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Os grandes significados das pequenas coisas

Voto significa hoje uma oportunidade, o poder de fazer a diferença, de não deixar que seja exclusivamente a voz de outros a determinar o meu fado.

A linguagem, seja ele o clássico inglês, o romântico português, o misterioso arábico, o histórico grego, o artístico hieróglifo ou o singular mandarim, é a forma maior de expressão do que sentimos: é o escape de uma alma cheia, que transborda uma pequena parte do que sente para o mundo que a rodeia.

O uso corriqueiro, automático e despreocupado da linguagem leva-nos a olvidar os infinitos sentimentos por detrás de cada palavra, a magnitude da profundidade de cada frase, as cores, sensações e sabores por detrás de cada sílaba.

Recuperamos a paixão pelos significados quando aprendemos uma nova língua, quando mergulhamos na intempérie de não entender e de não nos fazermos entender, para voltar a fazer emergir o turbilhão de sentimentos, que clamam por ser libertados.

Neste mar, em que procuro braçadas fortes, para que seja breve o desentendimento com o mundo, procuro o significado das palavras simples, até ontem corriqueiras da minha vida.

Portugal significa o berço que me viu nascer, significa crescer, significa as cores com que aprendi a ver o mundo, os sons com que aprendi a escutá-lo. Significa casa, feita de paredes que nunca me demiti de decorar e reparar. Significa também o lar que a dada altura se apressou a confinar-me à porta de saída, ainda que nele insistisse em permanecer.

Austeridade significa abismo, um poço sem fundo visível onde têm cabido os direitos, sonhos e esperança de todos os portugueses. Significa famílias separadas, significa vidas destroçadas, perdidas nos labirintos de dívidas, significa escravatura e trabalho sem direitos. Significa acima de tudo, tornar inúteis as lágrimas, sangue e suor que construíram o sonho de um Portugal de Abril.

Troika significa assinatura, em papel timbrado e a tinta dourada, da sentença de morte de um país de lutadores, de sonhadores, outrora conquistadores do mundo, outrora intransigentes na defesa da liberdade contra o fascismo que o asfixiava. Significa igualmente silêncio ensurdecedor, vazia de esperança, num coro, antes amplo, com as vozes de 10 milhões. Resume-se hoje ao vociferar corajoso dos que de pé persistem em entoar, orgulhosos, a possibilidade de um Portugal diferente.

Voto significou um dia para mim um dever, um ato de cidadania, um momento de expressão de uma liberdade resgatada das garras da impiedosa ditadura. Voto significa hoje uma oportunidade, o poder de fazer a diferença, de não deixar que seja exclusivamente a voz de outros a determinar o meu fado. Significa um privilégio, tratado por tantos como um simples papel, quando nas suas quatro dobras contem o poder de escrever a história presente do nosso País.

Farei parte da abstenção, pois infelizmente a burocracia esquece todos os que estão em trânsito entre cantos do mundo, na busca pela miragem que se tornou a esperança. A mágoa, no entanto, de não poder votar, só encontra comparação na incompreensão por todos os que abdicam de se fazer ouvir, se demitem de mudar o seu mundo.

Vivemos num mundo de imperfeições, em qualquer um dos seus cantos. São menos as imperfeições, no entanto, onde são mais os que as tentam limar.

Europa significa mais do que fronteiras, linhas imaginárias, na terra de todos nós. Significa hoje decisão, significa um pensamento comum que determina o presente de milhões. Abdicar de voz na Europa é querer saber apenas o resultado final de um jogo, sem o querer ver, sem querer assistir, sem aspirar a tomar parte dele seja de que forma for.

Abdicar de voz na Europa é abdicar de saborear, de cheirar, de ouvir, é viver de acordo com um guião escrito para nós, sem nos conhecer. Assim o escolhemos, no momento em que votamos ao exílio o ato de decidir.

Camuflamos a nossa negligência com argumentos pobres; “São todos iguais” proclamam os que não conhecem ninguém, “Todos mentem” vociferam os que não se deram ao trabalho de explorar ideias de nenhum, “Não vale a pena” lamentam os que nunca tentarão.

Sonho com Portugal, sonho com o meu país rimar com regresso, com esperança, com braços abertos para todos os que não abdicam da dignidade e dos direitos. Sonho com um Portugal em sintonia com os corações de famílias reunidas, em sintonia com os empreendedores que se entregam ao seu trabalho, que se entregam ao trabalho pelo seu pais.

Voto com o coração, voto com a alma e com a consciência informada. Não voto com a caneta, restando-me a esperança de que os que estoicamente resistam no país que todos amamos, erguem por mim a sua voz. Portugal significa esperança, significa o sonho de voltar, significa o sonho de que Abril não seja um dia, seja um País de homens e mulheres que não se escondem de decidir o seu destino.

Sobre o/a autor(a)

Enfermeiro. Cabeça de lista do Bloco de Esquerda pelo círculo Europa nas eleições legislativas de 2019
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