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Desigualdade racial: os estádios brancos do Brasil

Num país onde 56% dos habitantes se declara negro ou mulato, é difícil encontrar alguém que não seja branco nas bancadas. Por Alberto Sicília, de São Paulo, Principia Marsupia
Foto: Danilo Borges/Portal da Copa
“Faz a experiência. Aposto que podes contar mais negros no campo que nas bancadas”, dizia-me um amigo há nuns dias. Foto: Danilo Borges/Portal da Copa

Estamos numa antiga fábrica ao norte de São Paulo. Hoje joga a seleção e dezenas de famílias vieram ver o jogo por de um projetor.

Os cânticos de incentivo à equipa sucedem-se durante todo o jogo. Apenas duas circunstâncias os interrompem: quando se aproxima uma ocasião de golo, a harmonia nos coros degenera em pura gritaria de emoção. Quando a televisão foca os espetadores nas bancadas, o cântico também se apaga, mas desta vez para se transformar num triste murmúrio.

Para muitos brasileiros, observar as imagens das bancadas significa estar diante da desigualdade racial tão quotidiana nesta sociedade.

É que, para muitos brasileiros, observar as imagens das bancadas significa estar diante da desigualdade racial tão quotidiana nesta sociedade.

Num país onde 56% dos habitantes se declara negro ou mulato, é difícil encontrar alguém que não seja branco nas bancadas. Segundo uma sondagem realizada pela Folha de S. Paulo num dos jogos do Brasil, 86% dos espetadores tinha concluído estudos superiores. Entre a população geral, essa média mal chega aos 16%. ? “Faz a experiência. Aposto que podes contar mais negros no campo que nas bancadas”, dizia-me um amigo há nuns dias.

“Em sentido estrito, não se trata de discriminação racial. Seria discriminação racial se a FIFA não vendesse entradas aos negros e isso é o que a ocorrido. Mas a maioria dos negros são pobres e os bilhetes são demasiado caras. Mas, por que os negros são pobres? Porque existe uma terrível discriminação na sociedade brasileira?” (Carlos Ribeiro, sociólogo na Universidade Estatal de Rio de Janeiro).

Que as elites ocuparam as bancadas do Mundial ficou claro desde o jogo inaugural, o único que contou com a assistência de Dilma Rousseff. Depois do golo de Neymar, que punha o Brasil a ganhar, o estádio levantou-se para cantar “Ei Dilma vai tomar no cu”. Aquele cântico gerou um debate nacional que ocupou durante dias as colunas dos jornais. Muitos brasileiros consideraram-no um ataque da classe alta ao Partido dos Trabalhadores.

Segundo o discurso oficial, o Brasil é a nação da mistura, o país que superou as raças. Na realidade, e apesar dos avanços da última década, o Brasil foi o último país ocidental a abolir a escravatura, e a desigualdade económica corre paralela à desigualdade racial.

Termina o jogo. O Brasil ganhou nos penaltis. Nesta fábrica ao norte de São Paulo, as famílias abraçam-se. Compartilham as suas lágrimas de emoção com as do guarda-redes Júlio César, projetado na tela.

Publicado no Público.es

Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net

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