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O anti-midas

Se tu soubesses o que eu penso de ti, mesmo sendo eu um número, uma brevíssima parcela de uma estatística qualquer, uma ínfima criatura desconhecida, ficavas ofendido.

Ao pé de ti, até um Santana Lopes é um Churchill; até o Judas, aquele da última ceia, é um portento de lealdade; até um gago, é um prodígio de oratória e os carteiristas são tipos honestos ou, pelo menos, inofensivos.

Que coisa tão estranha terem-te escolhido para isto. Tu és o paradigma do que não se deve ser. Daquilo que quem está no teu lugar não pode ser. Um paradigma do piorzinho, da mais medíocre menoridade mandante que esta tira atlântica conheceu.

Os teus discursos são permanentes pantominices. Não há um que se safe. Até o Medina Carreira, até ele, parece um tipo sério, mesmo com aquela conversa de porteira. Olha que é preciso ser mesmo uma coisa roscofe, para ultrapassares aquela fancaria pensante.

Conheces o midas, aquele tipo que transformava em ouro tudo aquilo em que tocava? Tu és o protótipo do anti-midas. Tudo aquilo em que tu tocas perde brilho. Tudo o que dizes perde a mais pequena parcela de verdade que poderia conter. Tudo o que fazes se transforma de imediato em lesão, rombo e agressão.

Olha, e conheces o Egas Moniz? Aquele que até um baraço pôs ao pescoço dos filhos para cumprir a palavra dada? Pois, já sei, não tens lido os jornais.

Quarenta nos depois, apareces a dizer que o passado já foi. Lembra-te que o passado que não se viveu até ao fim pode voltar a qualquer momento. O tempo gosta de concluir a sua obra. Pelo menos fica sempre um grão, uma semente que não mente.

Que não mente. Como tu e todos os badamecos que comparecem engravatados ao primeiro espasmo troikiano.

Não sei se percebes bem o que te digo. Não é que sejas burro, és só mais um neoliberal amoral que não fala português. Falas uma nova língua-de-trapos andrajosos como se todos tivéssemos sido lobotomizados. Mas não fomos.

Vai por mim. É melhor ires indo. Vai andando.

Sobre o/a autor(a)

Advogada, dirigente do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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