida à redução de taxas a outros. Mais uma trapalhada.

Obrigados a emigrar, sem empregos ou com empregos precários e com salários de miséria, sem apoios sociais decentes como é possível esperar que os jovens casais pensem em ter filhos. É conhecida a situação de empresas que obrigam jovens mulheres, candidatas a empregos a comprometerem-se a não engravidar durante o período de vigência do contrato de trabalho. Para combater a baixa natalidade é necessária uma sensibilidade social que este governo já provou que não tem.

Na mesma lógica de restrições está a informação de que o ensino em Portugal perdeu mais de 100 mil alunos nos anos letivos de 2011 e 2014. É um recuo de décadas que custará muito caro ao futuro do nosso país. Com esta grave situação, aliada ao facto de milhares de jovens licenciados terem sido obrigados a emigrar em busca de trabalho, temos um avolumar de problemas entre mãos a curto prazo.

As ameaças de destruição de tudo o que é serviço público, viraram-se para a concretização de uma pretensão, já antes anunciada, a concessão/privatização dos STCP e do Metro do Porto. Como o estado pretende poupar nas indemnizações compensatórias, devidas pelo serviço público prestado, pode concluir-se que se seguem despedimentos, uma menor qualidade nos serviços, cortes nas carreiras e o consequente prejuízo para os utentes. O ciclo repete-se recorrentemente.

Os trabalhadores dos STCP e do Metro repudiaram a concessão/privatização, não só pelos prejuízos que acarreta para as suas carreiras, mas pelos enormes riscos para a continuação do serviço aos utentes como o conhecemos. Cabe-nos solidarizarmo-nos com eles, contra mais esta medida neo-liberal de entrega à iniciativa privada de serviços públicos.

A obsessão pelo lucro leva a que tudo, mesmo tudo seja mercantilizável. Tal filosofia política está a mudar de forma assustadora a sociedade. Para onde vamos?

Sobre o/a autor(a)

Reformado. Ativista do Bloco de Esquerda em Matosinhos. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
(...)