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Empurradas e cercadas: Basta!

As duas recentes e violentas intervenções da polícia em Setúbal são revoltantes. Até quando vamos permitir que a violência continue a abater-se sobre os debaixo?

Na quinta-feira passada o bairro da antiga fábrica Mecânica Setubalense, para os lados da Vila Maria, foi cercado por um forte contingente policial às primeiras horas do dia. As pessoas viram as suas pobres casas invadidas e foi-lhes dado um ultimato para as abandonarem. Em poucas horas foram expulsas e dispersas pelo país, lançadas à sua sorte. As suas vidas precárias arrasadas. Mulheres com as suas crianças clamavam em desespero pelo direito de irem recolher alguns pertences mais urgentes. Uma tinha salvo uma galinha da sua criação, que agarrava como uma naufraga segura uma boia: implorava por ir lá a sua casa buscar as outras duas galinhas essenciais para sobrevivência dos seus: não lho permitiram. Outra reclamava o direito de salvar uma peça de loiça da casa de banho que tanto lhe custara a ganhar: impossível. Outra tinha saído de casa às quatro da madrugada para ir trabalhar em limpezas para os lados do Seixal: informada de que o seu bairro estava cercado pela polícia fortemente armada chegou a meio da manhã e já não pôde entrar: só queria que a deixassem ir buscar um par de brincos mais valiosos antes que os escombros os fizessem perder para sempre: já não pôde.

O padre setubalense Constantino Alves, que desde há muito se tinha posto ao lado destes moradores, já veio a público denunciar esta violência, este revoltante espetáculo. Depois de lhes terem cortado a água e a luz houve várias diligências no sentido de tratar o caso com humanidade. O Bloco de Esquerda, na Assembleia Municipal de Setúbal e na Assembleia da República exigiu esclarecimentos sobre o que estava a acontecer a estas pessoas. O governo acabou por responder que até ao fim de Junho todas as quarenta famílias seriam realojadas em casas com condições. Naquela manhã de quinta-feira passada, 10 de Julho, a polícia e o governo mostraram a sua verdadeira face: terror sobre os mais fracos e desprotegidos.

Na noite do dia seguinte, de sexta para sábado passado, o pesadelo alastrou ao centro da cidade. Algumas dezenas de jovens e alguns pais e mães que passeavam com as suas crianças nas imediações de um bar do Bairro de Troino foram cercadas por uma brigada de intervenção rápida da polícia. Os donos do bar já teriam apresentado as suas licenças: o ambiente era absolutamente pacífico e de divertimento. Foram encostadas à parede, revistadas e agredidas, algumas levadas para a esquadra. Os gritos e choros misturavam-se com o gás pimenta lançado, sem demoverem os polícias. E as pessoas que lá estavam perguntam-se: será que esta violência gratuita vai ficar impune?

Num caso trata-se de pessoas abaixo do limiar da pobreza, imigrantes em grande parte, a quem foram retiradas violentamente as “quatro paredes e um teto”: numa cidade com centenas de casas desocupadas: num país com milhares de casas na posse dos bancos e fundos imobiliários que exploraram anos a fio os moradores que quando foram lançados no desemprego e não puderam pagá-las até ao fim foram despejados.

No segundo caso trata-se de jovens. Diariamente explorados em trabalhos precários, em universidades com propinas impagáveis, ou pura e simplesmente humilhados pelo desemprego, o governo há muito lhes deu ordem para emigrarem, saírem do país, irem enriquecer os países mais ricos deixando o nosso a sangrar.

E nós? Até quando vamos permitir que a violência continue a abater-se sobre os debaixo? Até quando a casta financeira que nos quer levar à pobreza geral se continuará a rir de nós?

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Professor
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