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25 de Abril de 2014: Indignação e esperança nas ruas de Lisboa

O Esquerda.net esteve nas ruas a ouvir aqueles e aquelas que fazem parte das estatísticas que povoam o nosso dia-a-dia mas estão longe dos holofotes mediáticos. Por Pedro Ferreira.
Foto de Paulete Matos.

Fazem parte das estatísticas que povoam o nosso dia-a-dia mas estão longe dos holofotes mediáticos. Fazem parte de um momento histórico que o atual poder político quer empurrar para o vazio da exclusão.

São portugueses, com identidade e opinião a viver um tempo que muitos consideram ser o pior das suas vidas.

Entre a perplexidade de algo que julgavam não ter de (voltar) de viver, e o receio que sentem em relação ao futuro, dão voz à sua indignação manifestando ao mesmo tempo esperança que o pesadelo por que estão a passar acabe depressa. Tão depressa como há quarenta anos se esboroou um regime alicerçado na repressão e no medo.

O Esquerda.net foi ouvi-los, mostrando que não há um país a caminho da recuperação económica, à beira de resgatar a sua soberania. A máquina de propaganda montada pelo governo PSD/CDS sucumbe assim à realidade vivida por milhões de portugueses feridos na sua dignidade, mas dispostos a dar continuidade ao legado deixado há 4 décadas por um punhado de militares que rasgaram novos horizontes num país até então sequestrado pela pobreza e pela resignação.

A liberdade e a democracia não têm valor de mercado, não se transacionam na bolsa e não entram nas contas dos jogos especulativos do obscuro mundo da alta finança. Mas a vontade popular acabará por falar mais alto para tomar de novo nas suas mãos o futuro de Portugal.

Os cravos que não murcham

As pessoas não têm dinheiro e o governo ainda diz que as pessoas ganham muito. É triste ouvir isto.

Sou vendedora ambulante há muitos anos, e sei que as pessoas andam com vontade de dar a volta a isto porque já quase não se consegue viver neste país.

Em 1974 eu era ainda muito pequena mas lembro-me da miséria em que viviam os meus pais.

Havia dias em que não tínhamos dinheiro para comer. Eramos cinco irmãos e só o meu pai é que trabalhava. Quando havia trabalho porque ele andava nas obras. Fiz a 4ª classe já em adulta, trabalhei numa fábrica e depois vim para a venda. Vendo de tudo. Quando há bola, na praia, enfim vou sobrevivendo assim. Mas isto está muito mal. As pessoas não têm dinheiro e o governo ainda diz que as pessoas ganham muito. É triste ouvir isto.

Agora há pouca gente a comprar. Eu farto-me de dizer que estes cravos não murcham se forem bem tratados, mas mesmo assim a pessoas passam ao lado. Ninguém tem dinheiro na carteira, está tudo pobre…não sei como é que isto vai acabar.

(Maria Cecília, 54 anos, vendedora ambulante)             

 Trabalhadores ou escravos?

É uma vergonha o que se passa em Portugal e por isso algo tem de ser feito.

Há dias, lá no meu trabalho fui quase humilhado por ter ido à casa de banho duas vezes no espaço de uma hora. Fi-lo por necessidade, mas o supervisor disse-me que me ia ser penalizado no ordenado no final do mês. Não me contive e perguntei-lhe se aquilo era uma empresa de trabalhadores ou de escravos. Estamos sete horas virados contra uma parede a falar ao telefone com os clientes. Alguns são muito mal-educados. Já não tenho nervos para aguentar aquilo. Mas preciso do dinheiro, do pouco dinheiro que ganho ali. Estou triste e preocupado.

Agora sei que estou na ‘lista negra’ e qualquer dia põem-me na rua. Confesso que ainda me surpreende que tenhamos chegado até aqui. É uma vergonha o que se passa em Portugal e por isso algo tem de ser feito.

Eu voto, voto sempre mas não sei se algo mudará com as eleições. Talvez seja preciso fazer mais alguma coisa.

(Carlos S., 30 anos, licenciado em Antropologia, trabalhador num call-center)

A que distância ficam os sonhos?

Este governo mente, engana as pessoas, diz que está tudo a melhorar e o que nós vimos é um país a caminhar vertiginosamente para a miséria.

Sou licenciada em Enfermagem e ando há procura de trabalho há quase três anos. Não consigo encontrar trabalho na minha área e já estive a trabalhar numa loja durante 6 meses. Não me renovaram o contrato. Sonhei ser enfermeira desde pequena, e agora sinto-me desiludida por não conseguir exercer a minha profissão. Não gostaria de emigrar e deixar os meus pais. Sou filha única, sabe como é. Eles esforçaram-se muito para que eu pudesse estudar.

Este governo mente, engana as pessoas, diz que está tudo a melhorar e o que nós vimos é um país a caminhar vertiginosamente para a miséria. Tenho uma colega de curso que até já tentou o suicídio. Precisamos de agir rapidamente para que aconteça uma mudança de políticas. As pessoas estão desmobilizadas e assim sem se aperceberem fazem o jogo deles. Não podemos continuar a ser carne para canhão destes abutres.

(Joana Castro, 27 anos, licenciada em Enfermagem, desempregada)

Apartheid económico nas prateleiras de um hipermercado

O voto é a arma dos amordaçados e violentados pela usura dos que prosperam à custa da pobreza dos trabalhadores.

Repulsa, é a expressão mais apropriada para definir o que sinto em relação a este Governo e às suas políticas que afundaram o país.

 Não tenho os políticos em grande conta nem as cerimónias oficiais do 25 de Abril que considero hipócritas.

Prefiro a autenticidade popular porque foi nesse contexto que se fez o 25 de Abril. Com muita generosidade e dirigido ao povo e não para uns quantos que o aprisionaram aos seus interesses.

Não tenho filiação partidária, já votei no PS e no PSD e também já houve eleições em que me abstive. Mea culpa.

Sou crítica da União Europeia, que qualifico com um sórdido feudo de interesses políticos e económicos e por isso já sei em quem vou votar no próximo dia 25 de Maio.

O voto é a arma dos amordaçados e violentados pela usura dos que prosperam à custa da pobreza dos trabalhadores.

Mas a democracia não se esgota nas eleições. É um processo contínuo e por isso não pode viver afastada das pessoas. Se há pobreza, desigualdades e injustiças, vivemos isso sim numa ficção que em muitos casos acaba por ser mais perversa do que se estivéssemos em ditadura.

Toda a gente, ou pelo menos a maioria, sabia que o Salazar não era um democrata. Ele próprio dizia que não acreditava na democracia. Agora eu pergunto: faz sentido o Passos Coelho ou o Cavaco Silva dizerem que são democratas? Alguém ainda acredita nisso?

Depois de ter trabalhado durante 10 como gestora numa multinacional fui despedida e sou agora operadora de caixa num hipermercado. E estou revoltada com aquilo que qualifico como o apartheid económico das prateleiras. Há cada vez mais produtos baratos e de má qualidade que são colocados em prateleiras específicas e que se destinam aos mais pobres. No mesmo espaço onde estão os produtos mais caros e com mais qualidade. O gerente da loja faz questão de lembrar todos os dias às minhas colegas repositoras que não se podem enganar na colocação desses produtos. Desta forma: já sabem onde devem colocar os produtos para os pobrezinhos. Se se enganarem, pagam. E ri-se. Às vezes ri-se mesmo muito. E isso revolta-me.

(Manuela Silva, 43 anos, licenciada em Gestão de Recursos Humanos)

Sou de História, logo não tenho valor económico

Gostava de trabalhar nesta área mas estou a ver que a única possibilidade que me resta é sair de Portugal.

Sou estudante do curso de História e pelos vistos vou ser atirado para o caixote do lixo porque segundo as regras vigentes, não tenho valor para entrar no mundo do trabalho. As Ciências Sociais que, segundo alguns, são até indignas de ter esta designação, não interessam à economia e ao desenvolvimento do país e como tal deviam ser banidas do ensino. É lamentável e acima de tudo chocante o que certas pessoas dizem ou escrevem. Como se um país digno desse nome pudesse prosperar sem esta componente de investigação. Gostava de trabalhar nesta área mas estou a ver que a única possibilidade que me resta é sair de Portugal. Eu não queria, mas sinto-me ostracizado e à beira de ser expulso do país onde nasci só porque segui a minha vocação que está muito longe dos mercados bolsistas e da gestão financeira.

(Ricardo Correia, 23 anos, finalista do curso de História)

Não quero voltar a andar descalço

Tantos anos a trabalhar e agora faço contas e contas para ver se consigo comprar um par de sapatos e nunca me sobra dinheiro.

Comecei a trabalhar aos 9 anos no campo. Tinha que ajudar os meus pais. Só calcei um par de sapatos dignos desse nome aos 10 ou 11 anos. Casei-me e vim para Lisboa. Tinha 21 anos. Arranjei emprego numa fábrica de plásticos onde estive 35 anos. Tenho uma reforma de 510 euros e a minha mulher de 185 euros. Tantos anos a trabalhar e agora faço contas e contas para ver se consigo comprar um par de sapatos e nunca me sobra dinheiro.

O sapateiro, que conheço há muitos anos e é meu vizinho, já me disse que os sapatos, os únicos que tenho, acredite, já não aguentam mais consertos. Ando pouco, saio pouco de casa. A minha mulher é doente e os transportes são muitos caros. Dantes, no Verão, ainda íamos até à Costa da Caparica porque eu gosto muito de praia e de ver o mar. Agora já nem isso posso fazer. É tudo muito caro.

Felizmente ainda consegui comprar a casa onde moro. O dono era um homem sozinho foi-se embora de Lisboa e fez-me um preço jeitoso. Mas custou-me a pagar. Se assim não fosse se calhar já andávamos na rua como há muitos por aí. Mas eu não quero voltar a andar descalço ou de chinelos. Temos que defender a nossa dignidade, não é verdade? Já me disseram para ir falar com a Igreja que talvez me arranjem lá uns. Mas eu tenho alguma vergonha. É que trabalhei muito e não queria andar a pedir. Às vezes nem durmo a pensar nisso. Depois só oiço falar em cortes de ordenados e reformas. Por acaso, sabe dizer-me se eles me vão cortar na reforma?

( José Silva, 75 anos, reformado)

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Jornalista
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