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Morte de trazer por casa

Há tempos foi morta a advogada que tratou de um divórcio. Dias antes, um tipo baleara a cunhada, a sogra e a filha. Microcosmos desvairados. O que é isto?

Num dia qualquer, a qualquer hora, em qualquer lugar, pode suceder. Tem cuidado.

A noite é um susto, a manhã um perigo, a tarde um alarme. Pode suceder. Tem cuidado.

Atrás da porta, dentro da casa, fora da casa, no trabalho, na rua, pode suceder. Tem cuidado.

Já passaram meses, às vezes anos. Pode voltar. Tem cuidado.

Quantas mulheres vivem assim.

Das que vivem assim, algumas são mortas. As que não são mortas morrem todos os dias. Insultos, pancadas, vexames. Mau viver. Um dia a dia peçonhento e desgraçado.

Intimidade com a morte, com a tortura, com a violência. Um inferno convivial.

Vidas inteirinhas naquilo. Esmaltadas de medo, ruindade e força bruta. Viver nas galés da vida. Galés domésticas.

O que é isto?

Tensão, agressão, dor, perdão, promessa, tensão, agressão, fermento de morte. O agressor é medroso. Tem pavor de perder o objecto da agressão. Os agressores são quase sempre carcereiros eficazes.

Amores jurados e perjurados, nuns casos. Noutros, desamores estabelecidos a cimentarem o ódio.

Um poder animal exercido sobre a outra parte, às vezes à frente de toda a gente, mesmo quando a porta se fecha e a intimidade cai desamparada a destroçar a vida.

Um poder que se executa na gritaria insultuosa e alarve ou no silêncio mais cruel em semeaduras de medo.

Um poder que executa. Ao tiro. À machadada. À pancada. Com facas a entrarem no corpo.

Porque é de poder que se trata. Um poder atávico vindo de lá de trás. Um poder ilegalíssimo porque contrário a todos os fundamentos da ordem jurídica e cidadã. Um poder desmedido porque exercido sem limites sobre mulheres, crianças, velhos e até sobre quem ajuda à saída daquele labirinto de injúria à vida.

Há tempos foi morta a advogada que tratou de um divórcio. Dias antes, um tipo baleara a cunhada, a sogra e a filha. Microcosmos desvairados.

O que é isto?

Quando as notícias surgem a comunidade abana a cabeça com desagrado e franze o sobrolho. Depois vai esquecendo até à próxima. Normalmente sabe-se que naquela casa já havia violência de sobra. Muitas vezes já denunciada. Outras sobejamente conhecida e consentida. Consentida por quem acha que não é nada que lhe diga respeito.

Calar a violência que se conhece, se vê, se ouve, se intui, é ser cúmplice da agressão mais sórdida que a vida a dois pode propiciar. Não se entende como é possível calar a bestialidade e conviver com ela. Como vizinho, como amigo, ou como colega. É assim, diz-se. Sempre assim foi. Coisas da vida.

A violência aceite e naturalizada é a pior de todas as violências.

Que nos lembremos que isto não são coisas da vida. São coisas da morte. Da morte súbita quando a mão matadora desfere o golpe ou o dedo decide o tiro, ou da morte aos bocadinhos quando a mão se solta na pancada e a boca desfere o insulto.

Sinalizar, denunciar, condenar.

Deixar andar é consentir! Calar é cumpliciar!

Sobre o/a autor(a)

Advogada, dirigente do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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