You are here

Mais 15% das famílias não conseguem pagar a luz

Em três anos de Troika em Portugal, registou-se um crescimento de 15 por cento nas famílias que não conseguem pagar a conta da luz, e de 30 por cento no caso do gás. 3 em cada dez pessoas não conseguem pagar a conta da luz, diz-nos a Deco.

Com o desemprego a aumentar, os salários e as prestações sociais a diminuir, há cada vez mais famílias com dificuldades em assegurar o pagamento de serviços básicos e essenciais como a água, luz e gás.

Os números mais recentes conhecidos sobre esta realidade são alarmantes e reveladores do drama para o qual foram atiradas milhares de famílias, em consequência das políticas anti-sociais deste Governo.

Em 2013, a EDP cortou o abastecimento de eletricidade a 285 mil famílias que não conseguem pagar a conta da luz.

5 em cada 100 clientes da EDP não têm dinheiro para pagar a conta da luz, e cerca de 100 mil famílias são obrigadas a pagamentos faseados

5 em cada 100 clientes da EDP não têm dinheiro para pagar a conta da luz, e cerca de 100 mil famílias são obrigadas a pagamentos faseados, porque não lhes resta outra alternativa que não seja o pagamento a prestações deste bem essencial.

Diz-nos a Deco que estas são pessoas que “ao longo da vida têm cumprido os seus compromissos e que por questões relacionadas com o desemprego, por exemplo, podem estar num momento de vida muito difícil, e que estão numa situação de incumprimento no pagamento desses serviços essenciais".

São famílias a quem foram retirados rendimentos do trabalho, a quem foram obrigadas a pagar mais impostos, a mais sacrifícios, mais pobreza, que deixaram de conseguir pagar. Não são caloteiros! São milhares de pessoas que se encontram em grande dificuldade.

Primeiro, chega a situação de desemprego, muitas vezes continuada. Depois, as dificuldades de chegar ao fim do mês, as contas por pagar, da água, a eletricidade, a prestação da casa, as contas da escola, e depois a comida. Numa espiral que se tornou impossível de travar para milhares de famílias.

A dimensão deste drama é ainda maior quando sabemos que, numa altura de profunda crise social, o número de clientes da EDP com direito à tarifa social, que se destina aos mais carenciados, baixou em 10 mil no ano passado, para 60 mil clientes.

Em setembro de 2012, cerca de 70 mil clientes da EDP beneficiavam da tarifa social e, um ano depois, em setembro de 2013, a empresa registava 60 mil famílias apoiadas.

É pois quando a crise se intensifica, em que mais apoios seriam necessários, que se voltam as costas aos mais pobres.

E o Governo bem pode encher a boca com anúncios de boas intenções, de que iria estender a tarifa social a 500 mil famílias. Porque os números desta insensibilidade social não mentem.

Não existem menos famílias a precisar de ajuda, pelo contrário, existe é um Governo completamente alheado das dificuldades reais do país, que voltou as costas às famílias.

Sabemos que Portugal tem o quarto preço da eletricidade mais elevado na Europa, acima de Espanha, Reino Unido e França, e que este foi o Governo que mais fez aumentar as tarifas.

A EDP de António Mexia registou lucros de 1.005 milhões de euros

E também sabemos que em 2013 a EDP de António Mexia - que, não nos esquecemos, defendeu em tempos uma “lista negra” para os clientes com dívidas - registou lucros de 1.005 milhões de euros, e que agora mesmo, enquanto aqui estamos, os acionistas da EDP estão reunidos em Assembleia Geral para votar o valor dos dividendos das ações a distribuir.

Fica claro: a austeridade, que retirou poder de compra e colocou milhares de famílias em situações de pobreza, não toca a todos. Uns poucos continuam a aumentar os seus ganhos à custa do empobrecimento generalizado.

Em três anos de Troika em Portugal, registou-se um crescimento de 15 por cento nas famílias que não conseguem pagar a conta da luz, e de 30 por cento no caso do gás. 3 em cada dez pessoas não conseguem pagar a conta da luz, diz-nos a Deco.

Meio milhão de portugueses não podem aceder a um bem essencial, como a luz, ou estão em vias de deixar de o conseguir suportar

Aumentaram os impostos, aumentou o desemprego, aumentou a pobreza. Cerca de 1 milhão e 100 mil portugueses vivem em situação de pobreza extrema. Uma em cada 4 pessoas é pobre, um número que cresceu 25% em 4 anos, com perto de 2 milhões de cidadãos a viverem atualmente com menos de 409 euros por mês. A taxa de pobreza cresceu de 21,3% em 2011 para 24,7% em 2012.

Este é o Governo que nem a sua própria propaganda leva a sério, com a defesa dos mais idosos ou os incentivos à natalidade a não passarem de mera retórica política: o congelamento de pensões de 274, 303 ou 379 euros, os cortes no Complemento Solidário para Idosos, a baixa do valor de referência do Rendimento Social de Inserção, e a alteração dos escalões do abono de família agravaram de forma sem precedente o fosso da desigualdade social.

Sobre a desigualdade do peso dos sacrifícios impostos deste que a Troika aterrou em Portugal também não existem dúvidas de onde recaiu a “ética da austeridade”, com a banca e os monopólios a suportarem apenas 4% dos cortes.

Os sacrifícios que os portugueses fizeram durante três anos não têm outro resultado que não o empobrecimento generalizado do país, feito em nome de uma chantagem económica, cujos números tornam evidente o absurdo dos argumentos e desta política.

Hoje, com perto de 14 mil milhões de austeridade agravada desde 2011, em impostos e redução de salários, a dívida que temos aumentou mais do dobro do que a própria austeridade e o défice está 800 milhões de euros mais alto.

"A vida das pessoas não está melhor, mas a vida do país está muito melhor", disse-nos o PSD, com a sobranceria de quem brinca com vidas alheias.

Sabemos todos que se vive hoje muito pior, num país que está mais pobre, mais desigual, mais injusto socialmente.

O Bloco de Esquerda não deixa as pessoas para trás e por isso apresentará um projeto de lei para que seja garantido o direito de acesso aos bens de primeira necessidade, água, energia e gás, impedindo os cortes

São as pessoas reais, que lutam diariamente pelo bem estar das suas famílias, mas que não importam as este Governo, obcecado da sua campanha de propagandas das “saídas limpas”. A realidade, no entanto, desmente o Governo. Estamos mais pobres, e os mais afetados são os pobres entre os pobres, os que pouco ou nada têm.

Meio milhão de portugueses que não podem aceder a um bem essencial, como a luz, ou estão em vias de deixar de o conseguir suportar.

Que respostas tem o Governo para lhes apresentar?

Quantos mais cortes em bens essenciais poderão esperar estas famílias?

Quanta, mas quanta pobreza mais podemos suportar?

Em nome destas pessoas, vítimas da austeridade, não podemos deixar de aqui trazer a situação real das famílias e da sua vida concreta.

Queremos proteger os mais fracos, não desistimos até que seja proibido deixar famílias sem acesso a bens essenciais por motivos de carência económica.

O Bloco de Esquerda não deixa estas pessoas para trás e por isso apresentará um projeto de lei para que seja garantido o direito de acesso aos bens de primeira necessidade, agua, energia e gás, impedindo os cortes.

Não desistimos em nome dos direitos humanos, da dignidade, da justiça social!

Declaração política feita na AR em 12 de maio de 2014

Sobre o/a autor(a)

Deputado, líder parlamentar do Bloco de Esquerda, matemático.
(...)