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1º de Maio: Na rua contra o ciclo infernal da austeridade e pela demissão do governo

O Esquerda.net falou com alguns dos milhares de homens e mulheres que vieram esta quinta-feira para a rua e registou as feridas abertas por três anos de políticas marcadas por uma violência social sem precedentes na História recente do país. Por Pedro Ferreira.
Foto da CGTP.

No Dia do Trabalhador, há rostos fechados pela incerteza, revolta pelos dias que se vivem e apreensão em relação ao dia de amanhã.

 Muitos já abdicaram de muitas partes das suas vidas porque é cada vez mais escasso o dinheiro de que dispõem para enfrentar o difícil equilíbrio que marca a fronteira entre a queda no abismo e a salvaguarda da sua dignidade.

 O ciclo infernal da austeridade colocou na ordem do dia as conversas em torno do desemprego, dos cortes dos salários e das pensões, da supressão de direitos, da flexibilização das leis do trabalho e do contínuo aumento da carga fiscal.

 Conscientes de que são o alvo preferencial das políticas do governo, milhares de homens e mulheres vieram hoje para a rua reafirmar a sua determinação em lutar contra a sua transformação em meros figurantes no jogo sórdido da exploração e da usura levada a cabo pelo sistema financeiro.

 O Esquerda.net falou com alguns deles e registou as feridas abertas por três anos de políticas marcadas por uma violência social sem precedentes na História recente do país.

 É o desemprego, claro!

 Aguarda o início da manifestação, à porta de um café. Segura um cravo vermelho, símbolo da liberdade numa das mãos porque em Maio ainda se comemora Abril. A sua vida está suspensa por causa do desemprego de que não se consegue libertar há 6 anos. Vive da ajuda dos pais e de uns biscates que vai fazendo na construção civil. Tem 47 anos.

 Nunca me faltou trabalho e tinha uma vida equilibrada. Posso até dizer que ganhava bem. Comprei uma casa na margem sul e fui feliz com a minha namorada.

Não percebo nada de política, tenho pouca instrução mas não sou parvo e sei que só quando as pessoas se unirem é que conseguirão mudar isto.

Quando a crise começou, o trabalho deixou de aparecer. Tinha meses em que não conseguia nada mas depois lá vinha uma obra ou outra. Apesar de tudo ainda se conseguia. Agora é que não. Ainda fui para França mas fui enganado e regressei sem o pouco que levei. Sinto-me muito mal assim. Perdi a casa e às vezes se me apetece beber um café ou uma cerveja tenho de pedir dinheiro aos meus pais. Sinto-me envergonhado. Já fui à Segurança Social pedir apoio. Estou à espera mas dizem-me que vai ser difícil porque andei a trabalhar de forma ilegal (sem contrato) e eles agora estão a cortar cada vez mais nos apoios. Não percebo nada de política, tenho pouca instrução mas não sou parvo e sei que só quando as pessoas se unirem é que conseguirão mudar isto. Até lá, é o desemprego e a miséria que nos esperam. Estou triste mas não quero desistir.

 Um desassossego permanente

 Vai conversando animadamente com uma colega de trabalho mas está atenta às palavras de ordem que vão ecoando na manifestação que está agora a meio da avenida. Esta mulher está igualmente a meio da sua vida profissional embora às vezes lhe pareça que começou a trabalhar ontem. Sente-se mal tratada e por vezes até ofendida pelas chefias que a tratam como se fosse incompetente. E as ameaças são quase diárias. É funcionária pública e está sindicalizada.

Este governo detesta os trabalhadores, quer escravizá-los.

 Alguns chefes estão sempre a dizer que não precisam de nós, que estamos a mais, que devíamos ir embora porque o Estado precisa de poupar dinheiro. Têm instruções do governo para darem cabo de nós. Trabalho ali há 19 anos e nunca me senti tão mal. Estão sempre a criticar o que fazemos, mudam as regras de trabalho constantemente para depois dizerem que somos incompetentes. Vivo num desassossego permanente e se pudesse já me tinha vindo embora. Mas é impossível viver só com o salário do meu marido. Algumas colegas já tiveram de meter baixa. É um pesadelo. Este governo detesta os trabalhadores, quer escravizá-los. Quando se aproxima o final do mês até sinto arrepios. Cada vez ganho menos. Já não faço férias, a última vez que fui ao cinema foi há 5 ou seis anos…talvez mais. Isto é viver? Tenho um filho com 16 anos. O que vai ser dele se isto não mudar?

 O povo acaba sempre por vencer

 De pé, junto à berma do passeio, vai assistindo ao desenrolar da manifestação. Tem um ar satisfeito. Sorri para as pessoas e incentiva-as para que nunca deixem de lutar pelos seus direitos. Foi sindicalista e ainda não faltou a uma manifestação do 1º de Maio desde que ele é comemorado em liberdade. Aos 79 anos, tem esperança num futuro diferente para o país porque os maus momentos não duram para sempre.

 Já não tenho pernas mas ainda tenho cabeça e sei qual é o lado certo da barricada. É onde está o povo. E este acaba sempre por vencer.

As pernas é que já não deixam porque senão não estava aqui parado. Gosto de ver este mar de gente a gritar por justiça, por direitos e salários que não sejam uma vergonha. Fui sindicalista, travei muitas batalhas com o patronato e sei que não é fácil lutar contra o poder do dinheiro. Mas este é talvez um dos piores momentos da História do país. Acusaram as pessoas de serem responsáveis pela crise, de gastarem mais do que deviam. Tudo para as dividir. E conseguiram. Mas agora estão desacreditados, já ninguém lhes dá ouvidos. Estamos todos à espera das eleições, não é? Moro por aqui e custa-me ver tanta gente sem nada para fazer, a dormir nas ruas, a mendigar um prato de sopa para matar a fome. Miseráveis, são uns miseráveis estes governantes. E mentem tanto que já tropeçam nas suas próprias mentiras. Desculpe estar a falar desta maneira mas fui sindicalista e por vezes é preciso engrossar a voz para falar com um certo tipo de gente…como estes que estão lá agora. Já não tenho pernas mas ainda tenho cabeça e sei qual é o lado certo da barricada. É onde está o povo. E este acaba sempre por vencer.

 Os estágios labirínticos

 Veio à manifestação com um grupo de amigos por imperativos de consciência e dever de cidadania. Acabou há 3 anos a licenciatura em Comunicação Social e até agora só conseguiu trabalhar como estagiário sem remuneração em dois órgãos de comunicação social e no departamento de comunicação de uma ONG. Tem 26 anos e uma vontade quase indomável de participar na mudança do país.

 Estamos a viver um processo de contrarreforma e um pouco por todo o lado as pessoas estão a ser vítimas da retirada de direitos sociais e laborais.

Ninguém deve estar alheado em relação ao que se está a passar em Portugal e também nos restantes países da Europa. Estamos a viver um processo de contrarreforma e um pouco por todo o lado as pessoas estão a ser vítimas da retirada de direitos sociais e laborais. Com o argumento de que o Estado está exaurido, o que é falso, está tudo a ser entregue ao sector privado naquele que poderá ser o grande negócio deste século. Não podemos permitir que setores essenciais como a saúde, a educação ou os transportes sejam entregues numa bandeja aos privados porque isso implicará a sua degradação e a subversão do conceito de serviço público sem o qual nenhuma sociedade consegue sobreviver de forma equilibrada.

 O meu pai está à espera de ser chamado há quase um ano para ser operado aos olhos e a sua situação tem-se agravado. Se tivesse dinheiro era tratado imediatamente no sector privado. Foi até um médico que lhe propôs isso. Mas ele não tem dinheiro e está revoltado porque se perder a visão sabe que o crime fica sem castigo porque o poder político goza de um inconcebível estatuto de impunidade.

 Os meus pais andam tristes por causa de mim. Não arranjo trabalho a não ser os estágios de que já desisti. No início até achei que podia ser interessante para fazer currículo. Mas depois percebi que são um estratagema para as empresas terem mão-de-obra gratuita. Não conheço um caso em que tenham integrado um estagiário nos quadros.

 Acredito na mudança e por isso estou grávida

 Soube há pouco mais de um mês que está grávida. Este facto não a impediu de marcar presença na manifestação ao lado do namorado. Porque é trabalhadora acredita que Portugal vai melhorar. Um país é aquilo que quisermos que ele seja. E ninguém quer viver submetido ao poder discricionário de políticos sem escrúpulos. Aos 35 anos é professora contratada.

 Estou feliz por ter concretizado o sonho de ser mãe. Algo que foi adiado durante alguns anos porque o meu marido esteve fora do país. Estou indignada pelo estado em que o Passos Coelho e a troika puseram o país. É inadmissível deparar com tantas dificuldades, tanta miséria e desemprego e depois vê-los na televisão a falar em saídas limpas e recuperação económica. Gostava que os partidos e os sindicatos fossem mais acutilantes na denúncia destas mentiras. Independentemente das diferenças devem estar unidos porque se puxarmos todos para o mesmo lado o governo não se aguenta. E é isso que tem faltado. Estou contente por ver tanta gente na manifestação que afinal é a manifestação de todos nós: aqueles que trabalham e os que lutam contra o desemprego.

Na minha escola, aflige-me perceber que há miúdos cujos pais já não têm possibilidades de lhes dar de comer.

Na minha escola, aflige-me perceber que há miúdos cujos pais já não têm possibilidades de lhes dar de comer. É na escola que matam a fome. E, por vezes, é connosco que desabafam sobre os problemas que têm em casa. As discussões entre os pais, as contas que ficam por pagar…enfim há miúdos que andam com os nervos à flor da pele. Assim, não conseguem concentrar-se, faltam às aulas e muitos acabam por entrar em maus caminhos.

 Tenho um irmão que também é professor e este ano não conseguiu colocação. Está a trabalhar no café dos sogros porque não quer estar parado. É horrível o que se está a passar em Portugal

 Somos a razão de todos os males

 Caminha no meio da multidão e prefere o silêncio às palavras de ordem. Veio sozinha à manifestação porque também na vida está só. Juntou-se àqueles que lhe pareceram ter mais idade porque aos 67 anos diz que também é velha. Velha e reformada e por isso um “mártir entre os mártires” do governo.

 No dia em que vi que a minha reforma tinha sido cortada em 50 euros chorei.

 No dia em que vi que a minha reforma tinha sido cortada em 50 euros chorei. Foi há cerca um mês após a entrada em vigor dos novos cortes nas pensões. Este dinheiro faz-me falta mas confesso que o que mais me chocou foi a mensagem que o governo quis passar a todos os reformados: vocês são a principal razão dos males do país porque não trabalham e recebem dinheiro. Como se uma reforma fosse um bónus e não tivesse sido ganha após anos de trabalho e descontos. Sou uma pessoa só, sempre fui muito metida comigo mesma. Sem grandes relacionamentos. É a primeira vez que estou numa manifestação e por isso sinto-me um pouco desconfortável. Mas não podia deixar de vir. Para estar junto daqueles que como eu querem dizer aos governantes que enquanto estivermos vivos temos direitos e exigimos ser tratados com respeito.

 Provisório ou definitivo?

 Quando andava na escola fizeram uns pavilhões pré-fabricados com carácter provisório. Para alojar os alunos durante um ou dois anos enquanto estava a ser construído o novo edifício. Quando este ficou pronto foi inaugurado com a pompa devida e a presença de um membro do governo da altura. Isto passou-se no início dos anos 80 e só há 4 ou 5 anos é que deixaram de funcionar porque a ruína estava iminente.

 Com ironia, não posso deixar de estabelecer um paralelismo em relação aos cortes que eles andam aí a fazer naquilo que as pessoas ganham. De provisórios ou seja para vigorar durante o memorando querem agora torná-los definitivos. Por isso eu pergunto: foi um lapso, uma mentira ou a troika deixa apenas de aterrar em Lisboa de 3 em 3 meses mantendo-se no entanto na condução dos destinos do país?

 Por isso eu pergunto: foi um lapso, uma mentira ou a troika deixa apenas de aterrar em Lisboa de 3 em 3 meses mantendo-se, no entanto, na condução dos destinos do país?

Enquanto cidadão e educador (sou professor há 22 anos) digo muitas vezes aos meus alunos que andar na vida sem sentido ético é como conduzir um carro em contramão. Foi isto que aconteceu ao Coelho e ao Portas. Sem freio conduziram o país para um desastre de grandes dimensões. Muitas das vítimas estão aqui hoje e os culpados na tentativa de escapar ao julgamento, leia-se eleições, tentam delinear um novo itinerário com emprego e prosperidade à vista. Uma espécie de delírio coletivo que nos querem impor pois a única certeza, aquilo que sentimos todos os dias tem um nome que todos já conhecemos: austeridade. Que, pelo que vejo neste 1º de Maio, não durará tanto tempo até sair de cena como os pavilhões da minha antiga escola.

 


Estes depoimentos foram recolhidos durante a manifestação do 1º de Maio em Lisboa, organizada pela CGTP.

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