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A praga da humanidade

Há uns dias, o jornal britânico The Telegraph noticiava uma polémica no Twitter em torno de uma medida tomada por um condomínio de luxo em Londres: à porta do prédio, colocaram um “tapete” de picos para impedir que pessoas sem-abrigo durmam aí.

A polémica na rede social é um fait-divers virtual. O seu objeto é que nos deve causar estranheza, incredulidade e repulsa. Quem tirou a foto que circula na net afirma que aqueles picos, que fazem lembrar os sistemas para afugentar pombos, foram ali colocados para, de facto, tornar impossível a uma pessoa sem-abrigo dormir à porta do prédio. O The Telegraph ouviu pessoas, que moram na zona, contar que há umas semanas dormia ali um sem-abrigo.

Outras fotografias de medidas semelhantes, por exemplo, perto do supermercado Tesco em Regent Street, foram também partilhadas na rede social. O supermercado já veio dizer que os picos não servem para impedir pessoas de dormir ali, mas sim para evitar “comportamentos anti-sociais como fumar e beber, que podem ser intimidantes para os clientes”, segundo um porta-voz, citado pelo mesmo diário britânico.

Na Europa da austeridade, embora para alguns ainda seja a dos direitos humanos – como?!, limpam-se as ruas e os becos para não perturbar ou incomodar os humanos-clientes privilegiados que têm horror à sujidade, à pobreza, aos ratos, aos pombos e a essa praga, a da humanidade. Sim, são seres que padecem de si mesmos, estão doentes das suas vidinhas fúteis, adornadas com luxos, sacos de compras e sofrimento alheio.

Li também que esta medida infelizmente não é única ou original. E claro, medidas para afugentar pessoas sem-abrigo e pobres maltrapilhos dos centros da cidade ou zonas turísticas já são práticas comuns em muitos países desenvolvidos, incluindo Portugal, e são toleradas pelo silêncio e pelo encolher de ombros da piedade que não salva almas ou então pela indignação zapping esvaziada de sentido moral. Mas continuo a surpreender-me: uma ponte na China cheia de mini-pirâmides que impedem pessoas de lá dormir; um parque no Japão com bancos redondos, feitos de modo a que seja impossível dormir aí; a Hungria que criminalizou o dormir na rua, com multas e prisão (além disso, neste país também é crime retirar objetos do lixo); os Estados Unidos, onde há várias cidades e estados que têm regras cujo objetivo é levar as pessoas sem-abrigo para longe de parques e outros espaços públicos (em Palo Alto, Califórnia, foram mudados os horários da rega automática dos parques para que ninguém durma lá).

Várias organizações de apoio a pessoas sem-abrigo dizem que estes métodos não são novos, mas notam que podem ser cada vez mais visíveis quando há cada vez mais pessoas sem-abrigo: nos últimos três anos, houve um aumento de 75% de pessoas a dormir ao ar livre em Londres. A crise e os cortes no estado social, especialmente o ataque ao direito de habitação, são as razões para este grande aumento. Por aqui, onde estas causas também se verificam, há mais de cinco mil pessoas sem-abrigo e, na capital, em Lisboa, o número triplicou nos últimos dois anos (em 2013, havia quase 900 pessoas nesta situação).

Até agora escrevi sempre “pessoas sem-abrigo” contra a expressão destituída de referente e mais comummente usada: “os sem-abrigo”. Fi-lo, porque me parece que é esse sujeito humano que está esquecido. Poderão dizer que crimes mais atrozes são praticados todos os dias contra humanidade e que, por isso, esta questão é até menor… Infelizmente será assim. Mas no dia em que já não for possível surpreender-nos com medidas contra “a praga da humanidade”, então os tempos sombrios estarão irremediavelmente instalados e a nossa capacidade de pensar arruinada. E a banalidade do mal preencherá as nossas vidas então tornadas automáticas.

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Sobre o/a autor(a)

Investigadora e doutoranda em Filosofia Política (CFUL), ativista, feminista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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