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A bom entendedor meia palavra basta

A liberalização selvagem da economia, esse sonho da direita portuguesa, não levantou vôo juntamente com o FMI, mas andará bem escondido atrás das promessas eleitorais e só mostrará a sua cara após as eleições, quando todas as promessas se tornarem, afinal, “impossíveis de concretizar”.

Durante três anos não se falou noutra coisa se não na Europa: a crise europeia, a necessidade de ajustes orçamentais para não nos desviarmos das médias europeias, a obrigatoriedade de nos submetermos aos caprichos alemães de mais austeridade e mais contenção orçamental para nos considerarmos dignos de pertencer à União Europeia, para que Portugal pudesse ser considerado o “aluno exemplar”, para que os mercados não se sentissem inseguros face à nossa economia. Agora, às portas das eleições europeias, ninguém fala na União Europeia. A campanha tem passado despercebida pelos meios de comunicação social e o arco do poder tem feito todos os possíveis para silenciar as eleições que se avizinham. PS, PSD e CDS fingem ignorar a importância do próximo dia 25 e deram já início à “pré-campanha” para as legislativas de 2015.

PSD e CDS regozijam-se com a saída da Troika; dizem que recuperámos a soberania, falam-nos em “saída limpa” e querem agora lavar a cara com promessas eleitorais, como a do aumento do salário mínimo nacional, que sabemos que nunca virão a ser cumpridas. O futuro vislumbra-se tão negro quanto o passado; o “Caminho para o Crescimento” não deixa margem para dúvidas: a austeridade veio para ficar e, apesar de o Governo já não poder contar com a presença do FMI para servir de bode espiatório, serve-se da política do medo para garantir justificação para a disciplina orçamental. O Partido Socialista também entrou no jogo e prometeu baixar a TSU para os pensionistas e reduzir a sobretaxa do IRS. Estas promessas não passam de manobras para iludir o eleitorado, para o fazer esquecer aquilo que foram os últimos anos de governação.

Portugal continua a atravessar a mais grave recessão económica das últimas décadas, regista números de emigração semelhantes aos da década de 60 – com a diferença de que agora perde também a geração qualificada – e continua a ser o lar de empobrecimento para muitas famílias que não têm como fugir. Portugal é um país construído para as grandes empresas que, dia após dia, podem pagar menos e despedir mais, enriquecendo os bolsos da burguesia à custa da exploração trabalhadores.

A Troika saiu de Portugal, mas o seu espírito mantém-se e o motivo é claro: PS, PSD e CDS não foram forçados a aplicar austeridade. Os sucessivos PEC’s do Partido Socialista e os últimos três anos de cortes e despedimentos correspondem a um programa ideológico que pretende acabar com o Estado Social, privatizar a saúde e a educação, retirar das mãos do Estado todos os sectores estratégicos – independentemente de serem lucrativos ou não -, como foi o caso da EDP e estimular a “livre concorrência”, porque não está nos seus interesses defender as pessoas, mas sim os mercados, a alta finança. A liberalização selvagem da economia, esse sonho da direita portuguesa, não levantou vôo juntamente com o FMI, mas andará bem escondido atrás das promessas eleitorais e só mostrará a sua cara após as eleições, quando todas as promessas se tornarem, afinal, “impossíveis de concretizar”.

Felizmente, “a bom entendedor meia palavra basta” e já ninguém se deixa enganar. A rotatividade governativa entre PS e PSD mostrou bem de que lado está o arco do poder e, 40 anos após o 25 de Abril, chegou a hora de reconquistarmos a democracia em pleno, quer enquanto cidadãos residentes em Portugal, quer enquanto cidadãos europeus.

Apesar dos esforços do PS, PSD e CDS para relativizar a data, no próximo dia 25 de Maio realizar-se-ão as eleições europeias. Serão uma oportunidade para chumbarmos a austeridade, a Europa da alta finança e o projeto de Merkel que apenas favorece a burguesia. Nestas eleições poderemos dar voz à vontade de retomar o projeto de construção de uma Europa mais solidária, justa, inclusiva e democrática.

Sobre o/a autor(a)

Estudante do Ensino Superior. Membro da Coordenadora Nacional de Estudantes do Bloco de Esquerda.
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