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Crise na Ucrânia atinge Estação Espacial Internacional

Esta semana, o vice-primeiro-ministro russo Dmitry Rogozin, um dos 11 dirigentes russos atingidos pelas sanções norte-americanas, anunciou que a Rússia rejeita o pedido dos EUA para manter a Estação Espacial em operação até 2024.
Estação Espacial Internacional - Foto da wikipedia

Em 1963, no auge do programa espacial soviético, no ano em que Valentina Tereshkova se tornou a primeira mulher no espaço e um ano e meio depois da decisão de enviar um homem à Lua, o Presidente Kennedy iniciou conversações secretas com a direção do programa espacial soviético com o objetivo de abandonar o Programa Apollo e implementar um programa conjunto com a URSS. No final desse ano, Kennedy foi assassinado e o seu sucessor Lyndon Johnson abandonou as negociações com os dirigentes russos.

Só depois de os EUA terem colocado o primeiro homem na Lua é que o Presidente Nixon restabeleceu o contacto com a URSS para a implementação de uma missão conjunta. Em 1970, técnicos, engenheiros, cosmonautas e astronautas dos dois países iniciaram um processo de cooperação que viria a resultar na missão conjunta Apollo-Soyuz. Foi no dia 17 de julho de 1975 que o cosmonauta Alexei Leonov e o astronauta Tom Stafford apertaram a mão no módulo que unia a Appolo à Soyuz, enquanto pairavam a 225 km de altitude sobre Metz, França.

Desde então russos e americanos cooperaram em inúmeros projetos espaciais, partilhando lançadores, telescópios espaciais, satélites de comunicação, etc. Desde 1994, a Rússia aderiu ao projeto da estação espacial Freedom, que depois se passou a designar Estação Espacial Internacional. Iniciada em 1998 com o envio do módulo Zarya, a Estação Espacial tornou-se um dos principais símbolos do fim da Guerra Fria.

Esta semana, o vice-primeiro-ministro russo Dmitry Rogozin, um dos 11 dirigentes russos atingidos pelas sanções norte-americanas, anunciou que a Rússia rejeita o pedido dos EUA para manter a Estação Espacial em operação até 2024. A Rússia cessará a sua participação em 2020. Esta retaliação do governo russo às sanções americanas decorrentes da crise na Ucrânia poderá ser radicalizada, sabendo que desde o fim do programa de vaivéns espaciais, os americanos estão totalmente dependentes dos lançadores russos para enviar os seus astronautas a bordo da Estação Espacial. A NASA paga à Rússia cerca de 60 milhões de dólares pelo lançamento de cada astronauta. O próprio Rogozin, em jeito de ameaça, afirmou que o segmento russo da Estação Espacial pode funcionar de forma independente do segmento americano, ao contrário do segmento americano que está dependente dos russos.

No meio deste fogo cruzado quem perde é a ciência e os milhares de mulheres e de homens, americanos, russos e de múltiplas nações, para quem a Estação Espacial Internacional representa o projeto de toda uma vida e uma aventura do conhecimento a partilhar com toda a humanidade, sendo a esmagadora maioria destes cientistas avessos ao despotismo de Putin e às manobras da NATO que criaram instabilidade e separatismos artificiais do Kosovo à Bielorrússia.

Sobre o/a autor(a)

Investigador no Departamento de Física da Universidade de Coimbra
Termos relacionados Ciência, Sociedade
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