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Žižek: A utopia de Piketty

Numa conferência em Londres, o filósofo esloveno comentou o livro de Thomas Piketty, considerando utópica a ideia de que seria possível combinar o capitalismo que existe hoje com uma taxação forte do capital.
Montagem sobre foto de Mariana Costa/Flickr

Le Capital au XXIe siècle, é um livro essencialmente utópico. Porquê? Por causa da sua modéstia. Thomas Piketty percebe a tendência inerente do capitalismo à desigualdade social, de tal forma que a ameaça à democracia parte do interior da própria dinâmica capitalista. Até aí tudo bem, estamos de acordo. Ele vê o único ponto luminoso da história do capitalismo entre as décadas de 30 e de 60, quando essa tendência para a desigualdade era controlada, com um Estado mais forte, Welfare State etc. Mas reconhece ainda que as condições para isso foram – e eis a trágica lição do livro – Holocausto, Segunda Guerra Mundial e crise. É como se estivesse implicitamente a sugerir que a nossa única solução viria com uma nova guerra mundial, ou algo assim!

Ele é quase que uma versão social-democrata do Peter Mandelson, aquele príncipe negro de Tony Blair que disse que na economia somos todos thatcheritas, e que tudo o que podemos fazer é intervir ao nível da distribuição, um pouco mais para a saúde, para a educação e assim por diante.

Sabem porque digo que ele é utópico? De certa forma ele não está errado. A tentativa de superação do capitalismo no século XX de facto não funcionou. O problema é que ele então acaba implicitamente generalizando isso. Piketty aceita, como um bom keynesiano, que o capitalismo é, ao fim e ao cabo, o único jogo na praça; que todas as alternativas a ele acabaram em fiasco, e que portanto temos de preservá-lo. Ele é quase que uma versão social-democrata do Peter Mandelson, aquele príncipe negro de Tony Blair que disse que na economia somos todos thatcheritas, e que tudo o que podemos fazer é intervir ao nível da distribuição, um pouco mais para a saúde, para a educação e assim por diante.

Thomas Piketty é utópico porque ele simplesmente propõe que o modo de produção permaneça o mesmo: vamos só mudar a distribuição implementando – e não há nada de muito original nessa ideia – impostos radicalmente mais altos.

Aqui começam os problemas e entra a sua utopia. Não digo que não devemos fazer isso, só insisto que fazer apenas isso não é possível. Essa é a utopia dele: que basicamente podemos ter o capitalismo de hoje, que como maquinaria permaneceria basicamente inalterado: “opa opa, quando você lucra bilhões, aqui estou eu, imposto, dê-me 80% da sua faturação”. Não acho que isso seja fazível. Imagine um governo fazer isso a nível mundial. E Piketty está ciente que isso deve ser feito globalmente, porque se fizer em um só país, o capital desloca-se para outro lugar e assim por diante. O meu argumento é que se você conseguir imaginar uma organização mundial em que a medida proposta por Piketty possa efetivamente ser realizada, então os problemas já estão resolvidos. Então você já tem uma reorganização política total, um poder global que pode efetivamente controlar o capital. Ou seja: nós já vencemos!

É claro que seria ótimo ter o capitalismo de hoje, com todas as suas dinâmicas, e só mudá-lo ao nível da redistribuição – mas isso é que é utópico.

Então acho que nesse sentido Piketty faz batota: o verdadeiro problema é o de criar as condições para que a sua medida aparentemente modesta seja atualizada. E é por isso que, volto a dizer, não estou contra ele, ótimo, vamos lá cobrar 80% de imposto dos capitalistas. O que digo é que se você fosse fazer isso, logo se daria conta de que isso levaria a mudanças subsequentes. Digo que é uma verdadeira utopia – e isso é o que Hegel queria dizer com pensamento abstrato: imaginar que você pode tomar uma medida apenas e nada mais muda. É claro que seria ótimo ter o capitalismo de hoje, com todas as suas dinâmicas, e só mudá-lo ao nível da redistribuição – mas isso é que é utópico. Não se pode fazer isso pois uma mudança na redistribuição afetaria o modo de produção, e consequentemente a própria economia capitalista. Às vezes a utopia não é anti-pragmática. Às vezes ser falsamente modesto, ser um realista, é a maior utopia.

É como – e perdoem-me o paralelo esdrúxulo – um certo simpatizante nazista que disse basicamente: “Ok, Hitler está certo, a comunidade orgânica e tal, mas porque ele não se livra logo desse asqueroso antissemitismo”. E houve uma forte tendência, inclusive dentre os judeus – e isso é realmente uma história curiosa –, houve uma minoria de judeus conservadores que inclusive se dirigiam a Hitler dessa maneira: “Bolas, nós concordamos consigo, unidade nacional e tal, mas por que você nos odeia tanto, queremos estar com você!” Isso é pensamento utópico. E é aqui que entra o velho conceito marxista de totalidade. Tudo muda se você abordar os fenómenos com a perspectiva da totalidade.


* Extraído da conferência “Towards a Materialist Theory of Subjectivity“, no Birbeck Institute for the Humanities.  A tradução é de Artur Renzo, para o Blog da Boitempo.

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Sobre o/a autor(a)

Filósofo e psicanalista esloveno. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Ljubljana.
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