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Solidariedade com o Centro de Linguística da Universidade do Porto

O CLUP é a única unidade de investigação exclusivamente dedicada à Linguística no Norte de Portugal. No entanto, o Centro foi excluído da 2ª fase do processo de avaliação que permite a obtenção de financiamento plurianual por parte da FCT.

O Centro de Linguística da Universidade do Porto, fundado há cerca de 40 anos pelo emérito filólogo e autor Óscar Lopes, é a única unidade de investigação exclusivamente dedicada à Linguística no Norte de Portugal e um dos mais importantes centros na sua área de estudo na Península Ibérica.

Desde 2007, quando obteve, pela segunda vez consecutiva, a classificação de Muito Bom pela parte da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), este centro lançou e promoveu cerca de 204 publicações (nacionais e internacionais), organizou cerca de 70 eventos e acompanhou 12 doutoramentos na área da Linguística - além de um calendário de atividades muito rico, no qual se inclui cursos de verão, congressos internacionais e apoio aos estudantes de várias universidades portuguesas e estrangeiras.

A Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) e a European Science Foundation (ESF) têm um conjunto de critérios de avaliação que só têm cabimento nas ciências exatas e não nas ciências humanísticas, como é o caso da Linguística

O CLUP trabalha sobre várias línguas na produção de formulações teóricas e aplicações práticas no âmbito das diversas disciplinas da Linguística. O seu trabalho é visível em várias áreas inovadoras tais como a Linguística Computacional, a Tradução Automática e a Linguística Forense (que colabora estreitamente com a Polícia em perícias para análise de provas). O CLUP é também consultado por várias instituições nacionais e internacionais de Educação no que diz respeito ao ensino e aprendizagem das línguas, e emite pareceres técnicos para as mais diversas questões, como por exemplo, o processo de conceptualização e fundamentação teórica do mais recente Acordo Ortográfico para a Língua Portuguesa.

Após sugestão bem acolhida dos painéis de avaliação anteriores, o processo de internacionalização do CLUP foi feito de uma forma voluntariosa e proativa, e foi notoriamente melhorado nos últimos anos, como provam os vários relatórios produzidos pelo Centro. Embora a maior parte do seu trabalho seja relativo à língua portuguesa, o CLUP tem contactos internacionais importantíssimos, desde investigadores de centros europeus e americanos a cientistas de universidades na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

O CLUP possui e gere a melhor biblioteca de Linguística do Norte de Portugal e do Noroeste peninsular. Vários investigadores internacionais acorrem frequentemente ao seu acervo bibliográfico.

Apesar de todas estes atributos e atividades que deixam qualquer português orgulhoso de haver no seu país um instituto científico deste calibre, o CLUP foi excluído da 2ª fase do processo de avaliação que permite a obtenção de financiamento plurianual por parte da FCT.

A consequência a médio prazo da decisão da FCT será o encerramento do CLUP. Cerca de 70 estudantes e bolseiros (muitos não portugueses) ficarão sem nenhuma estrutura de apoio aos seus estudos e investigações. Este modelo de avaliação vai ter como consequência o encerramento de cerca de um terço das unidades de investigação do país

No processo para a atribuição de financiamento público aos centros de investigação em Portugal, a FCT contratou à European Science Foundation uma avaliação baseada num relatório pré-concebido e encomendou também à Elsevier um estudo de impacto bibliométrico. A FCT e a ESF têm um conjunto de critérios de avaliação que só têm cabimento nas ciências exatas e não nas ciências humanísticas, como é o caso da Linguística. Chega-se, por exemplo, a ter como critério, o número de patentes registadas pelos institutos de investigação. Estes métodos tornam, obviamente, invisíveis os resultados que o CLUP apresenta e faz com que as suas produções sejam contadas como zero na avaliação da FCT. Com relação à produção bibliométrica, é óbvio e legítimo que uma grande parte dos membros do CLUP não publique nos jornais e revistas hermeticamente consagrados para a contabilização do impacto dos resultados. A avaliação da FCT ignora a publicação de tudo o que não é feito em inglês e numa base de dados de publicações onde é preciso pagar para lá figurar algum artigo. A avaliação é assim completamente descontextualizada da realidade do CLUP que produz inevitavelmente a maioria dos seus trabalhos em português e em publicações específicas da sua área. Diga-se de passagem que a língua utilizada em todo este processo é o inglês, desprezando por completo a língua portuguesa (desde D. Dinis que toda a documentação oficial em Portugal país é obrigatoriamente redigida em português – mas o Governo, com a sua modernidade neoliberal, pensa de outro modo).

O CLUP não teme nenhuma avaliação, mas pretende, legitimamente, ser avaliado por critérios justos e por um painel que tenha pelo menos algum conhecimento da matéria que avalia. Anteriormente o painel era exclusivamente constituído por linguistas. Porém, agora são só 2 em 16 (uma pessoa da área da Semântica Formal que não é linguista de formação, e uma outra da Universidade de Zagreb, da área da Linguística Cognitiva, que é uma ínfima corrente da Linguística).

A consequência a médio prazo da decisão da FCT será o encerramento do CLUP. Cerca de 70 estudantes e bolseiros (muitos não portugueses) ficarão sem nenhuma estrutura de apoio aos seus estudos e investigações. Este modelo de avaliação vai ter como consequência o encerramento de cerca de um terço das unidades de investigação do país.

O Centro espera que haja abertura para uma reavaliação por parte da FCT. Pela parte da Reitoria da Universidade do Porto, o instituto tem tido bastante solidariedade nas suas reivindicações e a vice-reitora tem acompanhado a situação e exprimido o seu apoio. Corre neste momento na Internet uma petição de apoio à sobrevivência do CLUP com mais de 3500 assinaturas em vários países e continentes (endereço da petição: http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT74126).

Além desta iniciativa, foi enviada, há cerca de três semanas, uma carta dirigida ao presidente da FCT, Dr. João Seabra, com um pedido de audiência - entretanto não respondido. Da parte da FCT não há portanto nenhuma resposta direta ao exposto.

Refira-se que, no passado dia 24 de Julho, o Bloco de Esquerda promoveu uma audição pública sobre centros de investigação científica na Assembleia da República com a presença de investigadores de várias áreas que debateram o processo de avaliação promovido pela FCT, que tem sofrido uma forte contestação por parte da comunidade científica. No final da audição, Catarina Martins disse que a secretária de Estado da Ciência, Leonor Parreira, e a direção da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) não têm condições para se manter no cargo depois de a comunidade científica ter mostrado que a avaliação em curso aos centros de investigação não está a ser clara. Catarina Martins foi mesmo mais além e acusou o ministro Nuno Crato de não estar a perceber que se trata de um processo de avaliação que é feito “sem uma visita aos próprios centros” e “sem o conhecimento do contexto, dizendo que áreas científicas não se podem investigar em Portugal, nem por investigadores portugueses”. Para a deputada, “a avaliação não tem pés nem cabeça e é inaceitável. Por isso, ou [Nuno Crato] está disponível para voltar atrás com o processo, ou ficamos a saber que é o próprio ministro que tem de sair e de se afastar para que possa existir investigação científica em Portugal”.

Sobre o/a autor(a)

Linguista. Dirigente distrital do Porto do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
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