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“Amar a liberdade é recusar sem equívocos o estado a que chegámos”

Jorge Castro Guedes, ator, encenador e a atualmente diretor artístico do Dogma 12, um Estúdio de Dramaturgias de Língua Portuguesa fundado há dois anos, afirma em entrevista ao Esquerda.net que é necessário encontrar soluções à esquerda, um novo paradigma capaz de criar massa crítica que retire as pessoas da apatia em que se encontram. Por Pedro Ferreira.
Jorge Castro Guedes: "A União Europeia tem hoje 30 milhões de desempregados e não tem resposta para lhes dar".
Jorge Castro Guedes: "A União Europeia tem hoje 30 milhões de desempregados e não tem resposta para lhes dar".

Para o encenador, o objetivo é combater a lógica do “salve-se quem puder”, tão cara àqueles que nos querem ver reduzidos ao sentido utilitário e descartável da materialidade, produção/consumo onde não há lugar para a solidariedade.

Ligado à cultura desde muito jovem, faz do teatro um palco privilegiado de militância política no combate ao que diz ser um gigantesco iceberg ideológico em que vivemos, que tolda a reflexão, impede a interrogação e castra a inquietação do pensamento. Elementos essenciais da liberdade que se deve opor de forma veemente aos conceitos e preconceitos impostos pela lógica do neofacismo financeiro que tenta impor um caminho único, um consenso ortodoxo alicerçado no jogo viciado e asfixiante das inevitabilidades.

Sem hesitações, este homem nascido há 60 anos no Porto afirma que não tem hoje nenhum relacionamento com o poder político, a não ser a sua férrea oposição à política cultural do governo que qualifica de “perigosa” porque se inscreve num quadro que “visa retirar o estímulo à análise crítica da sociedade e desta forma promover a dessensibilização do gosto pelo embrutecimento dos sentidos.”

“Não posso conceber a criação cultural desligada das realidades políticas e sociais que nos circundam. Porque, como afirmava Rui Mário Gonçalves, crítico de arte recentemente falecido, a arte é a primeira reveladora das transformações que a humanidade deseja.

“Torna-se assim necessário combater a atrofia em que o poder a quer encerrar, evitando assim que ela seja o reflexo das clivagens existentes na sociedade.

“A cultura não pode estar divorciada da realidade em que vive e dos vários poderes que a vão moldando, porque se assim for transforma-se em algo desprovido de interesse, uma espécie de veículo destinado a desviar a atenção das pessoas daquilo que é essencial para a construção de uma mentalidade que questione e se questione, posicionando-se desta forma como um agente de transformação de mentalidades e consequentemente das mudanças que as sociedades vão reclamando”, afirma.

Uma decisão tomada em nome da liberdade criativa

Para Castro Guedes, o projeto Dogma 12 significa “a libertação de todos os constrangimentos impostos pela lógica da atribuição de subsídios estatais, permitindo alargar o espaço criativo de quem, como nós, recusa entrar no mainstream cultural travestido muitas vezes de um pseudo-vanguardismo inócuo, mas que é muito aplaudido por aqueles que decidem quais os projetos que devem ser subsidiados”.

“Trabalhei em muitas companhias nacionais e também estrangeiras com ator e encenador”, recorda. “Algumas eram amadoras, pelo que tenho uma visão muito ampla do teatro, dos seus meandros e dos muitos egos que por lá andam”, afirma com alguma ironia.

A cultura não pode estar divorciada da realidade em que vive e dos vários poderes que a vão moldando, porque se assim for transforma-se em algo desprovido de interesse, uma espécie de veículo destinado a desviar a atenção das pessoas daquilo que é essencial para a construção de uma mentalidade que questione.

“Quando constituímos esta organização” – lembra – “ainda recorremos aos subsídios do Estado, porque este tem uma obrigação constitucional de apoiar a cultura e esta não se faz sem meios financeiros. No entanto, acabámos por tomar uma decisão arriscada mas libertadora e que é também um compromisso de verdade com todos aqueles que vão ver o nosso trabalho.”

“O governo” – refere – “não tem uma estratégia nacional para a cultura. Nesta área vivemos também à deriva, vergados a um laxismo de cunho meramente economicista suportado por opiniões tão ridículas quanto intoxicantes, como as que são debitadas por alguns que dizem que a cultura tem de se autofinanciar, que as prioridades num país em dificuldades têm de ser outras”.

“Num momento em que milhares de pessoas passam por tantas privações que vão da falta de emprego à ausência de cuidados de saúde básicos, é fácil cair no argumento de que a cultura é acessória” – aponta. “Neste jogo viciado, importa no entanto referir que não devemos nunca secundarizar aquilo que mexe connosco, podendo desta forma abrir novos espaços de pensamento que serão vitais na mudança que é urgente fazer. Daí o receio que o poder tem da cultura e a aposta que faz no seu esvaziamento”.

Para o encenador, “a cultura pode despertar consciências, afirmar que direitos não são privilégios, que a dignidade das pessoas não está na esmola que agora vai ganhando a forma de um saco de plástico recolhido em supermercados. Amar a liberdade é recusar sem equívocos o estado a que chegámos, esta contaminação de ideias-feitas criada por gente sem escrúpulos”.

E acrescenta que “o teatro e a força da palavra-mensagem que lhe está subjacente é uma arte fundamentalmente existencial e na suas múltiplas vertentes pode, sem carácter panfletário, denunciar a farsa em que vivemos e a abstração de uma democracia que vegeta no interior de um sistema que não passa de um embuste”.

Jorge Castro Guedes tem consciência dos riscos, “mas queremos fazer um trabalho que não é compaginável com decisões medíocres e provincianas que chegam ao ponto de considerar como critério válido para a atribuição de um subsídio o facto de se aparecer na televisão. Iremos assim recorrer as ações de crowdfunding junto de particulares e de algumas empresas, e estamos convictos de que conseguiremos os meios necessários para realizar o nosso trabalho. De uma forma singular, a desafiar o impossível”, sublinha.

Humanizar o ser humano

Num momento em que as Ciências Sociais estão sob fogo cerrado do governo, porque “não têm valor de mercado” e não interessam à economia, Castro Guedes, que também frequentou os cursos de Direito e de Filosofia e tem um mestrado em Artes Cénicas, diz que “não ficou surpreendido” com as afirmações do ministro da Educação, Nuno Crato, quando este colocou as Ciências da Educação ao nível das ciências ocultas.

“HOTEL BILDERBERG” Um Desconcerto Dramático em Dó Maior, de Jorge Castro Guedes

“A ideologia dominante não consegue ver nada para além do utilitário e, por isso, sente-se incomodada com tudo aquilo que pretende humanizar o ser humano”, sublinha.

“Que interesse tem, para o Deus-Setor Financeiro, a Filosofia que faz pensar, a Arte que desencadeia sensibilidades ou as Línguas que permitem a comunicação com outros povos?”

E interroga-se: “Alguém ainda se surpreende que um qualquer militante da JSD venha dizer que o ensino obrigatório deve ficar-se pelo 6º ano e desse pode excluir-se o estudo das Humanidades?”.

Preocupado, manifesta a sua perplexidade com o “despudor” e a “ausência de sentido ético” dos decisores políticos ou candidatos à função de condicionar as nossas opções intelectuais e estéticas, e não concebe uma sociedade poluída por números e rácios que cultivam a indiferença e o egoísmo.

“Urge, assim, retomar o caminho de uma cultura que recupere os valores humanistas destruídos ou postos em causa nos últimos anos pela gigantesca prisão ideológica e mental em que nos encerraram, pelas novas formas de repressão e criação do medo, através do dinheiro e da massificação de um entretenimento medíocre e alienante”, afirma o encenador.

Para o diretor artístico do Dogma 12, é ainda imperioso “travar a exaltação de uma nova superioridade ariana que passa pela consagração do indivíduo em detrimento da pessoa, o mercado em vez da cidade (a polis) e que vai ganhando forma através da repressão dos mais fracos e da progressiva eliminação de mecanismos que têm protegido os mais vulneráveis da exclusão e também dos meios capazes de combater de forma eficaz a acentuação das desigualdades.”

Um submundo aterrador

Quando esteve em cena o Hotel Bilderberg que eu escrevi e encenei houve muitos espetadores que me disseram que se tinham sentido muito incomodados com o que tinham visto. Alguns até indispostos.

Quando lhe perguntamos como perspetiva o futuro de Portugal e dos restantes países europeus, Castro Guedes faz uma pausa mais prolongada antes de afirmar: “Não faço a mais pequena ideia do que possa impulsionar as pessoas a se mobilizarem e lutarem pela mudança. Há muito descontentamento, mas há inércia e a revolta que sentem ainda não as conseguiu retirar de uma certa apatia que é visível na sociedade portuguesa e também noutros países”, diz, para acrescentar de imediato que “os mecanismos do governo e das organizações que fazem parte da troika são de uma perversidade extrema e suficientemente ameaçadores para paralisar as pessoas. Sob este ponto de vista, temos que dizer que eles trabalharam muito bem”.

E recorda: “Quando esteve em cena o Hotel Bilderberg que eu escrevi e encenei houve muitos espetadores que me disseram que se tinham sentido muito incomodados com o que tinham visto. Alguns até indispostos. A alta finança prospera num submundo aterrador, mas é aí que estão os comandos que determinam as nossas vidas. Apesar da complexidade do momento que atravessamos, posso no entanto dizer que não estou pessimista. Obviamente, que não sei o que vai acontecer amanhã, mas Robespierre também desconhecia o que se iria passar a 14 de Julho de 1789”.

Jorge Castro Guedes diz-se muito crítico em relação aos modelos económicos, sociais, jurídicos e institucionais que estiveram na origem da criação da atual União Europeia. “E sem desculpabilizar o governo, sabemos que o epicentro do terramoto que varre o continente europeu está nesta instituição, profundamente antidemocrática e totalmente enfeudada a interesses que põem em causa a vida dos cidadãos. A União Europeia tem hoje 30 milhões de desempregados e não tem resposta para lhes dar. A Europa está estilhaçada e dividida entre virtuosos (a norte) e incivilizados (a sul). Portugal, Grécia, Irlanda e Chipre já caíram nas malhas da austeridade e do empobrecimento contínuo. Seguir-se-ão outros. Até ao dia em que provavelmente o monstro que foi gerado para esmagar o povo europeu acabe por devorar os seus criadores.”

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