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“Um futuro feito de inevitabilidades é uma fraude”

Na sessão solene na Assembleia da República, Mariana Mortágua criticou a “rendição da democracia” vigente em Portugal 40 anos depois da Revolução, “em que toda a governação é feita a pensar nos mercados e avaliada por eles”.
Mariana Mortágua discursou na sessão solene dos 40 anos do 25 de Abril na Assembleia da República.

A intervenção da deputada bloquista começou por falar da dívida da sua geração que “não conheceu outro regime que não a democracia de Abril” para quem se opôs à ditadura e “trouxe para Portugal o século XX”. Numa saudação aos Capitães de Abril, que à mesma hora realizaram uma comemoração no Largo do Carmo, Mariana Mortágua defendeu que “a vossa voz merecia ser ouvida, aqui e hoje, porque é a voz de todos os que vos devem a voz”. “Assim se faria a mais notável democracia, sem tutelas nem complexos, juntando o passado e o presente de um país que nos exige a responsabilidade da memória”, prosseguiu a deputada.

“Renderam a nossa democracia à ditadura dos mercados”

40 anos depois do 25 de Abril, Mariana Mortágua enalteceu as suas principais conquistas, hoje em perigo pelas políticas seguidas pelo Governo. “renderam a nossa democracia à ditadura dos mercados e é em seu nome que governam. Merkel locuta est, causa finita est: se Merkel falou, a conversa acabou. Se Berlim manda, o governo cumpre. Se os mercados murmuram, o país treme”, resumiu a deputada do Bloco.   

A deputada não poupou palavras para atacar o “moralismo sinistro de quem diz a Portugal que governa para punir, sacrificar e redimir” e que ao mesmo tempo “rejeita a existência de qualquer alternativa a este fanatismo austeritário destruidor”. “Estranha forma de democracia esta em que toda a governação é feita a pensar nos mercados e avaliada por eles”, prosseguiu.

“Chamam consenso à passagem do tempo da Troika para o tempo do Tratado Orçamental. Um salto limpo da panela para a frigideira”, prevê a deputada do Bloco.

O “consenso do arco da governação” representa uma vontade de eternização do poder dos que governam para os mercados financeiros, argumentou a deputada do Bloco, fazendo o balanço da austeridade, que “não é um remédio, é uma peçonha”, como provam os resultados dos últimos anos. 

“Passar da troika para o Tratado Orçamental é saltar da panela para a frigideira”

A oposição firme ao consenso do pós-troika em torno do Tratado Orçamental foi o tema forte da intervenção do Bloco nos 40 anos do 25 de Abril. Mariana Mortágua contrariou esse “refrão”, chamando-lhe “o embuste dos governantes que querem silenciar o país para continuarem a governar para os mercados”.

“Chamam consenso à passagem do tempo da Troika para o tempo do Tratado Orçamental. Um salto limpo da panela para a frigideira”, prevê a deputada do Bloco, para quem o Tratado apoiado por PS, CDS e PSD “é a lei dos credores, dos mercados, que querem sobrepor à constituição de Abril” uma “outra Constituição, não escrita, não votada, não escrutinada”.

“As pessoas valem mais que os mercados, a democracia vale contra o empobrecimento, Portugal vale mais que a Goldman Sachs”.  

“Um futuro feito de inevitabilidades é uma fraude. Não há democracia sem escolha. Quando nos dizem que, independentemente do que escolhermos, o nosso futuro a 20 ou 30 anos já está decidido, é a própria democracia que está em causa”, lamentou Mariana Mortágua, depois de lançar o desafio: “não nos respondam com ameaças, com os afobos da comissão europeia ou os trovões dos mercados. Falem de soluções”.

A deputada do Bloco lembrou que existem alternativas, como ficou bem patente na apresentação do manifesto pela reestruturação da dívida. “As soluções são difíceis, mas existem”, defendeu, concluindo que “a solução é coragem: as pensões dos idosos valem mais que as rendas garantidas, as pessoas valem mais que os mercados, a democracia vale contra o empobrecimento, Portugal vale mais que a Goldman Sachs”.  

"Renderam a nossa democracia à ditadura dos mercados"

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