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A negação de Pedro

Porque é que Passos diz agora o contrário do que disse aquando da entrada da troika? A resposta é simples: ao contrário do que apregoa Passos Coelho sabe bem que o país está pior. Por isso, renega o programa da troika que antes embandeirou.

Em 2011, quando PS, PSD e CDS assinaram o memorando de entendimento, deram as boas-vindas à troika e todos quiseram recolher os louros do feito. Na altura, Passos Coelho dizia que “o PSD ganhou um aliado, que é o programa de ajustamento”. Era mesmo mais ambicioso: “aquilo que eu tenho vindo a dizer que é preciso fazer está, em parte, neste documento”, “o nosso programa vai muito para lá do programa da troika”. Era o tom da época: todos queriam ser mais troikistas que a troika. A esquerda era atacada por recusar a entrada da troika e opor-se ao memorando.

Como os tempos mudam. No discurso da “saída limpa”, Passos Coelho fez o paralelismo entre o fim do programa de assistência e um novo 25 de abril, “o dia em que liberdade de decisão foi reconquistada”. Paulo Portas inaugurou um relógio com a contagem decrescente até à “independência”. Nuno Melo já escolheu o espumante. Nem foi preciso o galo cantar.

A questão é porque é que Passos diz agora o contrário do que disse aquando da entrada da troika? A resposta é simples: ao contrário do que apregoa sabe bem que o país está pior. Por isso, renega o programa da troika que antes embandeirou. Mesmo que não o soubéssemos pelas nossas vidas, mesmo que não o soubéssemos pelos indicadores económicos, a contradição de Passos elucida: o país e as pessoas estão pior.

A troika vinha resolver o problema da dívida mas a dívida está mais alta. A troika vinha para pagar os salários, mas os salários e as pensões foram cortadas. O desemprego apresenta números recorde. Os impostos sobre o trabalho disparou. A saúde e a educação sofreram cortes draconianos. Temos uma vaga de emigração forçada sem precedentes na democracia. Não há nenhum sucesso a celebrar. Foi um resgate à banca alemã, já o sabíamos. A austeridade é a transferência de riqueza de quem depende do trabalho para o capital. É por os seus resultados se sentirem hoje de forma tão profunda que o Governo renega o que antes perfilhou.

Também não há nenhuma saída a registar. No dia 17 de maio, os salários e as pensões não são restituídos e os impostos já foram aumentados novamente. Nem o governo nem o PS se comprometem com a restituição. Pelo contrário, comprometeram-se com o Tratado Orçamental que institui um regime de austeridade permanente para as próximas décadas. Por vontade e pelos votos do PSD, PS e CDS Portugal foi o primeiro país a ratificar o Tratado.

Antes da moda das selfies, na fotografia de Eduardo Catroga e Teixeira dos Santos a assinarem o acordo do orçamento para 2011; na entrada da troika; no Tratado Orçamental. O retrato da austeridade sempre uniu o bloco central. E essa é a escolha decisiva. Existe saída e está nossas mãos. Construir a maioria social que derrote a austeridade e que restitua o que foi perdido. As próximas eleições europeias e a derrota do Tratado Orçamental são passos nesse sentido. Escolhe o rumo. Junta-te à caminhada.

Sobre o/a autor(a)

Biólogo. Dirigente e deputado do Bloco de Esquerda
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