You are here

Um Passeio na Noite

Um Passeio na Noite é um conto de um autor sul africano – Alex La Guma. Passa-se durante o apartheid e segue de perto as voltas do dia a dia de trabalhadores negros.

A certa altura, Michael Adonis – personagem do conto – vai pela rua, absorvido no turbilhão da cidade. Dois polícias descem a rua e fitam-no. Todas as pessoas abrem caminho para que os dois polícias, impecavelmente vestidos, passem sem esforço pela massa humana. Michael Adonis tenta fazer o mesmo: colocar-se de lado, passar despercebido, mas não vale a pena: os polícias já o tinham marcado. Abordam-no: 'Para onde vais tu?'. Ele não os olha nos olhos. Aprendeu que isso só traria mais problemas. Perguntam-lhe pela droga. Ele diz que não fuma disso, mas obrigam-no a retirar tudo o que tem nos bolsos. Tinha dinheiro num dos bolsos: o salário que trouxe da fábrica quando foi despedido. Perguntam-lhe onde roubou o dinheiro.

A arbitrariedade da força e da autoridade, o exercício dessa força só para manter o medo e o controlo sobre os que são esmagados pelo sistema político... É isso que representa a omnipresença da polícia neste conto.

Esta é, no entanto, uma estória sem novidade. Os Estados usam sempre as chamadas forças da autoridade para exercer força e controlo. Quanto mais injusto o Estado mais força sobre a população que é a explorada, a segregada, a espoliada. Força sobre eles que é para que eles se submetam a um sistema e a um Estado que apenas os explora.

Michael Adonis é um negro trabalhador durante o apartheid às mãos da polícia. Uma vítima de um Estado, de um sistema político, a ser pressionado constantemente para se submeter às regras do Estado que o humilha e explora.

É quando a exploração é maior que o autoritarismo se torna mais evidente.

Ao ler Um Passeio na Noite não pude deixar de pensar nos povos hoje submetidos à austeridade – doutrina que os explora – e na forma autoritária de controlo desses povos – a ingerência de instituições externas a impor programas de governo sem qualquer ratificação popular.

Na comparação devem salvaguardar-se as diferenças necessárias entre as duas situações, como é óbvio, mas há aqui um ponto comum: quanto maior a exploração, maior o autoritarismo. Pode não ser o autoritarismo da polícia que nos aborda na rua perguntando arbitrariamente 'Para onde vais tu?', mas é o autoritarismo do FMI que diz que durante os próximos anos virá pelo menos duas vezes por ano a Portugal para verificar se se continua a aplicar os programas de austeridade.

A austeridade explora a grande maioria da população – do corte no salário ao corte na reforma, da degradação do Estado Social à destruição de emprego – para salvar o dinheiro de especuladores ou concentrar riqueza num punhado. Não é propaganda, são factos: as maiores fortunas portuguesas aumentaram a sua fortuna; ao nacionalizar os prejuízos da banca transferiu-se para a dívida pública aquilo que era a dívida de especuladores e banqueiros (estes últimos salvaram o seu património, mas à custa dos contribuintes).

É um sistema, uma doutrina, de exploração pesada que se tem imposto sobre a população. Como fazer para que a população suporte? Com autoritarismo! Dizer 'Agora tem que se aplicar estas medidas de austeridade. Tem que ser assim porque não há outra solução' é uma forma de autoritarismo. O tem que ser é autoritário.

E a austeridade vive desse tem que ser. Em nome desse tem que ser permitiu-se a ingerência do FMI, do BCE e da CE que impuseram programas de governo que o povo não votou, não ratificou e com os quais não concordava. Programas de governo feitos contra o povo e que por isso não poderiam ir a eleições porque seriam chumbados. Como se apelidaria um sistema político em que se impõem programas de governo sem que as pessoas sejam tidas nem achadas? Como se apelidaria a um sistema político que ratifica Tratados sem referendos? No mínimo, é autoritário!

Foi o tem que ser que submeteu a população à austeridade, ao desemprego, à perda da casa ou à emigração. E é o mesmo tem que ser que continua a ser jogado para manter a austeridade perpétua.

A troika foi embora? Nada mais falso! Pelo menos até 2030 virá fazer visitas regulares ao país para se certificar que se mantêm os planos de austeridade sobre os portugueses. E, nos entretantos, cá ficam em Portugal o Documento de Estratégia Orçamental e o Tratado Orçamental que obriga a mais sacrifícios, mais cortes, mais austeridade.

Lagarde dirá: 'Tem que ser! Portugal não pode agora perder o que conseguiu nestes 3 anos de sacrifícios' e o Governo concordará. Ou seja, os portugueses, para não perder os sacrifícios a que foram submetidos, terão que fazer mais sacrifícios ainda! Tal é a narrativa da austeridade com todo o seu autoritarismo.

Se Michael Adonis, perante a polícia, sozinho, os tivesse provocado, provavelmente seria preso, espancado e sabe-se lá o que mais... Mas se as pessoas que estivessem a passar naquela rua, em conjunto, os envolvessem e dissessem 'Mas que sistema é este em que uma minoria esmaga e explora a maioria? Não nos submetemos', o que teria acontecido, como veio a acontecer, foi a derrota do apartheid.

Aqueles polícias, sem o medo por parte das pessoas, não têm qualquer autoridade. Assim será com o autoritarismo da austeridade. Quando desobedecermos e não nos amedrontarmos perante a chantagem, o autoritarismo perderá o poder; os que aplicam a austeridade para enriquecer à custa das pensões e dos salários dos portugueses serão, fatalmente, derrubados.

Sobre o/a autor(a)

Dirigente e deputado do Bloco de Esquerda, membro da Comissão de Saúde da Assembleia da República. Psicólogo
(...)